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"Conta-me como Foi". Uma máquina do tempo feita num programa de televisão
Cultura 10 min. 11.01.2020

"Conta-me como Foi". Uma máquina do tempo feita num programa de televisão

Visita aos estúdios da SP Televisão para assistir às gravaçõess da série "Conta me como foi", com os actores Fernando Pires, Rita Brutt e Ana Tang.

"Conta-me como Foi". Uma máquina do tempo feita num programa de televisão

Visita aos estúdios da SP Televisão para assistir às gravaçõess da série "Conta me como foi", com os actores Fernando Pires, Rita Brutt e Ana Tang.
Foto: Diana Tinoco
Cultura 10 min. 11.01.2020

"Conta-me como Foi". Uma máquina do tempo feita num programa de televisão

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
O país tem um lado tosco, como a ideia de um tipo partir numa Famel para África e a motorizada avariar-se no Alentejo. A cereja no topo do bolo é a precisão com que se recriam os ambientes da época.

A série de ficção "Conta-me Como Foi" regressou aos ecrãs da RTP 1, após dez  anos de interrupção. Agora a família lisboeta está nos anos 80 e Portugal vai entrar para a CEE. O Contacto foi aos estúdios. 

Ritta Brutt (Isabel) em casa.
Ritta Brutt (Isabel) em casa.
Foto: Diana Tinoco

Há qualquer coisa de mágico num estúdio de televisão. Em poder ver ao vivo o que aparece no ecrã. Quando se trata de uma série de época o divertimento é maior, e mais ainda quando é sobre um tempo pouco explorado, o do passado recente, que ainda nos pertence mas já esquecemos. 

O Contacto assistiu a uma manhã de gravações da quinta temporada da série de sucesso da RTP1 "Conta-me Como Foi" - em exibição aos sábados, a seguir ao Telejornal, desde 7 de dezembro - , cuja ação decorre entre 1984 e 1987.  

Era o primeiro dia de trabalho após a interrupção de Natal. Nos estúdios da SP Televisão (a produtora da série) o entusiamo à volta da recriação do Centro Comercial das Amoreiras era grande. Em poucos metros quadrados ergue-se uma réplica dos pilares coloridos do polémico marco de arquitetura pós-moderna que em 1986 mudou o skyline de Lisboa. 

Fernando Pires (Tóni) com o diretor de atores, António Melo, e Ana Tang, na preparação de uma cena.
Fernando Pires (Tóni) com o diretor de atores, António Melo, e Ana Tang, na preparação de uma cena.
Foto: Diana Tinoco

As Amoreiras tornaram-se um símbolo dos anos 80 e, por isso, diz Miguel Simal, um dos autores da versão portuguesa (juntamente com Pedro Lopes), depois de uma visita aos vários shoppings da época que ainda estão abertos, "acabámos por perceber que era mais interessante que o António (Miguel Guilherme) e o primo Zé tivessem uma loja nas Amoreiras, uma vez que o centro comercial inaugurou em 1986 e foi um acontecimento em Lisboa". 

A primeira ideia tinha sido que o primo Zé, com a fortuna da lotaria, tivesse uma penthouse nas Torres das Amoreiras, mas "um apartamento não funciona tão bem para contar histórias. A uma loja toda a gente vai". E assim, os dois acabam por abrir uma agência de viagens no centro comercial projetado por Tomás Taveira. A produção chegou a pensar gravar no local, "mas ia ser odioso, por causa do barulho, dos curiosos. E achámos melhor fazer aqui, que é ambiente controlado e acaba por ser mais fácil e barato", explica o director de produção, Francisco Barbosa.  

São 52 os episódios da quinta temporada – que acaba no dia da maioria absoluta de Cavaco Silva – e que irão estar mais de um ano em antena.

Na conferência de imprensa de apresentação do projeto, em novembro, José Fragoso, diretor de programas da RTP, adiantou que o Conta-me (uma adaptação da espanhola "Cuéntame Cómo Pasó") é "uma das séries mais importante da RTP". Fragoso sustentou que o "Conta-me Como Foi" tornou-se uma "série de culto" e que a temporada agora em exibição retrata "um dos contextos históricos mais vibrantes da história portuguesa: os anos 80".  

A temporada 5 vai de 1984 a 1987.
A temporada 5 vai de 1984 a 1987.
Foto: Diana Tinoco

As primeiras quatro temporadas, que seguiram a vida dos Lopes entre o fim dos anos 60 e a revolução dos cravos, estiveram em exibição entre abril de 2007 e abril de 2011 na RTP1. Nesta quinta, a narrativa é retomada uma década depois. Tinha acabado no 25 de Abril de 1974 e agora arranca na passagem de ano de 1984 e a família junta-se a ver o "Tal Canal" de Herman José numa cassete VHS. 

"São dez anos de intervalo que correspondem aos dez anos que passaram na real idade sobre o fim das gravações. Assim todos os atores estão tão mais velhos como as personagens. Acaba por bater tudo certo". Por coincidência, também 1984 é a data indicada pelo formato espanhol, e isso foi respeitado. Mas, no geral, a história não é seguida  à risca, só as linhas principais. "A realidade portuguesa destes anos é muito diferente da espanhola", explica Simal.  

