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Cannes 2013: E porque não?
As duas actrizes principais do filme "La Vie d'Adèle"

Cannes 2013: E porque não?

As duas actrizes principais do filme "La Vie d'Adèle"
Cultura 5 min. 10.09.2013

Cannes 2013: E porque não?

Raúl Reis em Cannes

O Júri do 66° Festival de Cannes, presidido por Steven Spielberg, revelou o palmarés durante a cerimónia de encerramento que teve lugar no domingo à noite.

A actriz Audrey Tautou acolheu Uma Thurman no palco do Grand Théâtre Lumière para entregar a Palma de Ouro de um festival cuja qualidade geral foi muito elevada.

Steven Spielberg, e os seus jurados, quiseram que a Palma fosse entregue não só ao realizador de "La Vie d'Adèle", Abdellatif Kechiche, mas também às protagonistas do filme, as jovens actrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux.

Uma originalidade por parte dos jurados que pretende premiar um filme que repousa muito no trabalho de interpretação das duas mulheres.

Adèle e Emma são duas adolescentes que se descobrem e que caminham juntas, descobrindo a homossexualidade.

Kechiche filma sem receios e mostra tudo. "La Vie d'Adèle" é um exercício ousado, longo (quase três horas de duração) e deverá ter uma sequela que se espera tão satisfatória como esta tirada.

Se o realizador franco-tunisino é uma novidade nos palmarés de Cannes, o Grande Prémio do júri traz à lista dos premiados os irmãos Coen, velhos "habitués" da Croisette.

"Inside Llewyn Davis" é um filme cuja acção se desenrola no mundo da música, um elemento que não costuma ocupar um lugar central na filmografia dos dois norte-americanos. Contudo, esta obra é talvez a melhor súmula do "estilo Coen" e resume todo o percurso dos irmãos cineastas que, pela primeira vez, saíram da sua América profunda para filmar em Nova Iorque.

Os Coen não esperaram em Cannes para receber o prémio: tendo o seu filme projectado na semana inicial do festival, Joel e Ethan fizeram-se representar pelo produtor Olivier Courson e o actor e músico Oscar Isaac.

O prémio da realização foi para o mexicano Amat Escalante, que mostra de forma muito gráfica a violência dos gangues no seu país. Escalante defendeu-se dizendo que o seu filme é uma simples caricatura da realidade, e que esta é muito mais triste do que aquilo que ele ousou mostrar.

A história de um grande homem de negócios, obcecado pelo dinheiro e pelo sucesso que um dia descobre que está a criar o filho de outro homem há seis anos, mereceu o Prémio do Júri.

O filme chama-se "Like Father, Like Son" e foi realizado pelo japonês Kore-Eda Hirokazu. O júri resolveu premiar mais um filme oriental, atribuindo o galardão para o melhor argumento a "A Touch of Sin", do chinês Jia Zhangke.

Com a acção a desenrolar-se na China contemporânea, a película conta a história de quatro personagens em quatro distintas províncias. Trata-se de uma reflexão sobre a China contemporânea: uma sociedade com um desenvolvimento económico enorme e que pouco a pouco vai sendo corrompida pela violência.

Os prémios de interpretação foram para o americano Bruce Dern, pela sua interpretação em "Nebraska", de Alexander Payne, e para a francesa Bérénice Bejo, que protagoniza "Le passé", de Asghar Farhadi.

Dern merece ser distinguido pela sua excelente interpretação, mas o galardão soa a uma espécie de consagração pela sua carreira bastante original, e cheia, sobretudo, de excelentes papéis secundários. Bérénice Bejo vai certamente ganhar autoconfiança depois de levar para casa o prémio destinado à melhor actriz.

Bejo declarou várias vezes ter ficado surpreendida por ter a oportunidade de filmar com um realizador que não conhecia. A actriz tinha, até agora, conseguido reconhecimento sobretudo em filmes dirigidos pelo seu marido, Michel Hazanavicius.

A presença portuguesa nas distintas selecções era discreta mas alguns prémios acabaram por encontrar o seu caminho até Portugal.

A curta-metragem "Gambozinos", de João Nicolau, venceu o prémio para a melhor curta-metragem na Quinzena dos Realizadores, secção paralela do festival, enquanto "Cativeiro", de André Gil Mata, arrecadou o prémio DocAlliance.

A Quinzena dos Realizadores premiou também um filme produzido no Luxemburgo, "Tip Top", com uma menção especial. O filme "Tip Top" é produzido maioritariamente pela Iris Productions do Luxemburgo.

"Tip Top", assinado por Serge Bozon, é uma comédia que conta com Isabelle Huppert, Sandrine Kiberlain e o belga François Damiens nos principais papéis.

O filme francês "Les Garçons et Guillaume, à table!", de Guillaume Gallienne, recebeu os dois galardões máximos da Quinzena dos Realizadores 2013, onde concorria também o luso-descendente Basil da Cunha com a sua primeira longa-metragem "Até ver a luz".

Esta obra do realizador luso-suíço detinha quase todas as esperanças lusitanas de um galardão, num filme que conta a história de Sombra, um traficante de um bairro de lata de Lisboa.

Basil da Cunha trabalhou com actores não profissionais que foram uma das grandes atracções da Quinzena e da festa portuguesa que reuniu na esplanada do hotel Majestic as equipas de "Até ver a luz", mas também do filme produzido no âmbito de Guimarães 2012, "3x3D".

Este projecto, que passou no âmbito da secção Semana da Crítica, assinado por três realizadores – Peter Greenaway, Jean-Luc Godard e Edgar Pêra – foi claramente a produção portuguesa que mais atraiu a atenção da imprensa internacional.

A presença do realizador Miguel Gomes como presidente do júri que atribuiu o prémio da 52a Semana da Crítica foi também relevante para as cores portuguesas, ficando claro que, depois de "Tabu", o cineasta já tem um lugar de relevo no firmamento do cinema europeu.

Raúl Reis, em Cannes