Crítica de cinema

História de amor num matadouro

Ninguém diria que ela se transforma em veado no meio da noite...
Ninguém diria que ela se transforma em veado no meio da noite...

A narrativa deste filme húngaro, que conquistou os favores do festival de cinema de Berlim, gira em torno do casal formado pela jovem Mária e Endré. Ela arranja um emprego como controladora de qualidade no mesmo matadouro onde ele já trabalhava. Os dois desenvolvem uma estranha e forte ligação quando começam a encontrar-se, apesar de não se conhecerem muito bem, nos seus próprios sonhos, em forma de veados, na margem de um lago.

Se está a pensar que este filme se apresenta como 100% militante a favor dos animais acertou. O matadouro é utilizado e abusado para mostrar de forma muito gráfica como são abatidos os animais. Por outro lado, os protagonistas reúnem-se no mundo dos sonhos também como animais mas belos e nobres que vivem felizes na natureza.

“On Body and Soul” – no original húngaro “Teströl és lélekröl” – é um filme surpreendente e original mas que segue a estrutura de uma comédia romântica clássica. Não é preciso ser um cinéfilo para perceber que o filme arranca com o desencontro inicial do casal improvável, seguindo-se uma aproximação gradual mas com obstáculos, até chegarem ao (quase) romance. E, logo depois, o conflito que origina uma separação e que, afinal, não passa de um mal-entendido.

Apesar desta estrutura tão clássica, “On Body and Soul” não é uma comédia romântica mas um drama nu e cru. Os momentos que podem fazer sorrir o público têm origem na bizarria dos protagonistas e não em elementos puramente humorísticos.

As duas personagens principais são efetivamente curiosas: trata-se de duas pessoas solitárias com defeitos físicos e fortes perturbações psicológicas. Ambos estão muito longe do arquétipo dos protagonistas de uma comédia romântica...

O elemento mais perturbador desta obra é o contexto físico. A escolha de um matadouro permite, além dos momentos de crueldade, mostrar uma relação pouco convencional, para não dizer paranormal, entre duas pessoas muito originais.

O argumento é intimista e frio, e segue a um ritmo calmo que parece natural para este tipo de história e para estas personagens que são... aborrecidas. Para muitos espectadores, o visionamento de “On Body and Soul” pode ser difícil mas merece o esforço porque este é daqueles filmes que se entranham e vão deixar recordações durante muito tempo.

“On Body and Soul”, de Ildikó Enyedi, com Géza Morcsáyni, Alexandra Borbély, Zoltán Schneider, Ervin Nagy, Tamás Jordán, Zsusza Járó, Réka Tenki e Júlia Nyakó.

Raúl Reis

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