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Cesária, a voz que não se apaga
Cultura 6 10 min. 16.12.2021
Reportagem

Cesária, a voz que não se apaga

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Cesária, a voz que não se apaga

Foto: Claude Piscitelli
Cultura 6 10 min. 16.12.2021
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Cesária, a voz que não se apaga

Um concerto único de homenagem a Cesária Évora emocionou Lisboa. Foi na sexta-feira, no Coliseu dos Recreios, para assinalar este ano simbólico, em que Cesária faria 80 anos de vida e em que se completa uma década de morte da cantora. As comemorações prolongam-se, em São Vicente, até dia 17.

(Ana Sofia Fonseca, em Lisboa*)

Dezembro, noite de sexta-feira. Apertados em casacos, homens e mulheres trocam alimentos por ingressos, nas bilheteiras do Coliseu dos Recreios de Lisboa. Nos sorrisos, a certeza de que esta é uma noite especial. Está quase na hora do concerto de homenagem a Cesária Évora.

Cá dentro, abraços quentes e o frenesim próprio da boca de palco. O ponteiro quase a bater nas nove e Élida Almeida ainda por vestir. O camarim de Tito Paris vazio. A luz acesa e nem sinal do músico. Nancy Vieira, vestido um palmo abaixo dos joelhos, já está pronta. Um toque no batom e o decote ajeitado. Uma voz da produção dá ordens: "Rápido, rápido lá para baixo!". É lá, atrás das cortinas do palco, que se encontra Emílio Moret, um dos oito músicos do mítico grupo cubano Septeto Habanero. Daqui a nada, a voz maior do que ele. O público arrebatado e ele a trazer Cuba a Lisboa, a fazer recordar "Lágrimas Negras", tema gravado por Cesária e Compay Segundo, num dueto que não se esquece.

Os músicos quase todos junto ao palco. Aqui e acolá, adereços do circo que ali acontece em tempo de Natal. Lucibela aproxima-se de Nancy. As duas num suspiro:

– Estou um bocadinho nervosa.

– Também eu.

O caso não é para menos. Esta é a noite de homenagem a Cesária Évora. Sabem bem que, este ano, assinalam-se 10 anos de da morte da Diva dos Pés Descalços. Sabem bem que, sem Cesária, talvez nem elas cantassem mundo afora. Talvez nem a morna tivesse sido declarada Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Certo é que César Fortes já tem as luzes de palco estudadas. Andou anos e anos em digressão, sempre a iluminar Cesária. Esta noite, o foco volta a estar na rainha da morna. Há ausências que são pormenor.

No segundo andar, ainda solidão no camarim de Tito Paris. Do músico, apenas o nome na porta. Há-de chegar mais tarde, entrar em palco no último terço do concerto, com aquele seu à-vontade, sempre a boina e a simpatia. Para ele, o Coliseu não tem segredos, mas hoje canta em tributo a Cesária. Na voz, o refrão de "Sodade"; no peito, a lembrança de todas as vezes que partilharam palco e vida. Há três anos, numa "barcearia" de São Vicente, assim se chamam as mercearias que tanto vendem comida quanto bebida, entre um grogue, uma banana e um acorde no violão, revelou saudades: "A Cesária tinha uma voz que era uma catedral. Mas o que mais admirava nela era a mulher. Antes do sucesso, vivia numa casa de onde via as estrelas, tais eram os buracos no tecto. Quem diria que se tornaria uma daquelas estrelas? Mas quando se tornou, continuou a mesma. Era de uma simplicidade única". Hoje, há-de pôr o Coliseu de pé, num aplauso a Cesária.

Foto: Inês Leote

À beira do palco, os músicos aproveitam o compasso de espera para pôr a conversa em dia. Estão de novo juntos. A maioria fez parte da orquestra de Cesária nos momentos de maior sucesso. O reencontro não deixa ninguém indiferente. Totinho, o saxofonista, que aprendeu o mapa-mundo com Cesária, ciranda por ali. Daqui a minutos, os seus solos hão-de levar o público ao delírio. Hoje como ontem. Era assim, era sempre assim. Esta noite, a tocar como durante os anos de glória de Cesária. O cabelo fez-se grisalho, mas o corpo e o saxofone permanecem um só. Há cumplicidades que nem o tempo muda.

