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Carta aberta pede a Sam Tanson que mantenha Cultura na agenda política
Cultura 6 min. 30.04.2020

Carta aberta pede a Sam Tanson que mantenha Cultura na agenda política

Carta aberta pede a Sam Tanson que mantenha Cultura na agenda política

Chris Karaba/Luxemburger Wort
Cultura 6 min. 30.04.2020

Carta aberta pede a Sam Tanson que mantenha Cultura na agenda política

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Representantes das maiores instituições culturais do país não querem ser esquecidos e defendem participação na estratégia de recuperação do setor. Ministra está aberta ao diálogo, mas avisa que ainda é cedo para "prever todas as sequelas da crise".

A exposição 'Portugal e Luxemburgo – Países de Esperança em Tempos Difíceis' inaugurou a 14 de fevereiro e prometia um ano auspicioso para a Neimënster, com elevado número de visitantes. Mas a mostra, que devia terminar a 10 de maio, foi suspensa em março, com o fecho de portas do centro cultural devido à covid-19. Tudo isso obrigou a repensar calendários e tempos de exibição.

Há atividades que estão prontas a retomar o ponto de partida. A elas contrapõem-se dúvidas, reorganizações de métodos de trabalho e orçamentos debelados pela crise. Um cenário de incerteza e preocupação que Ainhoa Achútegui, diretora da Neimënster, partilha com o Contacto e que divide com os colegas de outras instituições, numa carta aberta dirigida à ministra da Cultura, Sam Tanson.

A missiva é também assinada por Suzanne Cotter, do Mudam – Musée d’Art Moderne Grand-Duc Jean, Stephan Gehmacher, da Philharmonie, Frank Hoffmann, do Théâtre National du Luxembourg, Steph Meyers, Rotondes, Kevin Muhlen, Casino – Forum d’art contemporain, e Olivier Toth, da Rockhal.

Na carta, os responsáveis pelas principais estruturas culturais do país defendem que, sem prejuízo das áreas prioritárias, como a saúde, o setor não deve ser esquecido. Como resume Ainhoa Achutégui, o objetivo é que "tudo o que é cultura e arte e as pessoas que nelas trabalham também sejam colocados de novo na agenda política".

A carta pretende igualmente tirar a invisibilidade recente a que essas áreas foram votadas, nos últimos tempos, por força da pandemia. "É importante dizer que estamos aqui, prontos para trabalhar, com a sociedade, com o ministério, com todos os agentes culturais", frisa.


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Por isso, os signatários pedem que sejam ouvidos na redefinição da estratégia e preparação do seu desconfinamento, e que haja um reforço do orçamento, lembrando a alta precariedade dos artistas que a crise sanitária expôs ainda mais. "Nós, que representamos as artes, a música e o teatro, com centenas de outros criadores, artistas e um grande público, estamos convencidos de que, depois desta crise, a cultura terá um novo e primordial papel a desempenhar no Luxemburgo", defendem, propondo a sua "colaboração" para o definir e para "integrar a cultura, a longo prazo na acção dos governantes a todos os níveis". "É a cultura que irá olhar de uma forma crítica para a evolução do país".

Suzanne Cotter, diretora do Mudam e porta-voz do grupo de signatários explica ao jornal que a carta visa "dar voz ao setor cultural e a todos os que contribuem para o ecossistema cultural do país", assumindo-se como "um apelo aos decisores e ao público em geral para que não esqueçam o papel vital da cultura na sociedade para a reflexão sobre o nosso mundo pós-Covid-19", de forma a encontrar as melhores soluções.

Em resposta escrita ao Contacto, a ministra Sam Tanson acolhe a iniciativa manifestada na carta e o diálogo aberto entre as partes, garantindo que a cultura desempenhará "um papel decisivo na formação da sociedade de amanhã" e que se manterão os apoios. "Mesmo depois da crise, o Ministério da Cultura continuará a assegurar que os agentes do setor cultural sejam apoiados e que os seus projectos culturais sejam plenamente valorizados", refere a ministra.