Primeiro dia de gravações após o Natal.
Primeiro dia de gravações após o Natal.
Foto: Diana Tinoco

O conceito central da série é o de seguir as mudanças sociais e históricas através da vida de uma família com quatro filhos, de classe média baixa, que vive num bairro lisboeta, com os seus sonhos e frustrações. Carlitos, o filho mais novo, é o narrador. "Nesta temporada, Portugal vai entrar numa fase nova e Carlos vai tornar-se adulto. Para nós a narrativa assenta na ideia de que depois dos anos de 'folia' pós-25 de Abril, de repente a festa acaba e o país entra em crise, sem  saber o que vai seguir-se. 

E é um pouco isso o que acontece à família. O futuro torna-se a grande interrogação". O António Lopes procura com o parque de campismo que vai ter na zona de Setúbal dar um futuro mais estável aos filhos prevendo que, com a entrada na CEE, haverá o boom do turismo. "Mas também tiveram a ideia de  fazer um aquapark, uma coisa muito característica dos anos 80".  

Nos 80, as revistas de música eram preciosas e colecionadas.
Nos 80, as revistas de música eram preciosas e colecionadas.
Foto: Diana Tinoco

Margarida (Rita Blanco) está frustrada com a pouca afluência no seu pronto-a-vestir. Quanto aos filhos, Carlos despede-se da rádio pirata para partir à aventura para África, Tony encara a ideia de investigar as FP-25, e Isabel procura trabalho como atriz. No geral, "o país tem um lado tosco, como a ideia de um tipo partir numa Famel para África e a motorizada avariar-se no Alentejo. Percebia-se que estávamos mal informados, conhecíamos pouco do mundo".  

De meados dos anos 70, onde a quarta temporada tinha deixado os Lopes a comemorar o 25 de Abril, até ao país um bocadinho mais moderno das Amoreiras e das cassetes VHS alguma coisa mudou.  

O guarda-roupa de três protagonistas.
O guarda-roupa de três protagonistas.
Foto: Diana Tinoco

Portugal na CEE  

Segundo a sinopse de apresentação, o objetivo do Conta-me é "retratar a vida e o país, em forma de ficção, sem espírito saudosista, sem abordagens moralistas,  sem tomar partido por nenhum lado da história". A ambição é "entreter, mostrar e dar a cohecer o passado recente". E, diz Sara Vasconcelos, responsável pela comunicação da SP Televisão, "os resultados de audiências estão a ser muito bons". 

É uma série que junta as pessoas outra vez na sala, e "permite a pais e filhos estarem a ver juntos um episódio. É tipicamente uma  série familiar que não sendo documental pretende ser certeira na representação daquele tempo", diz Miguel Simal, atualmente com 39 anos e que passou em criança pelos anos 80. 

"Estivemos todos a ver muita RTP Memória, concursos de televisão, imagens de arquivo". A utilização de imagens usando a técnica do croma - um fundo verde onde se podem "colar imagens" - e os arquivos da RTP permitem fazer brilharetes. Num episódio, Isabel aparece a apresentar o "Natal dos Hospitais" ao lado de Alice Cruz e Eládio Clímaco. 

Noutro, interpreta uma personagem da famosa novela "Chuva na Areia" ao lado de atores reais. "O croma permite-nos inserir a família em acontecimentos importantes da década", explica Simal. 

Tanto mais que as profissões das personagens leva-as a "interagir com o mundo". Isabel por ser atriz, Tony por ser jornalista. Tony irá "fazer a cobertura jornalística da cerimónia em que Mário Soares assina o tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia".    

Para retratar o país também é preciso percebê-lo. No original "Cuéntame Como Pasó", a dada altura Tony apaixona-se por uma judia, o que provoca um choque cultural na família. "Em Portugal isso seria irrelevante. Por isso, decidimos que essa personagem seria uma rapariga de origem goesa, filha de donos de um restaurante, e que vieram de Moçambique. "Toda a gente deu palpites sobre esta personagem", conta Simal.  

Ana Tang a preparar-se para entrar em cena.
Ana Tang a preparar-se para entrar em cena.
Foto: Diana Tinoco.

Mais ainda do que a linguagem, o cuidado com os cenários e os adereços são a  cereja no topo do bolo, fazem boa parte do encanto e do culto da série. 

Por exemplo, atualmente o centro comercial desenhado pelo arquiteto Tomás Taveira já foi várias vezes remodelado, pelo que alguns pormenores originais desapareceram. Mas a equipa que construiu as Amoreiras em pladur, no estúdio na periferia de Lisboa, foi procurar a versão original, com as floreiras tal como eram, com o chão que existia nos primeiros dias. 

Se houver um erro, em qualquer lado, haverá sempre um telespectador a reparar. "Uma pessoa escreveu-nos porque um poster do Bruce Springsteen no quarto da Susana não podia estar lá porque era de um concerto uns meses depois", recorda Francisco Barbosa. "Há muitas coisas assim".


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