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Cannes 2016: O cinema não é como o azeite
“I, Daniel Blake”, de Ken Loach, venceu a palma

Cannes 2016: O cinema não é como o azeite

“I, Daniel Blake”, de Ken Loach, venceu a palma
Cultura 3 min. 25.05.2016

Cannes 2016: O cinema não é como o azeite

Dizem os “habitués” do festival de Cannes que nos anos em que a selecção oficial é fraca, o palmarés é bom. E que, caso a selecção seja de elevada qualidade, o júri tem tendência a fazer as piores escolhas.

Dizem os “habitués” do festival de Cannes que nos anos em que a selecção oficial é fraca, o palmarés é bom. E que, caso a selecção seja de elevada qualidade, o júri tem tendência a fazer as piores escolhas.

Os mesmos “velhotes” de Cannes também asseguram que não há festival sem chuva, enquanto os mais exagerados dizem que em Cannes há mais chuva do que sol durante o festival de cinema.

Quanto à chuva não me pronuncio, até porque já vi de tudo: já esperei nas filas intermináveis debaixo de chuva e com temperaturas invernosas, mas também já fiquei com o nariz vermelho de tanto sol que apanhei durante o tempo de uma simples entrevista. Cannes faz lembrar o Luxemburgo: são possíveis várias estações do ano na mesma tarde, com a diferença que na Côte d’Azur só neva de 20 em 20 anos. Mas se quanto ao clima não tenho revelações a fazer, no que diz respeito à qualidade dos filmes de 2016 tenho algumas coisas a acrescentar.

PALMARÉS

Palma de ouro:

“I, Daniel Blake”, de Ken Loach;

Grande prémio:

“Juste la fin du monde”, de Xavier Dolan;

Melhor realizador (ex æquo):

Cristian Mungiu, por “Bacalaureat”, e Olivier Assayas, por “Personal Shopper”;

Melhor argumento:

Asghar Farhadi, por “Forushande”;

Prémio do júri

“American honey”, de Andrea Arnold;

Melhor actriz:

Jaclyn Jose em “Ma’ Rosa”, de Brillante Mendoza;

Melhor actor:

Shahab Hosseini em “Forushande”, de Asghar Farhadi

Cannes 2016 foi uma excelente colheita. Os filmes na oficial – e mesmo as escolhas no âmbito da secção Certain Regard – deixaram todos os cinéfilos contentes. As obras que lideraram as preferências dos críticos não seriam sempre as mesmas, mas a unanimidade foi total num aspecto: 2016 foi um ano muito bom.

Um filme conseguiu também unanimidade junto dos críticos. A mais recente obra de Sean Penn é tão má que provocou risos durante os momentos mais dramáticos e apupos logo que as palavras “The End” apareceram no ecrã. “The Last Face” é protagonizado por Charlize Theron, ex-namorada de Penn, e ambos fizeram o frete de se cruzarem no tapete vermelho e na conferência de imprensa, quase sem se olharem. O filme conta a história de dois cooperantes ocidentais que se apaixonam em África durante uma guerra. Um crítico mais provocador declarou acreditar que foi por causa de Sean Penn ter feito este filme tão mau que a actriz o deixou...

Como muitos outros filmes, incluindo o vencedor da Palma, “I, Daniel Blake”, de Ken Loach, a maioria das obras em competição partilhavam preocupações políticas e posicionamentos ideológicos confessos.

Outro elemento recorrente na selecção oficial foi a sensualidade. Raramente nos filmes do festival se assiste a uma tal panóplia de cenas de sexo bastante desinibido e, sobretudo, em tantos filmes.

Os críticos tinham dois ou três favoritos para o galardão máximo do festival. O filme austro-alemão de Maren Ade, “Toni Erdmann”, projectado no início do festival, tornou-se até ao final um favorito, para não dizer que foi o mais apreciado. No trio da frente, juntaram-se a esta película a de Jim Jarmusch e “Graduation”, de Cristian Mungiu. Só este último surge no palmarés com o prémio para a melhor realização.

Qualquer um destes três filmes podia ter obtido a Palma de Ouro. E ninguém ficaria chocado. A entrega do prémio pela segunda vez a Ken Loach desiludiu, porque o realizador está na sua “fase Woody Allen”: não tendo nada a provar, o britânico assina um melodrama emotivo mas banal e quase aborrecido. Loach denuncia a privatização dos serviços públicos e não deixou de lançar um dos seus manifestos habituais durante todas as entrevistas que deu, reincidindo na cerimónia de entrega dos prémios: “É necessário e urgente dizer às pessoas que outro mundo é possível”.

Os portugueses estavam fora das competições, com excepção da Semana da Crítica. Os dois nomes lusos em concurso fizeram boa figura, sendo procurados pela imprensa para falarem das suas obras. Cristèle Alves Meira e Pedro Peralta, que já tinham passado pelo Indie Lisboa, voltaram a encontrar-se na competição das curtas sem levarem prémios para casa. Mas como declarou a energética Cristèle Alves Meira, uma luso-francesa cheia de vontade de falar da sua terra, o festival é também uma oportunidade para fazer contactos e criar contactos para o futuro. O cinema português bem precisa de “networking” e de criadores assim.

Raúl Reis

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