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Como a música salvou a vida de Swizz King Junior
Cultura 2 5 min. 09.11.2022
Música

Como a música salvou a vida de Swizz King Junior

Música

Como a música salvou a vida de Swizz King Junior

Cultura 2 5 min. 09.11.2022
Música

Como a música salvou a vida de Swizz King Junior

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Cresceu num orfanato, viveu nas ruas, foi bandido, esteve preso. Depois começou a fazer música – e não tem problemas em dizer que foi assim que conseguiu reinventar-se a si mesmo. Hoje, as suas canções têm centenas de milhares de visualizações no YouTube. História de um rapaz que se perdeu em Lisboa e se encontrou no Luxemburgo.

Em agosto deste ano, Swizz King Junior, que na verdade se chama Valdir Pais e tem 31 anos, carregou para o YouTube um videoclip chamado Skrr To The Left. Tem ritmo de R&B e tem discurso em cadência, quase, quase hip-hop. "Como todas as músicas que faço, é meio em inglês e meio em português", conta agora numa esplanada em Bonnevoie, na capital luxemburguesa. 

"E, como em todas as músicas que faço, tentei encontrar um tema que mexesse comigo e ao mesmo tempo toda a gente se identificasse." Neste caso, a pressão que os amantes fazem uns aos outros antes de uma relação terminar. "O que eu não esperava é que a coisa explodisse como explodiu", confessa.

Em dois meses, o vídeo angariou 314 mil visualizações, números raros para um artista português – e ainda mais se estiver baseado no Luxemburgo. "É o meu maior sucesso, de longe", diz Swizz. "Entrou nas rádios portuguesas e tocou nalguns programas em Londres, o que ajudou bastante a espalhar a canção. Em setembro, aliás, fui de férias a casa e houve uns miúdos que me reconheram na praia de Carcavelos. E foi aí que eu percebi que, sim senhor, isto da música estava a tornar-se uma coisa bastante grande."

O rapaz lançou-se no final do ano passado. Não tem na carteira mais de cinco cantigas para apresentar – apesar de garantir que a sua cabeça está cheia de letras e composições, prontas para emergir e ganharem forma. Mas, dessa mão-cheia que ele trouxe à luz do dia, há o "Skrr To The Left", mas também há "Passa Tempo", com 114 mil visualizações, ou "Yeah", com 109 mil. 

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

"De alguma forma, é surpreendente, porque eu compus isto para me resolver a mim próprio, às dores que tinha, às coisas que precisava de resolver. E depois percebi que os outros também entendiam os processos por que eu estava a passar. Isso é terapêutico, de alguma forma. Faz-te sentir menos sozinho, também", diz fugindo com o olhar para apagar um cigarro.

A vida, bem vistas as coisas, foi-lhe dura. "E, se queres realmente olhar para os teus fantasmas de frente, tens de assumi-los, tens de confessar as tuas falhas, e se calhar até tens a oportunidade de transformá-los em música." É por isso que ele se predispõe a contar o passado que o trouxe aqui. Então aí já não esconde os olhos em cinzeiro algum. Se é para falar, ele fala.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Os duros anos

Teve de crescer demasiado rápido, é assim que ele põe a questão. "Nasci numa família que não tinha muita estrutura. A minha mãe trouxe ao mundo cinco filhos, mas não tinha maneira de sustentá-los. Aos seis anos fui institucionalizado", conta sem pinga de mágoa. 

Tinha acabado de entrar na escola e os professores estranharam-lhe tantas nódoas negras no corpo, e uma fome de leão à hora de almoço na cantina. Então vieram os serviços sociais e passou a viver na Casa do Gaiato, uma organização religiosa que acolhia rapazes em perigo.

Tem boas memórias e tem más memórias desses dias. "Apesar de não ser hoje religioso, os padres eram homens bondosos, que nos tentavam trazer oportunidades. O problema eram os alunos mais velhos, que nos espancavam constantemente pela calada", diz. 

Assegura que era bom aluno, nunca teve negativas e pertencia ao clube de xadrez. "O ambiente na Casa do Gaiato era duro. Fiz alguns dos melhores amigos da vida nesses dias, muitos deles tornaram-se jogadores de futebol e saíram dali para as academias dos clubes. Eu, aos dez anos, fugi."

Foto: DR

Foi direitinho ao mar, recorda, pelo simples facto de haver autocarro daquela zona até Algés. "Encontrei um contentor de um camião e dormi ali algumas noites. Alguns sem-abrigo perceberam que eu estava na rua e tomavam conta de mim. Depois ia dormindo onde calhava", recorda com um encolher de ombros. Nos anos seguintes, haveria de perder a conta às noites que dormiu sob um telhado de estrelas. Ou, muitas vezes, em casa de amigos – gente que conhecia do seu bairro, da Casa do Gaiato ou do tráfico com que passou a sustentar os dias.

Aos 15 foi apanhado pela polícia. "Estávamos no auge da guerra entre os blacks e os skinheads e, uma noite no Bairro Alto, houve uma cena de pancada que acabou com a morte de um skin. "Eu estava nesse grupo, fui identificado e detido nessa mesma madrugada, no Terreiro do Paço. Como era menor, fiquei numa casa de correção até aos 18 – e depois fui para a prisão de Caxias." Nos anos em que esteve dentro, acabou o ensino secundário. Saiu prestes a fazer 20 anos e decidido a mudar de vida.

Lisboa era uma armadilha, então fez as malas e foi para Londres. Trabalhou em tudo e mais alguma coisa, apaixonou-se por uma jamaicana – e foi graças a ela, ao grupo de amigos dela e à convivência com a comunidade caribenha que começou a deixar a música sair. "Tínhamos um grupo cheio de músicos, e eu juntava-me para eles e começava a cantar de improviso. Percebi que tinha jeito para a coisa, que as letras faziam sentido, que podia dar ritmo ao que tinha passado na vida."

Quando a relação terminou, veio de coração partido para o Luxemburgo. Chegou em 2017, com a bagagem cheia de dores do passado. "Levei tempo a recompor-me, mas as coisas foram-se endireitando", diz. 

Estabilizou no emprego, hoje gere uma equipa que trabalha por contratação externa para a Wedely – uma das maiores empresas de entrega de comida ao domicílio no país. 

As fúrias acalmaram, garante ele, os dias de revolta também. Para resolver isso tudo, Flávio tornou-se Swizz. E então começou a cantar.

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