No entanto, Sam Tanson ressalva que "neste momento, é demasiado cedo para prever todas as sequelas da crise" e que "quando chegar o momento, o Ministério trocará pontos de vista com os agentes culturais e elaborará novas medidas em conformidade".

Mesmo considerando as restrições provocadas pela pandemia, Suzanne Cotter teme que o futuro próximo possa implicar algum retrocesso, numa área que se estava a cimentar na vida do país. "Entre as minhas preocupações está o facto de tudo o que foi feito pela cultura no Luxemburgo, nas últimas décadas, vir a ser comprometido, por uma incapacidade de investir no nosso ainda frágil ecossistema". Isto, defende a responsável pelo Musée d’Art Moderne Grand-Duc Jean, quando, ao mesmo tempo, "o papel da cultura nunca foi tão reconhecido [como agora] na sua capacidade de contribuir para a inclusão e coesão sociais e para o bem-estar geral das pessoas, de inspirar e gerar ideias, e de imaginar um futuro mais equitativo e sustentável".

Subscrevendo o papel da cultura também como fator de coesão social e bem-estar, defendido por  Cotter e um dos pontos assinalados na carta, Ainhoa Achutégui lembra que os artistas e os agentes já assumem esse papel mesmo de portas fechadas. "Quando vemos a importância da cultura no confinamento, damo-nos conta que temos mais relevância do que eventualmente pensávamos", afirma, destacando os concertos nas redes sociais ou as visitas virtuais dos museus, como acontece com 'Portugal e Luxemburgo – Países de Esperança em Tempos Difíceis', que a instituição mantém patente ao público, através da internet. "A exposição era uma das mais populares que tínhamos tido até agora. Tivemos 200 pessoas num domingo, 150 num sábado. Incrível, tanta gente!", lembra a diretora da Neimënster.

O centro decidiu prolongar a exposição por mais "três meses", na expectativa de quando reabrir poder levar as pessoas a vê-la no local. Para isso foi preciso adiar outras. O espaço conseguiu reprogramar muitas das suas atividades, passando-as para meses mais à frente. Uma minoria, como as que estavam previstas para assinalar o 1º. de Maio, acabaram por ser anuladas e, tal como os grandes eventos de junho e julho – o Siren’s Call ou o concerto dos Snow Patrol – terão de esperar por 2021.

Agosto é o mês em que o espaço espera poder voltar a receber público e para o qual já passou os concertos de jazz de domingo, entretanto suspensos. Uma espécie de reentrée antecipada, com o que puder ser recuperado do calendário já organizado. "Isso também seria algo novo para nós: abrir as portas no início de agosto, em vez do início de setembro. Estamos ainda para saber se podemos e quando podemos abrir, quantas pessoas vamos poder receber e com que restrições".

Admitindo que a gestão dos espetáculos musicais pode ser mais complexa, numa fase inicial, Ainhoa Achutégui diz esperar que "em julho ou ainda em junho já se possa permitir a entrada de algum público nas exposições", prevendo cuidados e reorganização semelhante à que os supermercados praticam: pouca gente e o uso de máscara.

Para já, não há ainda decisões definitivas ou detalhadas, por parte do governo, sobre a reabertura dos espaços culturais. Apesar disso, a ministra Sam Tanson adiantou que, esta segunda-feira, reuniu, por videoconferência, com "representantes de várias associações culturais (AAPL, ACTORS, ALTA, ASPRO, LARS), para discutir os resultados dos inquéritos aos seus membros e a análise da situação atual devido à crise sanitária".

Mais do que saber como se irá reerguer o setor cultural dos estragos provocados por esta pandemia, a questão que se coloca, para Suzanne Cotter e para os signatários da carta, é, sobretudo, a de "saber como podemos assegurar que o sector cultural não seja abandonado a um estado de precariedade ainda maior". "É preciso um apoio continuado e reforçado nas suas múltiplas dimensões, desde os artistas e produtores culturais e intelectuais, até às instituições e plataformas que trabalham para permitir a sua visibilidade e acesso ao público", conclui. 

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