Escolha as suas informações

Crítica de cinema: "Girl"

Crítica de cinema: "Girl"

Foto: Stephane Mahe/Wort
Cultura 2 min. 07.11.2018

Crítica de cinema: "Girl"

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Em "Girl", Victor Polster interpreta um jovem adolescente que quer ser bailarina clássica e que também quer ser mulher. O festival de Cannes não resistiu ao jovem belga.

Quando o vi na sala de pequeno-almoço naquela manhã ensolarada mas fria estranhei. O miúdo destacava-se pela postura, pela atitude, mas também pela roupa. Os pais tinham-se sentado minutos antes numa mesa do canto e explicaram aos empregados que "os adolescentes" estavam a chegar. Ele chegou (dos outros não me lembro) de fato preto e sapatilhas e quase não falou com a família, como qualquer rapaz de 15 anos. Comentei de mim para comigo: "este miúdo é alguém; mas quem?".

A resposta chegou a meio da tarde quando me sentei numa das salas onde são projetados os filmes do Certain Regard, uma secção paralela do festival de Cannes. "Girl" podia ter sido apenas mais um filme belga que despertou a minha curiosidade, ou apenas uma primeira realização com possibilidades de conquistar a Câmara de Ouro. O realizador Lukas Dhont acabou por levar para casa esse galardão além do reconhecimento dos jurados da Federação Internacional de Críticos de Cinema. Mas o miúdo com quem me cruzei ao pequeno-almoço foi escolhido como melhor ator do Certain Regard, onde o filme "Girl" participava.

Victor Polster interpreta um jovem adolescente que quer ser bailarina clássica e que também quer ser mulher. Aos 15 anos, e apesar de fisicamente ser um rapaz, já utiliza o nome de Lara. O jovem muda-se para a Flandres com o pai exclusivamente francófono e o irmão mais novo. O objetivo de Lara é estudar na melhor academia de dança do país, enquanto se prepara para a operação que vai permitir-lhe finalmente mudar de sexo.

"Girl" não escolhe o caminho do drama de um contra todos. Lara tem o apoio da família (talvez demasiado incondicional por parte do pai), dos médicos e dos professores da nova escola. Obviamente, a tensão chega dos colegas que, apesar de saberem que Lara ainda é um rapaz, aceitam bem a situação com pequenas mas dramáticas exceções que vão contribuir para o marcante final do filme.

O realizador belga Lukas Dhont trabalhou durante anos esta ideia e quase desistiu por causa da dificuldade de encontrar um ator para desempenhar o papel principal. O belga admitiu ter temporariamente deixado de lado a ideia por achar que nunca encontraria um rapaz que soubesse dançar e que tivesse o ar feminino que o papel exigia. A história de que o jovem realizador é co-autor com Angelo Tijssens é simples mas também extremamente complexa. Para os desconhecedores da realidade linguística belga, a primeira surpresa é a mistura de francês e neerlandês. E depois temos a fabulosa capacidade do ator principal para exprimir tanto com tão poucas palavras e com uma natural presença que enche o ecrã... e a nossa alma.

"Girl" pode ser criticado por interiorizar demais a viagem emocional de Lara, mas aquilo que podia ser uma fragilidade torna-se uma das grandes virtudes desta obra que já tem audiência garantida na comunidade LGBT. Se a realização de Dhont é banal, o argumento e, sobretudo, a prestação de Victor Polster merecem chegar ao grande público.

Em "Girl", de Lukas Dhont, entram Victor Polster, Arieh Wolthalter, Olivier Bodart, Tijmen Govaerts e Katelijne Damen.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.