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Companhia portuguesa Mala Voadora encena peça para Esch2022
Cultura 5 min. 26.05.2021

Companhia portuguesa Mala Voadora encena peça para Esch2022

Companhia portuguesa Mala Voadora encena peça para Esch2022

Cultura 5 min. 26.05.2021

Companhia portuguesa Mala Voadora encena peça para Esch2022

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Espetáculo é uma co-produção entre três países e baseia-se na Carta Universal dos Direitos Humanos.

O monólogo 'inFausto' marcou o regresso da Mala Voadora ao Luxemburgo, no passado fim de semana, ao Théâtre d'Esch, em Esch-sur-Alzette, mas esta nova passagem pelo Grão-Ducado não fica por aqui. A companhia portuguesa está a encenar uma peça, em co-produção com esta instituição cultural luxemburguesa, com a Culturgest, em Lisboa, e com o Teatro de Cottbus, na Alemanha, para estrear em Esch2022 - Capital Europeia da Cultura, no início de junho do próximo ano.

"Foi um convite que nos foi feito já o ano passado para criar um espetáculo, que iremos desenvolver nestes três países, que será com atores também destes países, e que é uma reinterpretação da Carta Universal dos Direitos Humanos. Vamos revisitar as reuniões que estiveram na base das discussões desta Carta e fazer um espetáculo com isso", revela ao Contacto Jorge Andrade, o ator de 'inFausto' e co-fundador da Mala Voadora, que já está a preparar a encenação da co-produção.


Esch2022 procura voluntários de todas as nacionalidades
Com um orçamento de 56,6 milhões de euros, o programa Esch2022, Capital Europeia da Cultura prevê cerca de mil eventos ao longo de dez meses. Nancy Braun, diretora-geral de Esch 2022 em entrevista ao Contacto promete transformar a cidade. Na abertura, prevista para 26 de fevereiro, gostava de ter 25 mil pessoas.

O novo espetáculo estreará em Esch-sur-Alzette, nos dias 7 e 8 de junho de 2022, seguindo depois para a Alemanha na segunda metade desse mês, com uma série de 10 espetáculos, e subindo ao palco da Culturgest, em Lisboa, no final do mês de setembro. 

A relação entre a companhia portuguesa e o Luxemburgo não é nova e tem-se cimentado a cada apresentação. O público que acompanha o trabalho da Mala Voadora, e que Jorge Andrade descreve como "muito afetuoso", é tão variado e multicultural como o próprio país, daí que a apresentação de 'inFausto' tenha sido feita em versão bilingue, com um dos dias a ser interpretado em português e o outro em inglês.

"O primeiro espetáculo que trouxemos foi o 'Moçambique' e era grandemente falado em português. Tivemos um público variado, tanto portugueses de segunda geração, ou mesmo primeira, que vivem no país, como também público tão diverso como a população do Luxemburgo. Depois o segundo espetáculo que trouxemos foi o 'Wilde', que era todo falado em inglês, a partir de uma peça do Oscar Wilde, e tivemos pessoas - um público de diferentes origens - que já tinham assistido ao primeiro espetáculo e que continuaram a aderir à nossa proposta, e que penso que gostam do trabalho que nós desenvolvemos."

Jorge Andrade compara os espetáculos da Mala Voadora a um ovni que aterra no quintal da casa de cada um e que oferece a possibilidade ao espectador de contactar com o estranho e o diferente, sem o temer, permitindo-lhe amplificar horizontes e percorrer territórios ficcionados e fantasiados. Territórios cada vez mais contaminados pela realidade alternativa criada pelas notícias falsas e o afunilamento das redes sociais, como questiona e reflete a peça 'inFausto'. 

Face a isso, como é que um artista se inspira para inventar um objeto ou uma performance quando a fantasia e a recriação da realidade são feitas por qualquer um, sem qualquer pretensão artística e sem fronteira entre o que é fiável e o que não é? "A diferença e o sentido que possa ainda fazer é que estas manipulações que se fazem das populações, um pouco por todo o mundo, através das 'troll farms', que nos manipulam através de informações erradas que fazem passar como realidade, tendem a querer construir um mundo muito pouco diverso, um mundo onde não há lugar para a ficção ou para histórias. Tudo é realidade e é uma realidade altamente aborrecida porque aquilo que nos leva a fazer é a fechar-nos cada vez mais no nosso mundo", responde o ator.

O lugar da arte em tempos de pandemia e de teorias da conspiração   

Mesmo que invente ou reinterprete e subverta a realidade, o objetivo do teatro é o oposto, lembra Jorge Andrade. "Ainda que possamos ter esta janela para as redes sociais, elas também são usadas como um canal para nos fechar a porta e aquilo que pretendemos com este espetáculo [inFausto] é abrir as janelas, as portas e tirar o tecto, abrirmos a nossa casa ao mundo. Obviamente que pode chover, mas se tivermos sempre o tecto nunca vamos apanhar sol. E acho que a possibilidade de apanharmos sol suplanta o medo que nos leva a estar fechados em casa, com medo que possa chover."

Numa altura em que a pandemia obriga a esse recolhimento e nem sempre permite que se saia, seja para o sol, seja para a chuva, é a sobrevivência das artes que é posta à prova. Se as redes sociais e as 'fake news' preenchem o vazio do espaço público real, o encerramento das atividades cénicas no seu próprio local, privadas da interação com a assistência, traz desafios acrescidos para as companhias.

"Nós abrimos agora para receber uns artistas no FITEI ['Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica', que decorreu na primeira quinzena de maio] e apresentar este monólogo que trouxemos ao Luxemburgo e que estreou no nosso espaço da Mala Voadora. Mas antes disso esteve fechado para espetáculos e a seguir as recomendações de saúde", explica o co-fundador da estrutura teatral e da residência situada na Rua do Almada, no Porto, que programa e acolhe outros artistas. 

Mesmo assim, a Mala Voadora foi-se mantendo em atividade tanto quanto possível e colocando-se ao serviço da sociedade quando foi preciso, como aconteceu no início da pandemia: "Na primeira vez que estivemos fechados, o ano passado, quando houve aquela necessidade urgente de enfermeiros no hospital de São João, tivemos enfermeiros a viver no nosso espaço. Como ele estava encerrado para os artistas tivemos lá alguns [temporariamente] e, curiosamente, um deles acabou por desenvolver um trabalho de fotografia que depois expôs. Mais tarde, quando foi possível os artistas estarem a trabalhar, mesmo sem fazerem apresentações públicas, estiveram lá em residência. É um trabalho mais invisível mas bastante importante", sublinha.

No próximo mês seis artistas, apoiados com uma bolsa da Mala Voadora, vão ao espaço apresentar os seus trabalhos. A estrutura, adianta ainda Jorge Andrade, prepara-se também para dar início a um novo ciclo, que passa pela programação de artistas em início de carreira, além da criação dos espetáculos com assinatura própria.  

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