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Clint Eastwood: o bom, o mau e o vilão faz 90 anos
Cultura 6 min. 28.05.2020

Clint Eastwood: o bom, o mau e o vilão faz 90 anos

Clint Eastwood: o bom, o mau e o vilão faz 90 anos

Foto: MGM International
Cultura 6 min. 28.05.2020

Clint Eastwood: o bom, o mau e o vilão faz 90 anos

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
No parabéns a você, há uma série de situações sui generis entre a ingratidão e a malvadez.

O famoso Control+Alt+Delete é a perfeita combinação para qualquer contratempo informático. Se a página da internet não abre, Ctrl+Alt+Del. Se o documento Word demorar mais de cinco segundos a dar sinais de si, Ctrl+Alt+Del. Se a ampulheta aparecer no meio do ecrã com/sem motivo aparente, Ctrl+Alt+Del. É a técnica Microsoft/Bill Gates para tudo o que der errado. Isso é impossível de se fazer na vida das pessoas. Na dos heróis, já é possível. Tomemos como exemplo o caso de Clint Eastwood, que faz esta semana 90 anos. De Rawhide e spaghetti western ao Dirty Harry e Imperdoável, ele tornou-se o American macho que na vida real não é mais que um serial womaniser. Mas Clint é isso e muito mais. Para o bem e para o mal. E, já agora, para o vilão.

Comecemos pelo bom, pela carreira (brilhante) de realizador de Eastwood, vencedor de dois Oscars ("Imperdoável", 1993 e "Million Dollar Baby", 2005) em quatro nomeações. Nos EUA, não há ninguém que o supere em mediatismo e reconhecimento. Uma jornalista do Guardian foi entrevistá-lo há dez anos a Nova Iorque e ainda antes de o conhecer pessoalmente, já o conhecia, if you what I mean...

No aeroporto JFK, o polícia encarregue de vistoriar o passaporte dela perguntou-lhe, com aquele ar sisudo que se impõe quando se é da autoridade, o que é que ia fazer. Quando a resposta foi “entrevistar Clint Eastwood”, como que se lhe entendeu uma passadeira vermelha à sua frente. “Adoro esse gajo, diz-lhe olá por mim, se faz favor”, enquanto estampava alegremente uma folha do passaporte. No táxi, a conversa foi dar ao mesmo. E o homem ao volante não perdeu tempo e desenvolveu as frases mais comuns de Clint/Dirty Harry: “Go ahead and make my day” e “Do ya feel lucky, punk? Well, do ya?” gritava ele através do vidro que separa o condutor do passageiro. No check-in do hotel, mais um devoto. “Diz-lhe que ele tem um fã aqui em baixo, no hall. Quero dizer, jeez, ele é uma lenda viva.” Os homens têm somewhat uma ligação com Clint. Em parte, pela maneira como ele transformou a sua imagem num ícone, graças àquele arcaboiço intimidador e àquele olhar desafiador.

Em parte, também, porque Clint é o actor/herói mais célebre da história do cinema, em termos de sucesso de bilheteira nos anos 70 e 80, à conta de personagens que iam contra o sistema e contra as regras. Nos seus 59 filmes, Clint está quase sempre no centro das atenções mas nunca como o mau da fita. Ou é o cowboy rude que assim tem de ser para combater os maus numa terra sem lei ou é o polícia vingativo que assim tem de ser para contornar uma sociedade conspurcada. Das duas, uma. E sempre pronto para fazer justiça com as próprias mãos. Com economia de palavras e um sem número de expressões gestuais. E talento? Sergio Leone, o realizador da triologia A Fistful of Dollars, For a Few Dollars More and The Good, the Bad and the Ugly, em que Clint é o homem sem nome, sempre disse que gostava do actor porque ele só tinha duas expressões: “uma com o chapéu e outra sem o chapéu”.  

