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Como Portugal e o Luxemburgo foram refúgio de milhares em "tempos difíceis"
Cultura 8 5 min. 13.02.2020

Como Portugal e o Luxemburgo foram refúgio de milhares em "tempos difíceis"

Como Portugal e o Luxemburgo foram refúgio de milhares em "tempos difíceis"

Foto: DR
Cultura 8 5 min. 13.02.2020

Como Portugal e o Luxemburgo foram refúgio de milhares em "tempos difíceis"

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
A exposição, 'Portugal e Luxemburgo - Países de Esperança em Tempos Difíceis' é inaugurada esta sexta-feira, com a presença do Grão-Duque Henri e do Embaixador de Portugal. Veja algumas das imagens que serão exibidas.

A partir desta sexta-feira, 14 de fevereiro, e até maio, a exposição 'Portugal e Luxemburgo – Países de Esperança em Tempos Difíceis’ mostra como milhares de pessoas procuraram estes destinos para fugir a guerras, perseguições e pobreza.  

 A 10 de maio de 1940, 45 mil pessoas abandonam o Luxemburgo para escapar à guerra e à invasão alemã. Entre os fugitivos encontra-se a família Grão-Ducal, o governo luxemburguês no exílio e, sobretudo, muitos judeus que acabam por encontrar asilo temporário em Portugal.

Ao longo da Segunda Guerra Mundial e da política de extermínio nazi, a fronteira de Vilar Formoso torna-se a porta de entrada para um “país de esperança”, como refere o título da exposição, que estará patente na Abbaye de Neumünster, na cidade do Luxemburgo.


Portugal e Luxemburgo unidos por um fio de esperança entre guerras e ditaduras
De fevereiro a maio, a exposição ’Portugal e Luxemburgo – Países de Esperança em Tempos Difíceis’ mostra como milhares de pessoas procuraram estes destinos para fugir a guerras, perseguições e pobreza.

Em novembro de 1940, um comboio com 293 judeus do país parte de França – até aí eram transportados de autocarro – com destino a Portugal, mas fica retido 10 dias na fronteira de Vilar Formoso e os refugiados proibidos de entrar.

Convocar a memória coletiva para decidir o futuro que se quer construir

Como o movimento do comboio que em 1940 chegou a Vilar Formoso e teve de voltar para trás, a exposição parte do papel de Portugal, primeiro, e do do Luxemburgo, depois, na vida daqueles que, ao longo de décadas foram fugiram do terror, da repressão do autoritarismo ou da pobreza. 

Porém, a exposição não se esgota no exercício de contar e recontar os episódios da História. Para que a memória coletiva não siga pelos carris do esquecimento e do retrocesso, além dos painéis informativos, que mostram e explicam os acontecimentos, haverá um no final que convocará os visitantes a olharem para o presente e a avaliarem, à luz do passado retratado, como querem construir o futuro. 

"A exposição tem vários painéis históricos, mas vai terminar com um painel específico em que vamos pedir a participação do público", começa por referir Margarida de Magalhães Ramalho, explicando que quem a visitar, será confrontado no final com a pergunta "Que mundo está a tecer?". A resposta poderá ser dada através da escrita de uma mensagem nos post-its disponíveis, alusiva ao título/questão desse painel ou num esquema de classificação entre pólos opostos. 


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Haverá uma escala que tem, por exemplo, no topo máximo, a palavra 'tolerância', e no mínimo, 'discriminação'; noutra estão confrontadas as palavras 'democracia' e 'ditadura', 'sustentabilidade' e 'colapso', 'ser' ou 'ter'. Ao lado, existirão fios de cores diferentes, consoante o grupo etário, que farão as respetivas ligações para o mundo que cada um se propõe desenhar e construir, mediante as palavras e valores que selecionar. 

Por detrás desta ideia que remata a exposição, está o conceito de "fio vermelho" comum a várias culturas que não apenas judaica, diz Luísa Pacheco Marques. "Todos temos o nosso fio e temos fios que nos unem a todos. Os nossos atos - no passado, presente e futuro - vão construindo uma espécie de tecido". 

Na narrativa histórica que a exposição trata isso significa que não se mostram apenas as decisões negativas e as suas consequências, mas também as ações positivas, "das pessoas certas que estiveram na altura certa e que ajudaram a que as vidas continuassem". 

E como tudo está ligado, há uma surpresa, prometem as organizadoras. O tal fio vermelho vai aparecendo, sob várias formas, ao longo da exposição, em diferentes momentos. São 21 os painéis que compõem esta mostra, organizados por ordem cronológica. O ponto de partida é o contexto histórico e social que leva à ascensão ao poder de Adolf Hitler, seguindo-se a fuga dos primeiros judeus para o Luxemburgo, por ser um país neutro, e, posteriormente, a invasão do país. 

O percurso dos refugiados e da família Grã-Ducal, na fuga à ocupação alemã e aos nazis, a chegada a Portugal e a forma como as pessoas são aí acolhidas, o Luxemburgo durante a guerra e depois da guerra são outros dos pontos focados. E enquanto o Grão-Ducado se tenta reconstruir e olha com esperança os novos dias, os anos 60 em Portugal são ainda de ditadura e miséria, agravados pela guerra colonial. Muitos saem então do país à procura de melhor futuro e fazem o percurso inverso ao do comboio dos anos 40, com destino a Vilar Formoso: primeiro para a França ou a Alemanha, e depois também para o Luxemburgo.

Penúltimo painel: destino Luxemburgo

No período retratado por esta exposição, Portugal e Luxemburgo acabam por acolher milhares de pessoas, ainda que em fases diferentes. Daí a referência do título a "'dois países de esperança em tempos difíceis', porque ambos vão servir de porto de abrigo", refere a historiadora Margarida de Magalhães Ramalho. 

De acordo com a cronologia definida pela mostra, tem sido ao Grão-Ducado que tem cabido essa função nos últimos tempos. Ao longo das últimas décadas milhares de portugueses foram encontrando no Luxemburgo uma nova casa, que ajudaram simultaneamente a construir e a fazer crescer. Para muitos, os de segunda ou terceira geração, é já o berço e o país de origem. 

Esse fluxo migratório português e toda a diversidade que o tempo apurou são retratados no penúltimo núcleo da exposição. "É um painel com o rosto de mais de 30 portugueses de variadíssimas áreas, desde designers a músicos, passando por construtores, empresários... e que acabam por ser um pouco o concluir desta história. São portugueses que vivem cá e que também contribuem para o progresso e a riqueza do Luxemburgo".

A exposição "Portugal e Luxemburgo - Países de Esperança em Tempos Difíceis", que está patente de 14 de fevereiro até 10 de maio, na Abbaye de Neumünster, pode ser visitada todos os dias, entre as 11h e as 18h. 

A entrada é livre.  


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