E o tempo não tem todo o mesmo tempo. Esta noite não é uma só noite. São 80 anos de música, mornas e coladeiras. Neste ano, em que se assinalam os 10 anos da morte, Cesária faria 80 de vida. O simbolismo pesa como chumbo na ideia de Ana José Charrua, a produtora que muito acompanhou Cesária, nas suas idas e vindas a Lisboa. O encanto por Cesária faz-se de amizade e gratidão. Também de admiração. Como esquecer aquela madrugada em que, de repente, Cesária a mandou travar o carro? "Deixa-me sair, Ana!", ordenou-lhe, sem direito a recurso. 

E Ana ainda lhe advertiu dos perigos da hora, São Bento era então zona mal-afamada. Mas Cesária sempre fez o que queria, quando queria. A liberdade era o chão que respirava.

Ana a puxar o travão, Cesária decidida: "Quel li é criolo!". E ela nunca foi mulher de virar costas à sua gente. A ninguém. Saiu do carro e ajoelhou-se no chão, ao lado de um homem caído na calçada e no álcool: "Bo e de Soncente? Bo e fidje de quem?". O homem atónito, nunca pensara que o grogue desse tamanha visão. A duvidar do que os olhos viam. Cesária Évora?! E ela, fios de ouro a pesarem no pescoço, a ampará-lo até ao aconchego de um prato de cachupa com frango frito, junto à pensão onde insistia em aparecer. Tinha quarto nos mais estrelados hotéis da cidade, mas já ali muito se hospedara e era à "Ti Lina" que gostava de ir. Um andar maltratado, num prédio carcomido pelo tempo, onde os boémios esgotavam a madrugada à beira de cachupa refogada, cerveja e cigarros apagados em latas de atum vazias.

Os músicos estão prontos, falta o público. A sala enche-se vagarosamente, à medida que os certificados de vacinação Covid-19 são verificados. Élida Almeida, a jovem que saltou do interior de Santiago para os palcos, aproxima-se num vestido tão comprido quanto rosa. O cabelo entrançado, o sorriso largo e solto. Não tarda muito, naquele seu jeito de furacão, há-de pôr o Coliseu a dançar. Tem uma energia contagiante, tudo nela é uma doce força. Nunca conheceu Cesária, mas partilha com a Diva a sorte de ter sido descoberta por José da Silva, Djô da Silva para os próximos.

Na verdade, na música como na vida, ninguém descobre ninguém. José da Silva não descobriu Cesária, reconheceu-a. E isso é bem mais difícil. Há quase 50 anos que Cesária cantava nos bares do Mindelo. Já tinha passado pela discoteca Monte Cara, em Lisboa, e até dado um salto aos Países Baixos e aos Estados Unidos da América. Mas como ela tão bem dizia, "sempre na mesma situação". E a situação cabia numa palavra: miséria. E numa amargura: falta de reconhecimento. Sem casa, sem sustento, sem estatuto.

A vida começou a mudar naquele dia de 1987, em que José da Silva emudeceu ao ouvi-la cantar: "Nunca nenhuma voz me tinha emocionado daquela maneira". Naquele instante, descobriu-a. Quer dizer, reconheceu-a. Ou melhor, reconheceram-se. Vida fora, Cesária haveria de dizer: "Se não fosse o Djô da Silva, eu não era conhecida neste mundo, nem em França nem na América nem em parte nenhuma".

Naquela noite, na discoteca Monte Cara, em Lisboa, José da Silva, que vivia mais do trabalho nos caminhos-de-ferro franceses do que da música, apostou os dias na voz de Cesária. Quando tudo fazia crer que ela não tinha futuro, ele acreditou que "com aquela mulher ia fazer chorar o mundo". E fez. Mesmo sem entender crioulo, o público sentia cada palavra. Mesmo sem desvendar a letra, ficava à flor da pele. Os sentimentos dispensam dicionário.

