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Da crueldade que tanto apreciamos
Cultura 3 min. 11.06.2021
Cinema

Da crueldade que tanto apreciamos

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Da crueldade que tanto apreciamos

Foto: Disney Enterprises
Cultura 3 min. 11.06.2021
Cinema

Da crueldade que tanto apreciamos

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Alguém disse que “Cruella” é mais ou menos o “Joker” da Disney. Não será tanto tanto assim, mas é verdade que o filme toca algumas das cordas emocionais que a fabulosa obra que fascinou os cinéfilos antes do ano da pandemia.

Tal como no filme com Joaquin Phoenix, “Cruella” explica as origens e a psicologia de um mau-da-fita infame, a conhecidíssima Cruella do clássico “101 Dálmatas”.

A questão que se coloca é como é possível compreender e gostar de uma pessoa que é conhecida muito simplesmente por conspirar para esfolar cachorrinhos adoráveis e transformá-los num casaco de peles? Cãezinhos indefesos que alguém descreveu, em seu tempo, como pequenas aranhas à espera de serem pisadas...

Tal como Joaquin Phoenix se transformou em Joker, nesta obra assinada por Craig Gillespie, Emma Stone é Cruella. E Emma Stone, sempre maravilhosa, aqui vai até ao fim da rua. Enche a rua, enche a cidade, enche o ecrã porque parece que nasceu para ser a cruel Cruella.

Mas – atenção – a horrenda Cruella nem sempre foi horrenda e nem sempre foi Cruella. Ela nasceu como Estella. Desde sempre arvorou aquele cabelo preto e branco totalmente natural; e é a filha de uma mãe solteira a lutar para sobreviver numa Grã-Bretanha em crise.

A adolescente Estella diz um dia à mãe que sonha ir para Londres para se tornar estilista. Assim partem em direção à capital para começar uma vida nova. Mas no caminho, a mãe é morta em circunstâncias estranhas durante uma festa, o que torna o filme menos adequado para os mais novos. A órfã Estella continua sozinha o seu caminho para a cidade e para a idade adulta.

Esta dura introdução dá profundidade ao filme de Craig Gillespie. O trauma precoce e a solidão de Estella transformam a jovem numa arrivista cheia de vontade de triunfar que não olha a meios para atingir os seus objetivos.

Chegada à excitante Londres dos anos 70, Estella junta-se a ladrões de vão de escada e, apesar de uma série de erros de gestão de carreira, a jovem acaba por ir trabalhar para uma estilista glacial conhecida como a Baronesa. Emma Thompson, esticada e seca como restos de ramos de videira depois da poda, interpreta esta surpreendente personagem. É na casa chique da Baronesa que Cruella, o alter ego sinistro de Estella, vai nascer.

Este filme é sexy, divertido e mesmo um bocado punk/rock. Meia hora depois de começar, garanto-lhe que já se esqueceu que no início havia um logotipo da Disney com o Mickey e o castelo da Cinderela.

“Cruella” é modernaço, é contemporâneo, é como ir ver uma exposição daquelas que a gente não percebe muito bem por que razão as obras custam milhões de euros. Imagine uma mazona misteriosa que invade as festas mais glamorosas da sociedade e causa comoção sempre que aparece.

E depois a fascinante Emma Stone não caiu na mesma armadilha que Glenn Close no remake de "101 Dálmatas", filme de má memória dos anos 90. Close era mais bizarra e mais caricata do que os desenhos animados originais. Stone, numa de o-diabo-veste-prada, encontra a capacidade de cuspir insultos venenosos enquanto usa alta costura e chama "queridaaaaaaa" a toda a gente. A transição de Estella para a Cruella é pura magia!

Mas faça-me um favor. Não perca tempo a relacionar a história com os "101 Dálmatas" originais, porque este filme não é propriamente uma prequela, mas uma obra livremente inspirada da obra inicial da Disney. Por exemplo, Cruella não era designer de moda no desenho animado e Anita Darling não era redatora de um jornal. “101 Dálmatas” também não se passa nos anos 70 porque os anos 70 ainda não tinham acontecido. E, por fim, fica o aviso), os dálmatas neste filme são absolutamente imbecis e isso “é lindo, queridaaaaaa”!

“Cruella” de Craig Gillespie, com Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Robert Ryan, Emily Beecham John Wolfe.

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