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Crítica de cinema/"The Mule": O cavaleiro solitário

Crítica de cinema/"The Mule": O cavaleiro solitário

Foto: DR
Cultura 2 min. 03.02.2019

Crítica de cinema/"The Mule": O cavaleiro solitário

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Ainda me dói quando penso no penúltimo filme de Clint Eastwood. Tão mau tão mau que temi que o ator e realizador americano pudesse morrer sem rodar uma nova película para deixar uma melhor recordação da sua fantástica carreira.

"15:17 to Paris" foi um erro na carreira, irregular mas extraordinária de Clint Eastwood. "The Mule" é uma oportunidade de reabilitação para Eastwood, sobretudo porque o norte-americano é, de novo, ator e realizador, abordagem que lhe costuma sair bem.

O protagonista de "The Mule" chama-se Earl Stone, um ex-combatente da guerra da Coreia. É um artista com as plantas, capaz de conseguir um jardim mais bonito do que qualquer português das Beiras. O homem tem mais de 80 anos e o seu negócio afunda-se. Separado da mulher que o abandonou há muito, Earl tem péssima relação com a filha, contando só com o amor incondicional da netinha.

É por causa da jovem neta que Earl vai encontrar um original "empregador" que pede ao idoso para ser chofer entre os EUA e o México. Earl vai ser transportador de droga, ou seja, uma "mula"; daí o nome do filme: "The Mule".

O argumento de Nick Schenk – o mesmo de "Gran Torino" – dá a oportunidade a Clint Eastwood de mostrar as suas obsessões e de dizer as coisas sem preocupações de ser politicamente correto. O protagonista é um dinossauro e faz afirmações que podem não agradar a uma boa faixa do público; apesar disso, Earl é amigo do seu amigo e uma pessoa agradável.

Clint Eastwood como ator, na sua avançada idade, se não existisse tinha de ser inventado. Frágil, e cansado, por vezes a personagem que interpreta parece o trabalho de um escultor exagerado. Como aconteceu em filmes anteriores há momentos que fazem pensar na autobiografia, e o facto de a filha de Eastwood desempenhar o mesmo papel no filme ajuda à confusão e à mistura da biografia com a autobiografia no que, afinal, é uma ficção inspirada numa história real.

"The Mule" é um drama sem grandes surpresas com retoques cómicos que se devem sobretudo a algumas personagens mais ou menos grotescas. Já vimos muitas vezes as estradas poeirentas e desertas, as sanduíches de beira do caminho ou a música que entoa num bar manhoso. O deixa-nos tempo de admirar essas coisas tão americanas e aproveitar a vida, tal como Earl que, aos 80 e tal anos, faz pausas para aproveitar cada segundo, cada minuto, cada hora que lhe resta.

Eastwood tornou-se, mais do que nunca, num cineasta de ambientes, de quotidianos que se sucedem, sendo sempre honesto e sincero apesar das dificuldades do tema central deste filme entusiasmante.

O velho realizador parece mais livre do que nunca, e aproveita a fundo esta personagem tão rica e multifacetada. À superfície parece que Clint Eastwood quer fazer desta obra um testamento, mas há tanta coisa que nos deixa a certeza de que o velho americano ainda tem muito para nos contar...

"The Mule", de Clint Eastwood, com Clint Eastwood, Bradley Cooper, Laurence Fishburne, Dianne Wiest, Taissa Farmiga, Alison Eastwood e Andy Garcia.