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"Corruption Game" e "FIFA Uncovered". E por isso não vou ao Qatar
Opinião Cultura 2 5 min. 20.11.2022
Crítica de cinema

"Corruption Game" e "FIFA Uncovered". E por isso não vou ao Qatar

Crítica de cinema

"Corruption Game" e "FIFA Uncovered". E por isso não vou ao Qatar

Foto: Walter Bieri/epa/dpa
Opinião Cultura 2 5 min. 20.11.2022
Crítica de cinema

"Corruption Game" e "FIFA Uncovered". E por isso não vou ao Qatar

Raúl REIS
Raúl REIS
Estas duas séries em 'streaming' tiveram bastante peso na minha decisão.

Sabe Deus porquê, a Federação Portuguesa de Futebol colocou-me numa exclusiva lista de fãs da seleção que vão ao Mundial do Qatar gratuitamente para acompanhar o torneio. Aceitei, honrado, fazer parte dos 'fan leaders' que, no Qatar, vão apoiar a seleção portuguesa e celebrar o futebol.

Ironicamente, não sou tão fã de futebol como a maioria dos portugueses. Apesar de a seleção já me ter feito calcorrear milhares e milhares de quilómetros, continua a ser um daqueles adeptos que vai mais à bola pelo ambiente do que pelo jogo propriamente dito.

Mas no Mundial que agora começa, a seleção está presente e só tinha boas razões para passar umas semanas nas arábias. Contudo, as dúvidas começaram a invadir-me.

Basta ler os jornais para recordar o impacto negativo deste campeonato do mundo: direitos humanos e dos trabalhadores desrespeitados, fortes razões para acreditar que a atribuição do torneio ao Qatar foi comprada, um impacto ecológico brutal, mas sobretudo um paternalismo que me custa a aceitar.

Eu sou daquelas pessoas que acha que não tem mal nenhum uma muçulmana preferir usar véu onde lhe apetecer ou um hindu andar na rua com turbante. A definição de liberdade que me apraz é das mais simples e sem grandes filosofias: a minha liberdade acaba onde começa a dos outros. Assim, não entendo quem se opõe, por exemplo, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, porque o facto de duas pessoas casarem não me aquece nem me arrefece, ou seja, não afeta em nada a minha liberdade. Adiante.

Tal como aceito a liberdade dos outros, custa-me imenso que me tratem de forma paternalista, dizendo-me o que devo fazer por respeito às tradições ou simplesmente porque alguém decidiu que nos museus não se pode entrar de calções.

As regras impostas pelo Qatar aos visitantes são inaceitáveis, e apresentadas como se estivessem a ajudar-nos a sermos pessoas melhores.

Nas "instruções" relativas às questões culturais, as autoridades qataris começam por nos explicar que o país é "relativamente conservador" mas – acrescentam – "extremamente acolhedor". E depois somos informados que num país onde é sempre verão podemos usar a roupa que quisermos, mas... que não é possível mostrar certas partes do corpo em certos locais.

Obviamente o consumo de álcool é proibido, mas as autoridades vão abrir exceções nas zonas destinadas aos fãs estrangeiros, para não impressionar os conservadores locais que – até quase se acredita – nunca viram nem consumiram bebidas alcoólicas.

Mas a pior das instruções relativas à estadia no Qatar dos fãs de futebol tem a ver com as manifestações de afeto em locais públicos, que são interditas por "não serem parte da cultura local".

Imaginem que dou um abraço a meio do jogo a um correligionário e que alguém considera isso uma manifestação de afeto? Ou se lhe mando um xoxo e acabo preso porque no Qatar a homossexualidade é punida por lei?

Já perceberam: não vou ao Qatar apesar de ter tudo pago (nem sei quem paga, se é a FPF ou se são os organizadores do torneio e isso também me perturba) e a decisão não foi fácil de tomar. Mas andam por aí duas séries em streaming que tiveram bastante peso na minha decisão.

A primeira chama-se "El Presidente: Corruption Game" e conta como a FIFA passou de uma associação sem fins lucrativos a um poderoso império sem fronteiras. Esta série conta com a excelente interpretação do português Albano Jerónimo no papel de João Havelange.

Os criadores dos oito episódios de ficção, bastante documental, demonstram que o brasileiro transformou a FIFA num Estado corrupto, tendo criado uma cultura de subornos que infetou praticamente todas as decisões do organismo desde o final dos anos 70.

"Corruption Game" recorda que, já em 1978, os militares argentinos usaram o Mundial para se apresentarem como um regime decente, capitalizando aliás a vitória da sua seleção para fins políticos.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Os campeonatos da Rússia e Qatar, atribuídos de forma duvidosa há 12 anos aos dois países, ainda continuam envoltos em suspeitas de corrupção, algumas provadas e outras não, enquanto que algumas atividades suspeitas de membros da FIFA ainda estão a ser tratados na justiça.

Para descobrir esta FIFA, a do século XXI, que decidiu fazer o maior torneio de futebol do mundo na Rússia e no Qatar, aconselha-se "FIFA Uncovered", um documentário em quatro episódios, proposto pela Netflix, que acompanha o reino de Sepp Platter à frente da organização.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

As duas séries são excelentes para entremear com os jogos do Mundial2022 que está aí à porta e para perceber como chegamos aqui. Como é que uma estrutura como a FIFA começou a tomar decisões pelas piores razões...

Eu, e provavelmente quem me está a ler, vai seguir na televisão, como milhões de espectadores pelo mundo fora, sem participar com alegria nesta festa atristada.

Há quatro anos elogiei os russos por terem organizado um torneio sem igual. O regime de Putin aproveitou a deixa para tentar transmitir a imagem de uma Rússia moderna e que parecia querer fazer parte dos estados civilizados do mundo. 

Enganou-nos bem. Pelo menos não me obrigaram a vestir-me da maneira que Putin queria e ninguém me disse como me devia comportar na rua ou noutros espaços públicos. Contudo, este Mundial e o de há quatro anos, e – dizem fontes fiáveis – até o que foi realizado na África do Sul terá sido resultado de corrupção generalizada... 

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