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"Coupez". Pelo amor à arte
Opinião Cultura 4 min. 02.07.2022
Crítica de cinema

"Coupez". Pelo amor à arte

“Coupez!” baseia-se, e muito, no filme japonês “One Cut of the Dead”.
Crítica de cinema

"Coupez". Pelo amor à arte

“Coupez!” baseia-se, e muito, no filme japonês “One Cut of the Dead”.
Foto: DR
Opinião Cultura 4 min. 02.07.2022
Crítica de cinema

"Coupez". Pelo amor à arte

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
“Coupez!” baseia-se, e muito, no filme japonês “One Cut of the Dead”.

O filme escolhido para abrir a 75ª edição do Festival de Cannes devia chamar-se “Z (Comme Z)”, mas por causa de durante a invasão da Ucrânia o exército russo exibir a última letra do alfabeto em muitos dos seus tanques e equipamentos militares, Michel Hazanavicius decidiu mudar o noma da sua longa metragem para “Coupez!”.“Tendo em vista a carga simbólica da letra Z desde o início da guerra na Ucrânia, e a pedido de cineastas ucranianos, decidi mudar o título do meu filme”, explicou o realizador francês.

“Coupez!” abriu o festival fora de competição um pouco como se um OVNI aterrasse na Croisette: trata-se de uma comédia que deixa os fãs surpreendidos com o início da estranha história, antes de revelações surpreendentes, num segundo ato inesperado.O realizador Michel Hazanavicius, conhecido fora de França por ter sido “oscarizado” com “The Artist”, permitiu que o festival deste ano começasse com o pé direito e com muita ironia.

Como referência podemos dizer que estamos perante uma obra na linha dos filmes anteriores de Hazanavicius, a saga OSS 177. Contudo, “Coupez!” baseia-se, e muito, na sua fonte, o filme de culto japonês “One Cut of the Dead”.Hazanavicius sabe como se divertir usando a inteligência do público. Não é necessário ter visto o filme original, apesar de as piscadelas de olho serem muitas. A mais óbvia será o facto de os criadores terem escolhido a estrela veterana Yoshiko Takehara para desempenhar em “Coupez!” exatamente o mesmo papel que interpretou no filme original de Shin’ichirō Ueda.

A história envolve uma equipa de cineastas que se prepara para rodar um filme de zombies com um baixíssimo orçamento numa fábrica abandonada. Ao longo das filmagens, parte da equipa começa a comportar-se de forma estranha, como se fossem verdadeiros mortos-vivos. No set, o realizador Rémi Bouillon vê-se obrigado a gerir todo o tipo de problemas para encerrar o projeto: deserções de última hora, estrelas caprichosas, produtores autoritários, bêbados e muito mais.

No festival de Cannes houve mesmo alguns crédulos que sairam da projeção mais cedo por terem caído na esparrela e acreditado que estavam perante um filme caseiro usando câmaras instáveis e muito sangue falso.

A história é linear até meio do filme. De repente saltamos para trás no tempo, para explicar a origem do projeto. A produtora, a senhora Matsuda, contratou Bouillon para filmar e transmitir ao vivo a adaptação francesa de um filme de zombies japonês que foi um sucesso nos cinemas do seu país. O filme extrai muito do seu poder metanarrativo – desculpem o palavrão – das opções de elenco de Hazanavicius, incluindo a sua companheira, Bérénice Bejo, e a filha, Simone. Bejo interpreta a parceira entusiasta de Bouillon, Nadia, enquanto que Simone é filha do realizador.

O promissor Finnegan Oldfield assina um belo desempenho como o duro protagonista Raphael. Matilda Lutz, no papel de Ava, é a infâmia em pessoa.Com a pontuação das sempre elegantes composições de Alexandre Desplat, a primeira metade do filme deixa o espetador a imaginar o que raio está para ali a acontecer. Será este o mais improvável e incoerente filme de zombies da História?

No festival de Cannes houve mesmo alguns crédulos que sairam da projeção mais cedo por terem caído na esparrela e acreditado que estavam perante um filme caseiro usando câmaras instáveis e muito sangue falso. No meio de tanto aparente amadorismo, apenas a fotografia exuberante de Jonathan Ricquebourg revela o complô.Na verdade, o filme começa de novo na segunda metade, apresentando um ponto de vista original e descrevendo as muitas questões que vão pairando desde a primeira parte.

O remake de Hazanavicius é verdadeiramente fiel ao original, incluindo no enredo, até porque o realizador (dentro do filme) tem como obrigação permanecer fiel ao trabalho original japonês.Se for fã de filmes de zombies, e ao ler isto ainda pensa que vai gostar, desengane-se, “Coupez!” não é a melhor opção para si neste verão. Mas se o estimado leitor for o género de pessoa que se delicia com uma reflexão a vários níveis sobre o valor do cinema e da arte então compre já o bilhete. O filme de Hazanavicius é também uma declaração de paixão pelo cinema, por aqueles filmes onde o orçamento pode ser baixo mas o entusiasmo e o amor à arte são altíssimos.

Ah, ia-me esquecendo do mais importante: se não tem sentido de humor vá ver outra coisa!

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