Comédia “Moçambique” esta sexta-feira no Luxemburgo

Comédia “Moçambique” esta sexta-feira no Luxemburgo

Cultura 3 min.07.02.2018

Comédia “Moçambique” esta sexta-feira no Luxemburgo

Paula Telo Alves
Paula Telo Alves

Última dia para ver peça premiada em Portugal no Teatro Nacional do Luxemburgo.

O teatro em português vai regressar ao Teatro Nacional do Luxemburgo, já esta quinta e sexta–feira, para duas representações de “Moçambique”, da companhia “mala voadora”. Depois de “Neva”, no ano passado, o palco do teatro da cidade do Luxemburgo dá lugar a uma comédia premiada em Portugal.

“Moçambique” parte de uma história real passada na infância do autor e encenador Jorge Andrade, que nasceu naquele país mas regressou a Portugal com quatro anos, após a independência daquela ex-colónia. A viver em Maputo ficaram os tios, latifundiários e produtores de concentrado de tomate. Os tios acabariam por perder os dois filhos em seis meses: o primeiro, vítima de malária; o segundo num acidente de moto. Desesperada, a tia fez um apelo à mãe de Jorge Andrade, que o menino ouviu, em 1984: que lhe “desse” um dos seus filhos. “Fiquei muito entusiasmado, porque, se a minha mãe me desse, eu podia viajar”, recorda Jorge Andrade, com um humor que nunca esmorece – ou não fosse ele o autor de uma peça que reinventa a tragédia em tom de farsa. “Mas também fiquei triste, porque pensei que, se a minha mãe dissesse que sim, queria dizer que não gostava de mim.”

A mãe recusou e o destino de Jorge Andrade acabou por não passar por Moçambique. Mas ficou a pergunta: “E se?”

Em 2014, o encenador regressou a Moçambique para fazer uma ’workshop’ de teatro e, nessa altura, os tios voltaram a insistir para que ficasse a viver com eles. “Mas eu não percebia nada de tomate e regressei a Portugal”, ironiza Andrade.

Uma vida, dois destinos? “Tinha esta história real e na peça sou eu a imaginar como teria sido se os meus pais me tivessem dado aos meus tios em 1984, como é que eu poderia ter mudado a vida deles e, com isso, a história do país”.

O autor e encenador Jorge Andrade integra o elenco da peça.
O autor e encenador Jorge Andrade integra o elenco da peça.

Distinguido em 2017 com o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), o espetáculo é “um pretexto para revisitar a história de Moçambique” em tom de comédia. São sete atores “de origem africana, indiana e asiática a tentar passar-se por moçambicanos e, sobretudo, a tentar singrar no mundo do concentrado de tomate”, brinca Jorge Andrade.

O público pode contar com muitas gargalhadas, numa peça que escolheu a via do humor e do absurdo para contar as marcas do colonialismo e “a história trágica de Moçambique”, com muita dança à mistura. “O público acha que é entretenimento, mas nós, de vez em quando, temos de fazer anúncios para vender o nosso concentrado de tomate”, brinca novamente Jorge Andrade. “A crise obriga-nos a cantar em russo e chinês, e sempre que acontece alguma coisa dançamos muito, muito, muito.”

A peça teve os maiores elogios da crítica e já deu a volta ao mundo: esteve no Brasil, no Festival de Teatro de Curitiba e em São Paulo, e passou por mais uma dezena de países, incluindo Reino Unido, Bélgica, França ou Itália. Co-produção do Teatro Rivoli, no Porto, com o lisboeta Teatro Maria Matos e o Teatro Viriato, em Viseu, “Moçambique” esgotou representações e persiste em continuar um ano e meio após a estreia, em setembro de 2016. Tão efusiva foi a crítica e a resposta do público – em Lisboa, “as representações estiveram sempre esgotadas”, lembra Jorge Andrade – que o responsável da companhia “mala voadora” acha que atingiu o pico. “A partir daqui, é sempre a descer”, brinca.

A ver esta quinta e sexta-feira, às 20h, no Théâtre National du Luxembourg (194, Route de Longwy, em Merl, na capital). Reservas pelo tel. 47 08 95 1, entre as 10h e as 18h30. Em português, com legendas em inglês.

Paula Telo Alves