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Filme "Opération Portugal". Elogio do cliché
Cultura 4 min. 09.07.2021
Crítica de cinema

Filme "Opération Portugal". Elogio do cliché

Crítica de cinema

Filme "Opération Portugal". Elogio do cliché

Foto: DR
Cultura 4 min. 09.07.2021
Crítica de cinema

Filme "Opération Portugal". Elogio do cliché

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Basicamente, "Opération Portugal" é um enorme clichê. Um filme mal amanhado cheio de ideias feitas e de piadas nelas baseadas.

Eu não tenho nada contra o uso de clichês e estereótipos no cinema. Umas vezes ajudam a explicar coisas complicadas, outras vezes servem como acessório simples e rápido e muitas vezes são excelentes utensílios para fazer humor.  

E, acredito, ainda e contra a corrente, que se pode fazer rir com todos os temas, incluindo os clichês. Este é um princípio essencial da nossa vida em sociedade, a liberdade de expressão. Não vamos agora debater num espaço dedicado ao cinema onde ela começa e acaba mas, a meu ver, as fronteiras são vastas porque eu prefiro ficar chocado ou ofendido do que fechado em casa com uma pulseira electrónica porque disse algo que alguém mais poderoso do que eu não gostou.  

Estas reflexões são inspiradas pelo filme "Opération Portugal", uma ideia do humorista D’Jal, que se celebrizou a imitar portugueses nos seus sketches de 'stand up'.  D’Jal é francês, de origem magrebina, e cresceu nos subúrbios de Paris entre amigos de várias nacionalidades.

Apaixonado por cinema encontrou a fama com um sketch chamado "Le portugais", que apresentou pela primeira vez no Jamel Comedy Club e que lhe deu fama internacional. Inteligente, D’Jal decidiu capitalizar a personagem do português fazendo um filme. O resultado é "Opération Portugal", realizado por Frank Cimière. Trata-se de uma comédia bastante desengonçada que é um fartote de estereótipos sobre os portugueses. Mas, curiosamente, também sobre os árabes. E sobre os polacos, e sobre os polícias e sobre todas as personagens que aparecem no filme. 

Basicamente, "Opération Portugal" é um enorme clichê. Um filme mal amanhado cheio de ideias feitas e de piadas nelas baseadas.

Basicamente, "Opération Portugal" é um enorme clichê. Um filme mal amanhado cheio de ideias feitas e de piadas nelas baseadas. Vê-se também que nem sempre os consultores portugueses estiveram presentes no aconselhamento dos criadores da película porque há imprecisões e até mesmo alguns erros. 

Nem sequer perco tempo com o facto de o filme abusar da música brasileira e do malhão da Linda de Suza, mas achei quase hilariante que quando uma francesa tenta provar que a língua portuguesa é difícil começa por dizer a palavra corretamente para, logo a seguir, engasgar a tentar dizer Ansiães de forma afrancesada... 

Mas voltemos às ideias feitas sobre os portugueses e às piadas envolvendo bacalhau e a construção civil. É verdade que "Opération Portugal" abusa de todos os lugares comuns sobre os portugueses, emigrantes ou não. Mas também é verdade que isso não teria mal nenhum se o filme que daí resultasse fosse bom. 

O problema é que a obra que D’Jal queria levar ao cinema é uma amálgama de ideias que resultam apenas nisso: uma montanha de piadas e de situações que não se cimentam entre elas e que - pior ainda – não têm graça. D’Jal terá falado a Frank Cimière, homem habituado a realizar documentários e a filmar stand-up. 

O realizador admitiu em entrevistas que o humorista tinha "mil ideias por segundo". Cimière diz ter-se inspirado em "Les aventures de Rabbi Jacob" ou em "Very Bad Trip". Infelizmente, neste filme não se encontra nadinha ao nível das fontes de inspiração. O mesmo acontecendo com D’Jal que diz ter por referência Ben Stiller, em "There’s Something about Mary". Curiosamente, o francês de origem árabe D’Jal, na personagem de Hakim, polícia de sangue marroquino que tem de passar pelo português Joaquim, debita tantos clichês sobre os portugueses como sobre os árabes de França. 

Quis o destino que à saída da projeção de "Opération Portugal" eu cruzasse amigos de origem árabe. Todos concordamos que o filme é mau, mas perguntei: e então que acharam dos clichês sobre os portugueses? Responderam-me que não havia e que os poucos lugares comuns de que se aperceberam eram simpáticos e sem maldade. Em contrapartida, disseram em coro que o filme está cheio de estereótipos sobre os árabes! É curioso como cada um só vê aquilo que quer ver ou aquilo que o choca mais intimamente. 

Eu vi que "Opération Portugal" também se podia chamar outras coisas e se tivesse árabe no título não chocava ninguém, tal é a presença da cultura, hábitos e, naturalmente, estereótipos sobre os árabes de França. Mas é preciso afirmar que D’Jal deixa claro que tudo isto é no nosso interesse, com o objetivo de fazer rir. Se o objetivo fosse atingido, dormiríamos melhor. Neste caso, como as piadas ou são fracas ou não são originais, só apetece que o suplício acabe depressa. 

Algumas palavras finais para os atores. D’Jal faz aquilo a que nos habituou, brincando bastante bem com o sotaque português. Os criadores convidaram Bruno Sanches, o intérprete de Liliane na emissão Le Petit Journal, do Canal+, que faz uma aparição deliciosa no início do filme. Destaque para a bela Sarah Perles, uma luso-marroquina que interpreta com convicção o papel da jovem portuguesa prima da personagem de D’Jal. A jovem nasceu em Paris, tendo vivido, enquanto criança em Marrocos. Em França estudou representação na escola de teatro Cours Florent. Sarah Perles reside alternadamente entre Londres e Paris. As suas origens podiam ser o resumo desta "Opération Portugal" e da inspiração mista luso- árabe que tem o filme criado pela mente de D’Jal. 

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