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Eu é que sou o presidente da junta
Cultura 3 min. 02.07.2021
Cinema

Eu é que sou o presidente da junta

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Eu é que sou o presidente da junta

Cultura 3 min. 02.07.2021
Cinema

Eu é que sou o presidente da junta

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Ao ver o filme francês “Présidents”, pensei nesse presidente que tem de lembrar à sua ‘entourage’ que quem manda é ele.

Há muitos anos atrás, Herman José interpretou uma personagem de um presidente da junta meio bêbedo e meio parvo que repetia incessantemente que ele é que era o presidente da junta.

O senhor tinha certamente boas razões para repetir que era ele o presidente, embora Herman nunca nos tenha explicado a insistência do presidente da junta.

Ao ver o filme francês “Présidents”, pensei nesse presidente que tem de lembrar à sua ‘entourage’ que quem manda é ele. Contudo, no filme de Anne Fontaine, os dois presidentes que dão o nome ao filme já não mandam, porque já não são presidentes, apesar da tradição e da etiqueta mandarem que todos os ex-presidentes sejam tratados como se ainda o fossem.

Jean Dujardin e Grégory Gadebois interpretam dois ex-presidentes que se aborrecem e que precisam de ação, atolados numa vida calma de verdadeiros reformados.

Apesar de os criadores de “Présidents” deixarem bem claro que qualquer semelhança com personagens existentes será coincidência, os dois presidentes são obviamente Nicolas Sarkozy e François Hollande. Nem os nomes foram alterados: Dujardin interpreta Nicolas e Gadebois interpreta François.

Nicolas vive uma existência calma, toma o seu pequeno-almoço, aspira a sua sala de estar, tem um cão chamado Sugus e é casado com Natalie, uma cantora de ópera.

François, por seu lado, passa dias tranquilos no interior da região de Corrèze ao lado da veterinária, Isabelle. O ex-presidente toca saxofone, dá passeios felizes de bicicleta elétrica pelos campos e cultiva o seu próprio mel.

Tudo parece correr bem aos dois ex-presidentes agora retirados do intenso mundo da política. Mas há um problema de que ambos são vítimas: a busca da adrenalina e a sede de poder não desaparecem assim tão facilmente da vida destes homens.

A França do filme de Anne Fontaine também tem uma protagonista muito real. Uma líder de direita continua a convencer e a assustar, e tanto Nicolas como François estão inquietos com a situação política e com a probabilidade de a extrema-direita chegar ao poder.

Nicolas quer sair do tédio em que vive em que vive e, para isso, tenta convencer François a deixarem a pacata vida de reformados para voltarem à política.

Os dois homens, que tudo separa, encontram motivação para voltar à política por diferentes razões...

“Présidents” não é um filme biográfico, mas não haverá muitos membros do público que conseguirão separar a realidade da ficção. É muito fácil ver o filme e colocar estas imagens e estas personalidades nos Sarkozy e Hollande verdadeiros. Apesar de estarmos perante um produto puramente ficcional, inspirado aqui e ali pela realidade, a imitação dos personagens reais é tão boa que o efeito de colagem se faz naturalmente.

O filme de Fontaine aborda a questão do poder com revigorante humor graças aos diálogos impecáveis. E, para qualquer reformado da política, levantam-se muitas questões. Como lidar com a ausência da ribalta? Que papel, que tarefa e que objetivo resta depois de se ser um dos homens mais poderosos da Terra?

Sem se autocensurar em nenhum aspeto, “Présidents” consegue caricaturar com empatia os dois protagonistas, tão diferentes e tão complementares, tornando-os cativantes.

Mas as duas primeiras-damas são igualmente sedutoras e acabam por desempenhar um papel muito importante a partir do meio do filme. As interpretações de Dora Tillier e Pascale Arbillot são tão brilhantes que, por vezes, eclipsam as sólidas composições dos intérpretes dos dois presidentes, confirmando assim o espírito deste filme que tem um ‘penchant’ feminista.

“Présidents” não é um dos melhores filmes de Anne Fontaine, mas neste verão é uma proposta excelente para voltarmos ao cinema para um bom momento de divertimento inteligente.

“Présidents” de Anne Fontaine, com Jean Dujardin, Grégory Gadebois, Dora Tillier e Pascale Arbillot.

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