Escolha as suas informações

Cinema: “La famille Bélier”: Não chores, Penélope
Cultura 4 min. 01.01.2015

Cinema: “La famille Bélier”: Não chores, Penélope

“La famille Bélier”: Cuidado, este filme pode ser perigoso para a sua relação amorosa

Cinema: “La famille Bélier”: Não chores, Penélope

“La famille Bélier”: Cuidado, este filme pode ser perigoso para a sua relação amorosa
/
Cultura 4 min. 01.01.2015

Cinema: “La famille Bélier”: Não chores, Penélope

CRÍTICA DE CINEMA, POR RAÚL REIS -

- Nunca pensei que pudesses ficar nesse estado depois de uma comédia romântica...

– Comédia romântica? Tu e os teus rótulos. Os críticos têm a mania de pôr nomes em tudo!

- Não fui eu que inventei os géneros cinematográficos. Não me vais culpar por isso, pois não?

- Vou-te culpar por isso e por tudo aquilo que me apetecer, está bem?

- O filme deixou-me num frangalho emocional e não sei quem é que me vai aturar agora.

- Estou aqui para o melhor e para o pior...

- Estás, estás. Estás aqui, estás a enervar-me ainda mais. Não me sabias ter dito que este filme era muito, mas mesmo muito, sentimental?

- Eu disse-te que era um filme natalício. Não estavas com certeza à espera do “Hobbit” ou de uma superprodução de ficção científica!

- Pois não estava. Estava à espera de um filme francês normal, com muitos diálogos, muitas personagens complicadas...

- Tu tens uma visão de “cliché” do cinema francês, Penélope!

- Olha, sabes o que te digo. Digo-te LOL. Tu é que tens preconceitos sobre o cinema francês, o senhor que prefere cinema americano e nhénhénhé...

- Mas o que é que isto tudo tem a ver com a família Bélier?

- Tem a ver que este filme sai um bocado das regras do cinema francês. Parecia americano na maneira como pegava nas emoções e nas situações mais ternas para as transformar em...

- Em quê? Em momentos de imensa emoção? E isso é mau?

- É mau se não estamos à espera. Eu estava à espera de emoções mais “à europeia”. Comedidas. Brandos costumes, como se diz dos portugueses...

- E?...

- E os momentos mais emotivos eram mega-emotivos e fizeram-me chorar imenso. Foi isso.

- E eu continuo a ter a culpa disso?

- Tu não desconverses. Eu acabei com um pacote novinho de lenços e tive de ir à casa de banho buscar papel higiénico para me assoar. Achas que a culpa é minha?

- Quando muito é do realizador, dos argumentistas e dos bons actores do filme...

- ...e do tipo que tem a mania que é crítico de cinema e que não me disse que esta história de uma menina filha de surdos-mudos que se quer tornar uma estrela da canção... Só de pensar nisso já fico toda a tremer.

- Sim, a história está cheia de bons sentimentos e de gente boa, mas não é propriamente um drama. A crítica francesa até disse que era um “feel good movie”. O que quer dizer...

- Não me venhas traduzir isso, que eu sei o que quer dizer! Esses teus críticos não diziam que a plateia toda acabava o filme a chorar? Que as salas ficavam inundadas de lágrimas?

- Não, não me recordo de ter lido isso.

- Pois olha que o Google recorda-se e acabo de encontrar meia dúzia de críticos que sabiam disso. Mas o crítico que eu tenho ao meu lado e que me propôs ver “La famille Bélier” não se lembrou de me dizer que eu ia chorar como nunca chorei numa sala de cinema!

- Estás-te a esquecer do “Edward Scisshorhands”...

- Esse vi-o em casa. Em DVD. E com lenços de papel suficientes à mão. E sem ninguém a olhar para mim durante o filme ou no final. Sabes que quando fui à casa de banho há bocado uma senhora ficou a olhar para mim como se eu fosse vítima de violência doméstica. Acho que se calhar até chamou a polícia.

- Deus me livre! Um filme tão giro e o resultado para nós está a ser muito mau... Acho que vou escrever isso no jornal.

- Tu não te atrevas a publicar que eu chorei. Já metade do Utopolis sabe, agora já só faltam os leitores do CONTACTO.

n Rául Reis

“La famille Bélier”, de Éric Lartigau, com Louane Emera, Karin Viard, François Damiens, Eric Elmosnino e Roxane Duran.


Notícias relacionadas

CINEMA: A nossa seleção em Cannes
Portugal voltou a não estar na competição oficial do festival de cinema de Cannes em 2017. Até aqui nada de novo: o nosso país raramente teve acesso ao lote de uma vintena de filmes que disputam a Palma de Ouro.
Le réalisateur portugais Pedro Pinho à Cannes
Cannes 2016: O cinema não é como o azeite
Dizem os “habitués” do festival de Cannes que nos anos em que a selecção oficial é fraca, o palmarés é bom. E que, caso a selecção seja de elevada qualidade, o júri tem tendência a fazer as piores escolhas.
“I, Daniel Blake”, de Ken Loach, venceu a palma
Quinzena de Cinema Português no Luxemburgo: Como manter excelentes relações com a família
Todos sabemos que quando vamos “lá abaixo” não temos tempo para filmes. Já todos passámos à porta de um multiplex num centro comercial e pensámos: “Amanhã vou ver este filme português”. E todos nós acabamos por preferir ir apanhar sol numa esplanada ou decidimos aceitar o convite da tia Maria José para jantar, ela que já nos anda a dizer para ir lá a casa há três Verões...
Quando a francesa Fanny Ardant dirige uma paleta de grandes actores europeus, o resultado chama-se “Cadências Obstinadas”
Irrational Man: O lado selvagem
Espero que o director me perdoe mas neste regresso após o Verão não me apetece falar dos 'blockbusters' estivais. Não irei, por isso, analisar a nova tirada da série "Mission Impossible" nem as aventuras de um super-herói que diminui para ficar do tamanho de uma formiga. Recuso-me a falar dos filmes de animação que fizeram o prazer dos veraneantes mais pequenos. Também não me apetece contar nada sobre filmes dedicados às desventuras de alguns jovens envolvidos em histórias de terror recicladas. E tão pouco mencionarei o novo "O Pátio das Cantigas" que muitos de nós fomos ver durante as férias em Portugal.
?Irrational Man?�
The Homesman: Bom pai de família
Passei horas a tentar encontrar a melhor tradução possível para a palavra inglesa “homesman” que serve de título ao novo filme realizado por Tommy Lee Jones e que esteve este ano no festival de Cannes. Os dicionários não ajudam porque a palavra nem sequer existe em muitos deles. Mas podemos dizer que o conceito de “homesman” é equivalente de homem responsável, aquilo que em língua francesa se diz regularmente – mesmo em contratos – como “bon père de famille”.
No velho Oeste as áreas de serviço eram mais ou menos assim