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Cannes 2014: Regresso a casa

Cannes 2014: Regresso a casa

Cultura 4 min. 23.04.2014

Cannes 2014: Regresso a casa

Uma fotografia de Marcello Mastroianni foi escolhida para o cartaz oficial do Festival de Cannes 2014. A foto foi trabalhada a partir de uma cena do actor italiano no filme “8 1/2”, de Federico Fellini.

Os organizadores do festival de cinema de Cannes justificam a escolha “para celebrar um cinema livre e aberto ao mundo, ratificando novamente a importância do cinema italiano e europeu através de duas das suas mais importantes figuras”. Além disso, os senhores que mandam no maior festival do mundo dizem ter escolhido o actor italiano porque “nos seus filmes Mastroianni sintetizou tudo o que era mais inovador, não conformista e poético no cinema”.

Curiosamente, o clássico filme de Fellini foi exibido em Cannes em 1963 sem ter obtido a Palma de Ouro, tendo outro italiano, Visconti, levado para casa o prémio com “O Leopardo”. O filme de Visconti acabaria por obter dois Óscares: filme estrangeiro e guarda-roupa.

A selecção de 2014 inclui três filmes de realizadores premiados em edições anteriores com a Palma de Ouro.Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne regressam com “Deux Jours Une Nuit”, onde dirigem a estrela do cinema francês Marion Cotillard no papel de uma mulher que procura manter o emprego convencendo os colegas a abdicarem dos seus bónus. Todos os filmes anteriores dos Dardenne desde “Rosetta” estiveram em competição e os belgas pertencem ao clube restrito de realizadores que já ganharam duas Palmas de Ouro.

Ken Loach também pertence ao grupo de “habitués” de Cannes. O britânico ganhou uma Palma de Ouro e apresentou 16 filmes no festival. Loach regressa com “Jimmy’s Hall”.

Ken Loach compete com outro inglês, trata-se de Mike Leigh, que apresenta “Mr. Turner”, uma biografia do pintor neoclássico JMW Turner. Leigh regressa a uma competição onde apresentou quatro filmes e que o consagrou com “Secrets and Lies” (Palma de Ouro) e “Naked” (melhor realização).

Na selecção oficial salienta-se o regresso de Jean-Luc Godard, que é por si só um símbolo de Cannes por boas e más razões. Godard rodou “Adieu au Langage” em 3D. É a quinta vez que o realizador surge em competição. A representação da casa fica completa com os filmes de Olivier Assayas, Bertrand Bonello e Michel Hazanavicius.

“Sils Maria” (com Juliette Binoche como protagonista) é o primeiro filme em língua inglesa de Assayas, um realizador que competiu três vezes em Cannes. Michel Hazavanicius regressa com “The Search”, onde dirige novamente a sua companheira Bérénice Bejo. É um remake de um filme de guerra de Fred Zinnemann, transportado para o conflito na Chechénia. O realizador causou impacto em Cannes com “The Artist”, tendo depois conquistado a cerimónia dos Óscares de Hollywood.

Bonello assina “Saint Laurent”, um “biopic” não autorizado sobre Yves Saint Laurent, a segunda biografia do estilista no espaço de um ano.

 “Mommy”, um drama entre mãe e filha, marca a estreia de Xavier Dolan na categoria principal após três presenças em secções secundárias. Dolan é um muito jovem realizador canadiano que tem actualmente em exibição nas salas do Luxemburgo “Tom à la Ferme”.

Outro canadiano, David Cronenberg, é presença regular em Cannes onde esteve na competição por quatro vezes (ganhou o prémio do júri com o brilhante “Crash” e mais apresentou “Cosmopolis”, uma co-produção com um cheirinho a Portugal). Cronenberg leva a Cannes “Maps to the Stars”, uma história sobre estrelas de Hollywood.

E depois temos realizadores como o turco Nuri Bilge Ceylan (cinco presenças na competição de Cannes e dois grandes prémios do júri) e o actor Tommy Lee Jones, que regressa à competição com a segunda longa-metragem que assina como realizador.

O cinema africano tem uma rara presença entre os títulos que vão disputar a Palma de Ouro com uma obra chegada da Mauritânia, “Timbuktu”, de Abderrahmane Sissako.

Destaque ainda para a presença de duas realizadoras na secção principal (Naomi Kawase e Alice Rohrwacher), num total de 15 representantes do cinema no feminino que farão parte do programa deste ano, incluindo a portuguesa Teresa Villaverde, parte do colectivo que assina o documentário “Pontes de Sarajevo”.

Não há nenhum filme português ou luxemburguês na selecção oficial mas “The Blue Room”, de Mathieu Amalric, é um dos mais recentes filmes do produtor Paulo Branco, e surge na secção paralela Un Certain Regard. O mesmo acontece com a co-produção luxemburguesa-austríaca “Amour fou” de Jessica Hausner que está na mesma selecção.

O Festival de Cannes 2014 tem lugar entre 14 e 25 de Maio. A presidente do júri é a cineasta Jane Campion.

Raúl Reis