Escolha as suas informações

Crítica de cinema/"Two popes". Dois amigos partilham uma pizza
Cultura 3 min. 16.01.2020

Crítica de cinema/"Two popes". Dois amigos partilham uma pizza

Crítica de cinema/"Two popes". Dois amigos partilham uma pizza

Foto: DR
Cultura 3 min. 16.01.2020

Crítica de cinema/"Two popes". Dois amigos partilham uma pizza

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Neste filme não se passa rigorosamente nada. E, no entanto, o prazer de o ver é incomparável.

Alerta: se está à espera de um filme de ação pode desde já virar a página. O momento mais animado desta obra é quando os protagonistas se metem num helicóptero com um vasinho com um pé de orégão. E – desculpem-me o spoiler – o helicóptero nem cai nem nada. Ah! Perdoem-me pois quase me esquecia de outro momento bastante animado: há um jogo de futebol e os dois protagonistas divertem-se bastante com os golos da Argentina e da Alemanha. Mas se bem me lembro é tudo no que diz respeito a ação...

Neste filme não se passa rigorosamente nada. E, no entanto, o prazer de o ver é incomparável. "Two Popes", "Dois Papas" em português, está na plataforma de streaming Netflix e quando decidi vê-lo chamei a minha mãe e a minha sobrinha de dez anos para se sentarem comigo no sofá. Elas gostaram, mas eu acho que apreciei ainda mais. Pedi ainda a uma amiga muçulmana para o ver e me dizer o que sentiu. Ela, praticante, também apreciou, sobretudo o debate sobre a necessidade de "reformar e modernizar sem abandonar a santidade". O filme realizador pelo brasileiro Fernando Meirelles é exatamente sobre a mudança e, sobretudo, sobre a tendência para ficarmos colados ao passado, às tradições: se sempre funcionou, por que diabos devemos mudar agora?

O defensor desta tese dentro da Igreja Católica chama-se Joseph Ratzinger, é alemão, e ficou na História sob o nome de Bento XVI mas também por ser o primeiro papa em mais de 500 anos a abdicar. E é esse o momento que nos mostra "Two Popes": Bento XVI recebe o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio que pretende ir para a reforma, mas nem sequer suspeita que o sumo pontífice pretende também deixar a liderança da Igreja.

O encontro entre os dois homens nunca aconteceu, mas as cartas de Bergoglio a solicitar a reforma são reais. O cardeal argentino estava cansado e solicitou a Bento XVI que o libertasse dos seus deveres pastorais. No filme de Fernando Meirelles, Bergoglio vai a Itália para tentar convencer o papa a que o autorize a partir.

O encontro entre os dois homens é fascinante porque tudo os separa. Apesar de ambos manifestarem grande fé e sentido de missão, as suas ideias sobre o futuro da Igreja Católica são bastante distintas. Bento XVI sempre foi conhecido pela sua ortodoxia, enquanto que o cardeal argentino, que agora se chama papa Francisco, tem uma visão mais progressista do rumo que a Igreja deveria seguir.

"Two Popes" é apenas uma longa conversa entre dois homens que debatem teologia, ideologia, sociologia, mas também futebol e questões de saúde, como qualquer par de velhotes que se cruza no café. Um pequeno pormenor distingue esta conversa da que o senhor Costa e o senhor Frederico poderiam ter no Café Central: é que um deles manda nos destinos da Igreja Católica e o outro vai brevemente tomar conta do cargo.

O realizador e o argumentista integraram flahsbacks e imagens de contexto, mas deixam claro que o coração do filme são as conversas entre os dois homens. Mas se este encontro nunca teve lugar, em que se baseou Anthony McCarten, o homem que escreveu os diálogos? Simplesmente em textos públicos ditos ou escritos por Bento XVI e por Francisco. O argumentista defende que as conversas do filme são plausíveis e que a especulação que propõe tem uma enorme dose de verdade. McCarten espera ainda que as conversas sejam "inspiradoras". E aí é que está a força de "Two Popes": o 'mano a mano' entre os dois homens é delicioso de observar e, mesmo que tenhamos a tentação de tomar partido por um deles, o filme consegue transmitir simpatia por ambos. 

A isso não é alheio o facto de o realizador ter como atores Jonathan Pryce e Anthony Hopkins. A prestação de ambos é fabulosa e o bónus é que Pryce até é bastante parecido com o papa Francisco. A Academia de Cinema de Hollywood também reparou no brilhante trabalho dos atores, tendo nomeado os dois para os Óscares.