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Crítica de cinema/“Sawah”. Brincar com coisas sérias

Crítica de cinema/“Sawah”. Brincar com coisas sérias

Cultura 3 min. 06.04.2019

Crítica de cinema/“Sawah”. Brincar com coisas sérias

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Quando um DJ egípcio tenta falar com um polícia luso-luxemburguês dá nisto...

Não há nada mais difícil do que escrever uma crítica de um filme que vai ser lida por quem o fez ou nele participou. Detesto ter de escrever sobre filmes em que participam amigos ou conhecidos, pois o risco de não ser objetivo é muito grande.

Ainda bem que não sou americano a viver em Hollywood, uma vez que, nesse caso, teria muitas dificuldades para escrever críticas. Felizmente sou português e vivo no Luxemburgo onde este drama me acontece apenas uma ou duas vezes por ano... 

A primeira vez foi com um filme de Luís Galvão Teles chamado “Retrato de Família”. Uma película rodada no Luxemburgo e realizada por um amigo foi para mim um drama: recordo-me que reli cada linha dez vezes e pesei cada palavra. No final fiquei com a impressão de que fui duro com o filme, que não fui generoso nas minhas opiniões. Dias mais tarde cruzei-me com o Luís e, ainda antes de lhe pedir desculpa, ele disse-me: “foste simpático demais”...

Décadas depois, cá estou eu a falar de um filme feito por um homem que conheço e com um ator que admiro. “Sawah” é um projeto do realizador luxo-egípcio Adolf El Assal, conhecido por ter assinado “Les Fameux Gars”, um filme que tinha viagens a Portugal filmadas no Luxemburgo e loucas aventuras de um grupo de amigos. Apesar da realização um tanto ou quanto desordenada, a obra de El Assal tornou-se objeto de culto para muitos jovens do Grão-Ducado.

“Sawah” não é a comédia maluca que El Assal propunha em “Les Fameux Gars. Este novo trabalho demonstra mais empenho e consideração pelo argumento, pelas personagens e pela qualidade das imagens.

O filme começa no país de origem do realizador, o Egito. Lá descobrimos um jovem DJ que conquista um prémio que lhe dá acesso a um concurso mundial que terá lugar em Bruxelas. Samir (Karim Kassem) espera com esse concurso tornar-se finalmente um DJ de renome e deixar o seu país que está mergulhado no caos político. Deixando para trás a cidade do Cairo, o pai e a namorada, Samir mete-se num avião para Bruxelas, mas o voo acaba por ter de aterrar no Luxemburgo.

Samir vai descobrir um país de que nunca tinha ouvido falar, onde se cruzam várias línguas e gente muito estranha, de todas as origens e mais alguma. Confundido com um refugiado, Samir é preso, arranja uma “bricola” num “food truck” e procura desesperadamente uma boleia para Bruxelas.

Ao contar a história toda não estraguei em nada o prazer de ver “Sawah”. O filme de El Assal é, tal como “Les Fameux Gars”, um “road movie” que vale pelos seus elementos, pelos pequenos momentos. Mas sobretudo pelas curiosíssimas personagens, incluindo um polícia luxemburguês de origem portuguesa chamado Miguel que Nilton Martins encarna com a sua habitual competência e motivação.

Esta nova obra de El Assal nada tem em comum a nível técnico com o anterior trabalho do realizador. Há mais cuidado, mais meios e muita seriedade na forma como cada cena é abordada. Lamenta-se uma total incapacidade de criar diálogos divertidos. Apesar de a história ter a qualidade de brincar com coisas sérias e de atravessarmos o filme com um sorriso nos lábios, sente-se a falta de sentido de humor para fazer rir com aquilo que as personagens vão dizendo. É pena porque com tal caderneta de cromos o potencial humorístico era imenso, e acabamos por sorrir quase sempre porque as personagens são ridículas e nada mais...

“Sawah”, de Adolf El Assal, com Karim Kassem, Eric Kabongo, Nilton Martins, Jean-Luc Couchard, Mourade Zeguendi e Elisabet Johannesdottir.


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