Em parte, o endeusamento do povo americano (e não só) por Clint deve-se a essa imagem criada pelos filmes heroicos, alicerçada agora pela carreira (brilhante, acrescente-se novamente) de realizador. Mas este tem duas caras. E Patrick McGilligan, escritor de algumas das mais soberbas biografias de cineastas (George Cukor, Alfred Hitchcock, Fritz Lang, Robert Altman), expõe essa evidência. “Quando escrevi o livro de Jack Nicholson, ele não colaborou mas nunca recusou as minhas chamadas ou ficou de responder às minhas cartas. Com Clint Eastwood, foi diferente.” Porque Clint é respeitado como poucos, uma lenda viva e um homem omnipotente em Hollywood, ele gere a sua imagem como quer e só é entrevistado por jornalistas do sistema, que fazem as perguntas banais e escrevem os artigos politicamente correctos, sem entrar na verdadeira teia de problemas, casos e controvérsia.

O livro avança pela vida do cineasta como o detective Harry Callahan num dia de terror em São Francisco: com contundência. Depois de rastrear os seus antepassados desde que chegaram aos EUA – o primeiro Eastwood nasceu naquele país em 1746 –, o biógrafo começa pelo início, pelo dia do nascimento de Clinton Jr, a 31 maio 1930, em São Francisco. Pesa mais de seis quilos (6,2) e esta a única informação que bate certo com a outra biografia do cineasta, a única autorizada, escrita por Richard Schickel, um jornalista que se baba perante Eastwood. Na de McGilligan, a vida real de Clint não é salpicada por rebeldia ou solidão.

Nem ele é tão introvertido como deixa transparecer no tal livro de Schickel. Nem é tão dotado musicalmente. Nem é assim tão talentoso na interpretação de personagens. Nem passa o tempo em contacto com a natureza – a sua mãe, que morre em 2006, com 96 anos de idade, nega que Clint tenha passado muito tempo no rancho da avó, como afirma a mitologia oficial. Nem ganha os títulos académicos que se diz, embora tenha sido nadador salvador, como Ronald Reagan, Gary Cooper e John Wayne nos seus early days, e tenha evitado ir para a guerra da Coreia porque é professor de natação no quartel-general.

O seu porte de 1,92 metros de altura permite-lhe o salto para Hollywood, onde ganha fama. Junto das mulheres, que marcam a sua vida profissional e artística. Pai de sete filhos de cinco mulheres (dois casamentos), o cineasta só é fiel à sua actual esposa, que a conhece durante uma entrevista. À medida que o livro avança, o biógrafo é cada vez mais implacável. Por culpa da rigidez de Clint, que usa, espreme e menospreza as mulheres. E os amigos também. A umas e a outros, esquece-se da mesma forma: um dia deixa-os de telefonar e é como se nunca tivessem existido.

McGilligan, contactado por email, diz que fica espantado com a quantidade de pessoas que lhe querem contar episódios sobre Clint. Inclusive um realizador que o dirige no cinema e na televisão: “’Só falo consigo se me prometer que não escreve um livro lamechas’. E eu pensava que ele era um amigo íntimo dele!” O que existe é muito medo e fontes anónimas. Até um professor de um colégio de Clint telefona à produtora Eastwood (Malpaso) a pedir autorização. Não houve mais conversa entre esse professor e McGilligan, que abre o livro sem medo: “Como actor, foi limitado e procurou sempre trabalhar com realizadores que não o levaram ao limite. Como realizador, é extremamente competente e tem visão. Mas nunca escreveu nada e roda o filme com o que lhe cai no colo, sem rever o que quer que seja nem falar com quem quer que seja. Não me parece que isso seja os tópicos de um génio do cinema. Interessa-me mais ele actor-auteur que como director mas essa faceta cresce no dia a dia.”

Em resumo, Clint trabalha no duro para controlar a sua imagem. É um super-vendedor de si mesmo, da sua imagem e do seu cinema. E converte-se na personificação dos EUA, e nem sempre com as suas melhores qualidades. É preciso Ctrl+Atl+Del? Na versão papel, isso não resulta. É como as biografias não-autorizadas.

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