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"Benedetta". Showfreiras
Cultura 1 2 min. 12.09.2021
Crítica de cinema

"Benedetta". Showfreiras

Crítica de cinema

"Benedetta". Showfreiras

Foto: DR
Cultura 1 2 min. 12.09.2021
Crítica de cinema

"Benedetta". Showfreiras

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
"Benedetta" é sobre a ardente relação entre duas freiras jeitosas num convento italiano do século XVII. Diga-se em abono da verdade que talvez seja um dos filmes mais contidos de Paul Verhoeven.

Quem conhece o cinema de Paul Verhoeven não ficará surpreendido se eu começar por dizer que "Benedetta" é sobre a ardente relação entre duas freiras jeitosas num convento italiano do século XVII. O filme inspira-se num sacrilégio caso real que talvez seja um dos primeiros exemplos documentados de relação lésbica da civilização ocidental. Um escrivão da paróquia contou-o no seu diário com detalhes curiosamente... detalhados.

No festival de Cannes deste ano, o filme era referido entre os jornalistas como "aquele em que uma freira usa um santinho de madeira para se consolar". Mas Verhoeven propõe pano para as mangas das fantasias. Há um punhado de momentos dignos de manchete e prontinhos para serem denunciados pela Igreja Católica (bem, se a protagonista fosse muçulmana, Verhoeven estava feito ao bife).

Diga-se em abono da verdade que "Benedetta" talvez seja um dos filmes mais contidos de Paul Verhoeven. O realizador deixa a impressão de que só está interessado na provocação; quer denunciar que a "vontade de Deus" tende a refletir os interesses daqueles que definem essa vontade. Em versão curta: cada um arranja a vontade do Senhor de forma a conseguir os seus objetivos.

Representada por Virginie Effira, de semblante severo e opaco, Benedetta é uma crente devota no amor de Jesus, que nem sempre tem certezas sobre a melhor forma de retribuí-lo. Uma certa grandiosidade acompanha a sua fé desde que foi aceite no convento como mais uma noiva para Cristo (com um grande dote do pai), e ela ouve a voz do seu marido eterno em sua cabeça com frequência e fervor.

Benedetta quer levar os seus votos de casamento com Deus a sério, mas oscila, acabando por cair quando estigmas começam a surgir durante o sono. Será que essas marcas não têm relação com a jovem de olhos castanhos que o convento acolheu para proteger dos abusos sexuais do pai e irmãos?

Ao mesmo tempo inocente e traumatizada, Bartolomea (Daphne Patakia) é um contraste natural para Benedetta, que muitas vezes parece traumatizada pela sua própria inocência. Há uma intimidade imediata entre as duas mulheres, embora Verhoeven e o co-argumentista David Birke queiram deixar claro que o vínculo entre ambas depende menos do romance do que da religiosidade erótica.

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Paul Verhoeven obviamente rejeita a ideia de que os nossos corpos não foram feitos para serem disfrutados. "Benedetta" argumenta assim que não houve força mais repressiva sobre a sexualidade humana do que as regras atribuídas a Deus e acordadas e aplicadas pelos homens. Verhoeven defende o prazer, mas o problema é a abordagem que escolhe para o fazer: é muito bom tomar o partido de uma dupla de lésbicas do século XVII, mas a forma como elas são retratadas, sobretudo na intimidade, é a mesma de um filme pornográfico filmado com mais pinta do que é habitual.

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