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Carré Rotondes: Português Noiserv "toma de assalto" o Luxemburgo
Cultura 12 6 min. 24.08.2014

Carré Rotondes: Português Noiserv "toma de assalto" o Luxemburgo

Cultura 12 6 min. 24.08.2014

Carré Rotondes: Português Noiserv "toma de assalto" o Luxemburgo

Armado de dezenas de instrumentos e de uma simpatia irresistível, o português David Santos, aka Noiserv, conquistou o público luxemburguês que encheu o Carré Rotondes para o ver no sábado. O músico, que tem como lema "quanto mais esquisito o instrumento, melhor", encantou o público com a polifonia das suas canções. Resultado: quase duas horas a dar autógrafos.
Uma pistola de brincar foi um dos "instrumentos" de que David Santos se serviu
Uma pistola de brincar foi um dos "instrumentos" de que David Santos se serviu
Foto: Atelier d'images - Sven Becker

Megafone, máquina fotográfica, pistola de brincar, teclados infantis: o surpreendente arsenal de instrumentos musicais de Noiserv parece inesgotável. Sozinho em palco, rodeado de sintetizadores e teclados, este "homem dos sete instrumentos" (uma designação que, no caso do músico português, peca por defeito), abre o concerto em inglês confessando a sua perplexidade em relação à complexidade linguística do Luxemburgo.

"No caminho para cá, não sabia se havia de falar inglês ou francês, mas o meu francês é péssimo, apesar de ter estudado francês cinco anos na escola. Mas depois quando cheguei cá e fui comer ao MacDonald's, estava tudo em alemão...".

O público ri-se. Os portugueses na audiência propõem-lhe que "fale português", ao que o músico responde que se calhar nem todos entendem. Mas o primeiro "obrigado" há-de vir logo após o anúncio da segunda música, "Bullets on Parade" (um dos seus temas mais populares), muito aplaudido pelos portugueses na sala. A partir daí, os agradecimentos passam a ser trilingues: "Thank you, merci, obrigado".

Durante uma hora, David Santos leva o público por uma viagem através dos seus três álbuns, a que acresce um tema da banda sonora de "José e Pilar", "Palco do Tempo". Única canção em português do músico, que canta habitualmente em inglês, é uma das que arranca mais aplausos. Na assistência, um espectador luxemburguês há-de dizer mais tarde que foi essa a música de que gostou mais, "apesar de não perceber a letra".

Ao CONTACTO, depois do concerto e de quase duas horas a autografar discos, o músico avança que ainda há-de fazer um álbum em português.

"Quando comecei, as minhas influências eram em inglês. A música em português [para o documentário 'José e Pilar'] surgiu por causa de um desafio feito pelo realizador. Há pouco tempo fiz uma versão de uma música do Fausto ['Não canto porque sonho'], e no futuro tenho o objectivo de fazer um disco em português. Não sei se será o próximo, mas hei-de fazê-lo, até porque cantar noutra língua é como utilizar um novo instrumento", conta ao CONTACTO.

A paixão do músico por instrumentos musicais levou-o a coleccionar cerca de 300, que incluem rádios antigos, gira-discos e muitos teclados, descobertos em lojas de antiguidades ou na internet. A regra é só uma: quanto mais bizarro, melhor.

"Tenho a teoria de que quanto mais esquisito e estranho for o instrumento, melhor é o som, e quando vejo alguma coisa gira, não resisto a comprar". 

O músico, que trocou a engenharia pelos palcos depois de ter feito "a escola toda" no Instituto Superior Técnico e de ter mesmo chegado a trabalhar na Siemens, admite que a paixão pela música vem de pequeno.

"Quando eu tinha seis anos, o meu pai conta que eu em vez de ver desenhos animados pedia-lhe para gravar vídeos e ficava a vê-los vinte vezes seguidas", recorda.

O homem-orquestra mantém muito desse encanto infantil com a música, visível no experimentalismo lúdico com que constrói os sedimentos musicais de que se fazem as suas canções ou nas melodias encantatórias, que evocam músicas de embalar para adultos.

A honestidade desarmante do músico reforça a relação com o público - como quando, no tema com que encerrou o concerto, "Don't say hi if you don't have time for a nice goodbye", interrompe a canção para admitir que se enganou a lançar uma das faixas sonoras e que vai ter de recomeçar desde o início, arrancando muitas gargalhadas e palmas.

Noiserv ("version" lido ao contrário, trocando o 'E' com o 'R') é o nome artístico do projecto a solo de David Santos, que integra também a banda You Can’t Win Charlie Brown. No Luxemburgo há apenas algumas horas quando falou com o CONTACTO, o músico lisboeta ficou com boa impressão do país, depois de um taxista português lhe ter servido de cicerone quando chegou ao aeroporto.

"Ele foi super porreiro, porque desligou o taxímetro e andou 40 minutos a mostrar-nos a cidade", conta. "Parece-me um sítio arranjadinho, bonito, e dá vontade de voltar. Mas eu também sou o tipo de pessoa que não gosta de Nova Iorque: prefiro sítios pequenos, em que vês o teu vizinho e dizes 'bom dia, boa tarde', e por isso se calhar ia gostar do Luxemburgo".

O músico, considerado um dos maiores nomes da música 'indie' em Portugal, gostou de ver muitos portugueses no concerto.

"Sabia que havia muitos portugueses [no Luxemburgo], mas não sabia se conheciam e gostavam deste tipo de música. Fiquei muito contente por ver que há muita gente cá que está ao corrente do que eu faço e que não é só, como se diz, Tony Carreira".

Noiserv foi o segundo nome português a passar pelo festival "Congés Annulés" (Férias anuladas), no Carré Rotondes, depois da banda Paus, que abriu a programação a 1 de Agosto. Uma selecção que atesta que Marc Hauser, o programador daquele espaço, está cada vez mais afinado com o que de melhor se faz em todo o mundo, incluindo em Portugal. Hauser viu Noiserv há dois anos no festival Eurosonic em Groningen, na Holanda, e não descansou até conseguir trazer o músico português ao Luxemburgo, apesar dos 180 kg de instrumentos com que o "homem-orquestra" viaja. Uma aposta claramente ganha, como o demonstra o entusiasmo do público este sábado.   

Paula Telo Alves