Cesarovna, a nova rainha da morna que cresceu a cantar ao lado de Cesária Évora
Cesarovna, a nova rainha da morna que cresceu a cantar ao lado de Cesária Évora
Nasceu na cidade de Lelin, Ulianovsk, onde estudou o seu pai.
É uma cidade universitária que recebeu muitos cabo-verdianos, numa altura em que havia uma forte cooperação entre a ex-União Soviética e Cabo Verde no setor da educação. O meu pai foi estudar para lá. Esteve cerca de cinco anos. Foi lá que conheceu a minha mãe, foi lá que se casaram e foi lá que nasci em 1981. Depois fui para Cabo Verde, com dois anos, onde vivo até hoje.
O seu pai acabou por “arrastar a sua mãe” da Rússia...
Houve sempre um entendimento familiar, mas eu e a minha mãe fomos um ano depois. A minha mãe já tem trinta e poucos anos de Cabo Verde, mais tempo do que da Rússia. Foi em Cabo Verde que fundou e dirige a revista Artiletra. Tem nacionalidade cabo-verdiana, é jornalista, investigadora e rosto da divulgação da cabo-verdianidade no arquipélago e no mundo.
E a Solange fala russo?
Sim. Tenho o hábito de continuar a falar russo com a minha mãe. É a língua que me permite manter contacto com os familiares na Rússia.
E esse contacto é regular?
Até à adolescência íamos, de dois em dois anos, passar as férias grandes à Rússia, na região de Samara, onde houve agora muitos jogos do Mundial de futebol. Atualmente as viagens não são constantes, mas o contacto é permanente.
Falando agora da música, como nasceu esta ligação?
Sempre encontrei em casa uma presença musical e um gosto muito grande pela cultura. A minha mãe tem formação na área cultural, mas tanto ela como o meu pai eram compositores, intérpretes e tocavam guitarra em casa. Só não se aventuraram por uma carreira profissional nesta área porque tinham outros objetivos.
Foi crescendo na música até que aos sete anos ganha o primeiro festival...
Sim. Foi a gala dos pequenos cantores, em São Vicente. A partir daí comecei a ter uma ligação muito forte com o palco, porque São Vicente tinha na altura uma dinâmica muito interessante que permitia aos jovens e às crianças aperfeiçoarem o seu talento. A programação anual do cinema Eden Park tinha muita presença musical para os mais novos, assim como as feiras culturais, e o festival da Laginha permitia também concertos para pequenos talentos. Depois, no ano seguinte e com oito anos, abri o festival Baía das Gatas e com nove voltei a esse festival. Isto permitiu-me confirmar o meu gosto e paixão pela música.
A confirmação do nome viria mais tarde, depois do primeiro CD...
E depois de cumprir um outro sonho, que foi a minha formação em Comunicação Social, com especialização em Cinema, no Rio de Janeiro, onde fiz também cursos de canto clássico e canto lírico na escola de música Villa-Lobos. A carreira musical era o meu sonho maior e a música tradicional de Cabo Verde o meu estilo. Gravei então o meu primeiro CD, “Solange Cesarova”, em 2008, em Los Angeles, no Skip Saylor Studios, onde gravaram artistas como Whitney Houston, Aretha Franklin, Stevie Wonder, Justin Timberlake, Michael Jackson ou Elton John. Depois gravei “Speranza”, em 2011, e no ano passado o meu terceiro álbum, “Mornas”, por altura dos 150 anos do nascimento do patrono cultural, Eugénio Tavares.
E porquê o nome Cesarovna?
Porque o meu pai chama-se César. Na Rússia, os filhos recebem como segundo nome o do pai, neste caso, quer dizer “filha de César”. Agora, a escolha para nome artístico, que é o mesmo que no registo, foi quando estava a gravar o CD nos Estados Unidos. O realizador das gravações perguntou o meu nome e depois disse: “O teu nome artístico tem de ser Solange Cesarovna”. Perguntei porquê. Ele disse: “Vai ser único e é muito pouco provável outro nome com esta mistura e particularidade”.
A ligação com Cesária Évora estende-se também à morna.
Antes de ela ser conhecida, já era muito próxima da minha família. Com seis, sete ou nove anos cantei várias vezes ao lado dela numa casa da vila de Calhau, onde os amigos se reuniam para serenatas. Depois de eu ter ganho a gala dos pequenos cantores ela encorajou-me a seguir carreira e deu-me muito apoio. Mais tarde, quando ela era uma estrela e regressava dos concertos no estrangeiro, ligava aos meus pais a dizer que trouxe prendas para mim e para a minha irmã. Era como uma tia, que não se esquecia dos amigos.
E como reage ao título de “nova rainha da morna”, que lhe é atribuído por alguma imprensa?
Com imensa felicidade e honra. É um título que me deixa orgulhosa, como é evidente, e que me emociona.
Como vê a candidatura da morna?
Além de ser um símbolo nacional, a alma do nosso povo, a morna é para mim o sol, é luar, é paixão, é saudade, é ligação de Cabo Verde com o mundo. Todas as atividades feitas a partir de junho até à altura do anúncio do resultado da candidatura [final de 2019] mostram que estamos muito otimistas, contribuem para este dossier de candidatura. O concerto foi neste sentido deste contágio.
Chegou a cantar no Vaticano. Como foi a experiência?
Foi em 2009, no Auditorium Della Conciliazione, num sínodo que juntou o Papa e 500 bispos e arcebispos africanos. Cantei junto com o Bonga, Papa Wemba e outros artistas africanos.

