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Cinema - “As Mil e uma Noites, volume 2 – O Desolado” : A desolação segundo o realizador

Cinema - “As Mil e uma Noites, volume 2 – O Desolado” : A desolação segundo o realizador

Cultura 3 min. 02.12.2015

Cinema - “As Mil e uma Noites, volume 2 – O Desolado” : A desolação segundo o realizador

A crítica de cinema assinada, como é hábito, pelo Raúl Reis

O realizador que já é um dos grandes nomes do cinema português fora de portas obteve consagração internacional com “Tabu”, mas o êxito da trilogia “As Mil e uma Noites” ultrapassa todas as expectativas de Miguel Gomes e dos seus produtores. A prova é a passagem dos três filmes nas salas luxemburguesas, estando actualmente o segundo volume em exibição.

Se a cinematografia de Miguel Gomes sempre teve muito de político, este trabalho é o mais eminentemente ideológico. Tanto que o realizador afirmou que felizmente não é “Presidente da República, porque certamente faria pior do que ele; este filme é a minha contribuição”.

O segundo volume, com o subtítulo “O Desolado” é o filme que Portugal escolheu para representar o país nos Oscares.

“As Mil e uma Noites” já tem um invejável currículo de festivais. O primeiro foi o de Cannes, onde o filme de Gomes teve honras de Quinzena dos Realizadores, em projecções separadas. Pode por isso dizer-se que Miguel Gomes teve três filmes na Quinzena de Cannes no mesmo ano, o que é um recorde difícil de igualar.

Miguel Gomes assume a “vocação política” dos três volumes do filme que têm ainda em comum génios, chineses e muitos portugueses, quase todos “desempregados de condição”. O realizador disse ter desejado fazer um filme em vários tons, da comédia ao drama, até porque “em tempos cruéis não podemos perder a capacidade de contar histórias”, defende. Assim como no primeiro filme, são três os contos apresentados neste Volume 2: “Crónica de Fuga de Simão Sem Tripas”, “As Lágrimas da Juíza” e “Os Donos de Dixie”. Três histórias em que, mais uma vez, o realizador demonstra a sua habilidade para fazer crítica social com muita ironia; contudo, não atinge a variedade de abordagens que mostrou na primeira tirada. Neste segundo episódio regista-se um óbvio desequilíbrio entre as histórias. Apesar de as três récitas terem duração idêntica a forma como cada uma se desenvolve é bem diferente.

O relato da fuga de Simão Sem Tripas é praticamente todo contado através da narração em voz off exaltando a fuga de um homem “silencioso, solitário e mau”. Esta parte do filme testa a paciência do público: lento, muito lento, este “sketch” podia dizer outro tanto em muito menos tempo.

“As Lágrimas da Juíza” é o trecho mais apetitoso do segundo volume de “As Mil e uma Noites”. O absurdo é o caminho escolhido por Manuel Gomes, que demonstra grande inspiração para os diálogos. Nesta historieta há de tudo, incluindo uma vaca em fuga que consegue conversar com uma árvore.

No terceiro episódio o realizador retorna ao tom morno do início do volume. Apesar de o ritmo ser mais acelerado é necessário armar-se de paciência. Aqui Gomes analisa a “fauna” existente num prédio, mostrando breves imagens das suas peculiaridades, tendo como elo de ligação um simpático cãozinho chamado Dixie que obteve um prémio especial em Cannes: ganhou o Palm Dog no festival. Esta terceira parte do filme é mais uma oportunidade para salientar o empobrecimento da população enquanto critica os transportes públicos portugueses.

Miguel Gomes demonstra que, mesmo com meios reduzidos, olha apenas a fins e consegue, pelo menos parcialmente, obtê-los. A crítica de Cannes teve reacções variadas mas, sem excepção, manifesta admiração pela ambição do português. Contar 1001 histórias da crise em Portugal não era tarefa fácil e, por isso, a vasta recolha de material obrigou os criadores do filme a optarem pelo formato de tríptico para poder conter tanta informação, que por vezes foi esticada e disso é prova este segundo volume.

O filme oscila entre estas histórias, quase-reportagens, e as hesitações do realizador, em falta de inspiração e de soluções para o seu projecto, um pouco à imagem do país que se bate com a crise e as exigências dos seus credores.

A importância de “As mil e uma noites”, quer se goste ou não deste filme tantas vezes burlesco, foi de mostrar em Cannes que o cinema português tem sucessores para Manoel de Oliveira. Desejamos-lhe ainda mais sorte para Hollywood. n Raúl Reis

“As Mil e uma Noites – Volume 2 – O Desolado” de Miguel Gomes, com Joana de Verona, Teresa Madruga, Gonçalo Waddington, Crista Alfaiate, João Pedro Bénard, Xico Xapas e Luísa Cruz.

Raúl Reis


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