Carré Rotondes: Português Noiserv "toma de assalto" o Luxemburgo
Carré Rotondes: Português Noiserv "toma de assalto" o Luxemburgo
Megafone, máquina fotográfica, pistola de brincar, teclados infantis: o surpreendente arsenal de instrumentos musicais de Noiserv parece inesgotável. Sozinho em palco, rodeado de sintetizadores e teclados, este "homem dos sete instrumentos" (uma designação que, no caso do músico português, peca por defeito), abre o concerto em inglês confessando a sua perplexidade em relação à complexidade linguística do Luxemburgo.
"No caminho para cá, não sabia se havia de falar inglês ou francês, mas o meu francês é péssimo, apesar de ter estudado francês cinco anos na escola. Mas depois quando cheguei cá e fui comer ao MacDonald's, estava tudo em alemão...".
O público ri-se. Os portugueses na audiência propõem-lhe que "fale português", ao que o músico responde que se calhar nem todos entendem. Mas o primeiro "obrigado" há-de vir logo após o anúncio da segunda música, "Bullets on Parade" (um dos seus temas mais populares), muito aplaudido pelos portugueses na sala. A partir daí, os agradecimentos passam a ser trilingues: "Thank you, merci, obrigado".
Durante uma hora, David Santos leva o público por uma viagem através dos seus três álbuns, a que acresce um tema da banda sonora de "José e Pilar", "Palco do Tempo". Única canção em português do músico, que canta habitualmente em inglês, é uma das que arranca mais aplausos. Na assistência, um espectador luxemburguês há-de dizer mais tarde que foi essa a música de que gostou mais, "apesar de não perceber a letra".
Ao CONTACTO, depois do concerto e de quase duas horas a autografar discos, o músico avança que ainda há-de fazer um álbum em português.
"Quando comecei, as minhas influências eram em inglês. A música em português [para o documentário 'José e Pilar'] surgiu por causa de um desafio feito pelo realizador. Há pouco tempo fiz uma versão de uma música do Fausto ['Não canto porque sonho'], e no futuro tenho o objectivo de fazer um disco em português. Não sei se será o próximo, mas hei-de fazê-lo, até porque cantar noutra língua é como utilizar um novo instrumento", conta ao CONTACTO.
A paixão do músico por instrumentos musicais levou-o a coleccionar cerca de 300, que incluem rádios antigos, gira-discos e muitos teclados, descobertos em lojas de antiguidades ou na internet. A regra é só uma: quanto mais bizarro, melhor.
"Tenho a teoria de que quanto mais esquisito e estranho for o instrumento, melhor é o som, e quando vejo alguma coisa gira, não resisto a comprar".
O músico, que trocou a engenharia pelos palcos depois de ter feito "a escola toda" no Instituto Superior Técnico e de ter mesmo chegado a trabalhar na Siemens, admite que a paixão pela música vem de pequeno.
"Quando eu tinha seis anos, o meu pai conta que eu em vez de ver desenhos animados pedia-lhe para gravar vídeos e ficava a vê-los vinte vezes seguidas", recorda.
O homem-orquestra mantém muito desse encanto infantil com a música, visível no experimentalismo lúdico com que constrói os sedimentos musicais de que se fazem as suas canções ou nas melodias encantatórias, que evocam músicas de embalar para adultos.
A honestidade desarmante do músico reforça a relação com o público - como quando, no tema com que encerrou o concerto, "Don't say hi if you don't have time for a nice goodbye", interrompe a canção para admitir que se enganou a lançar uma das faixas sonoras e que vai ter de recomeçar desde o início, arrancando muitas gargalhadas e palmas.
Noiserv ("version" lido ao contrário, trocando o 'E' com o 'R') é o nome artístico do projecto a solo de David Santos, que integra também a banda You Can’t Win Charlie Brown. No Luxemburgo há apenas algumas horas quando falou com o CONTACTO, o músico lisboeta ficou com boa impressão do país, depois de um taxista português lhe ter servido de cicerone quando chegou ao aeroporto.
"Ele foi super porreiro, porque desligou o taxímetro e andou 40 minutos a mostrar-nos a cidade", conta. "Parece-me um sítio arranjadinho, bonito, e dá vontade de voltar. Mas eu também sou o tipo de pessoa que não gosta de Nova Iorque: prefiro sítios pequenos, em que vês o teu vizinho e dizes 'bom dia, boa tarde', e por isso se calhar ia gostar do Luxemburgo".
O músico, considerado um dos maiores nomes da música 'indie' em Portugal, gostou de ver muitos portugueses no concerto.
"Sabia que havia muitos portugueses [no Luxemburgo], mas não sabia se conheciam e gostavam deste tipo de música. Fiquei muito contente por ver que há muita gente cá que está ao corrente do que eu faço e que não é só, como se diz, Tony Carreira".
Noiserv foi o segundo nome português a passar pelo festival "Congés Annulés" (Férias anuladas), no Carré Rotondes, depois da banda Paus, que abriu a programação a 1 de Agosto. Uma selecção que atesta que Marc Hauser, o programador daquele espaço, está cada vez mais afinado com o que de melhor se faz em todo o mundo, incluindo em Portugal. Hauser viu Noiserv há dois anos no festival Eurosonic em Groningen, na Holanda, e não descansou até conseguir trazer o músico português ao Luxemburgo, apesar dos 180 kg de instrumentos com que o "homem-orquestra" viaja. Uma aposta claramente ganha, como o demonstra o entusiasmo do público este sábado.
Paula Telo Alves