Hoje, junto ao palco, é José da Silva quem traz uma lágrima presa no olhar. Não a deixa cair, segura-se nas memórias. E são tantas. Vão de São Vicente a Nova Iorque, passam pela Rússia. No início, em França, o quarto dos filhos transformado num quarto para Cesária. Aos poucos, a rainha da morna conquistou lugar entre as estrelas da world music. Somou concertos, discos de ouro e condecorações. Aos poucos, a vida de Cesária e a de José da Silva transformaram-se. É um homem reservado, mas Cesária está longe de ser apenas uma artista com quem trabalhou. Entre os dois, houve desde o início um entendimento diferente. Escolheram ser família. Vagueia o olhar pelo palco, já Totinho a agitar as bancadas. A saudade é um buraco sem fim. Anda há meses a sonhar esta noite e, agora, "Cize", na voz de Lucibela. Sorri.

Foto: Inês Leote

O palco dá ares de bar, enche-se de mesas e cadeiras, que os músicos ocupam. Tudo é intimidade e evocação de Cesária. Uma das mesas está vazia. É a sua mesa, aquela onde, a meio dos concertos, sempre ancorava para descansar, num copo e num cigarro. Na primeira fila, o filho de Cesária, Eduardo Évora. Veio de Paris para a homenagem, o cenário acerta-lhe na memória. Cresceu com a mãe a cantar nos bares do Mindelo por pouco mais do que tostões. Ao seu lado está Janete Évora, a neta de Cesária. Camisa branca e calças pretas, olhar brilhante de emoção. Herdou o retrato e o jeito da avó. Para ela, Cesária Évora é Iá-Iá, assim diz avó, desde as primeiras palavras. E Iá-Iá é a bússola dos seus dias. Entre elas, sempre houve um apego especial. Um amor que acabou canção – "Esperança e Risada", da autoria de Teófilo Chantre.

Janete ajeita-se na cadeira, a comoção é um formigueiro. Em vida, só assistiu a dois concertos da avó. Veio de Cabo Verde ontem, nada a podia afastar desta noite. Falta-lhe adivinhar que também ela subirá ao palco. No final do concerto, quando todos cantarem "Carnaval Di São Vicente", Élida Almeida há-de puxá-la. Janete em passos de samba e o Coliseu num aplauso. Traz o Carnaval no coração, ou não fosse São Vicente, como cantava Cesária, "un Brasilinho". No Carnaval de 2018, foi porta-bandeira da Escola de Samba Tropical, cujo tema era uma homenagem a Cesária. Esta noite, samba no Coliseu como então nas ruas do Mindelo. Com a avó no pensamento. Em miúda, sempre que tentava cantar, a avó, consciente da sua falta de timbre, dava-lhe dois contos para dançar.

Amanhã, há-de regressar a Cabo Verde. Ela e todos os artistas.

A homenagem a Cesária começa neste concerto organizado pelo Natal em Lisboa da EGEAC, mas estende-se por uma semana em São Vicente, a ilha de Cesária. Tão sua quanto uma ilha de vento pode ser de alguém. Aquela é a terra de onde zarpou sem nunca de lá realmente ter tirado os pés. A esta hora, já o concerto de domingo está a ser preparado. O palco no centro da cidade. Em rigor, na Praça Nova. A praça onde, no tempo colonial, Cesária não podia andar em cima do passeio por não ter sapatos. Domingo, a praça há-de aplaudi-la de pé. A vida tem destas ironias.

Foto: Inês Leote

Por agora, o aplauso segue no Coliseu. Palco, plateias e camarotes são um só sentir. Dança, risos e sentidos à flor da pele. Na bilheteira, acabam de se arrumar os alimentos recebidos. O concerto a rimar com o espírito de Cesária. Ao invés de bilhetes pagos, comida para quem precisa. Em Cabo Verde, isso chama-se comida de anjo. E Cesária, que sabia quanto a fome magoa, assim que o sucesso lhe valeu tecto e sustento, abraçou ainda mais a ideia. Sempre uma panela ao lume, um prato de comida para quem se abeirava da porta. Ricos e pobres, ilustres e marginalizados à mesma mesa. Comida de anjo. Ou de Cesária. Há vidas que deixam mesmo "sodade".

*Jornalista e realizadora de cinema, a autora está a terminar um documentário sobre Cesária Évora.

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