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Cannes 2013: Assaltos e escadotes a mil euros
Os "fait divers" paralelos ao evento quase têm feito esquecer que Cannes é feito de filmes. E este ano eles são bons. Surpreendentemente bons

Cannes 2013: Assaltos e escadotes a mil euros

Os "fait divers" paralelos ao evento quase têm feito esquecer que Cannes é feito de filmes. E este ano eles são bons. Surpreendentemente bons
Cultura 6 min. 10.09.2013

Cannes 2013: Assaltos e escadotes a mil euros

Raúl Reis na Croisette

"Dou-lhe mil euros se me deixar o seu escadote durante uma hora, minha senhora", insistia o jornalista americano que falava um francês excelente, mas denunciava a sua origem com um sotaque típico de "gringo". "Nem pense!", voltou a repetir a senhora, que aparentava ter uns 70 anos bem contados.

"O senhor sabe que eu vim para aqui, marcar lugar com o meu escadotezinho, três dias antes do festival começar? E que tenho estado aqui, debaixo de chuva, as ver todas as projecções e as subidas do tapete vermelho?". A senhora não ia desistir; era evidente.

Contudo, o americano continuou a negociar e eu fui à minha vida. Ou seja, fui buscar um pulóver ao carro, que a brisa marítima, associada aos 13 ou 14 graus, não está para brincadeiras.

A edição de 2013 do maior festival de cinema do mundo começou encharcada, mas está a ser uma boa colheita. Os "fait divers" paralelos ao evento quase têm feito esquecer que o festival é feito de filmes. E este ano eles são bons. Surpreendentemente bons.

Compreendo que seja mais fácil discutir à mesa do café o incrível roubo das jóias Chopard de um quarto do Novotel do que o filme holandês chamado "Borgman", realizado por um tipo com um nome impronunciável.

Acredito que seja muito mais provável que a minha mãe me telefone porque viu na televisão que um tipo andou aos tiros na Croisette do que para me falar do filme de Jim Jarmusch.

Entretanto, um importante festivaleiro chinês, representante da indústria do cinema no seu país, foi roubado no seu quarto de hotel e acusa o hotel de reagir de forma "arrogante": "Propuseram-me trocar a fechadura e nem sequer quiserem ver o estado em que ficou o meu apartamento", queixou-se Zhang Qiang.

Cannes também foi atracção para os políticos. A companheira do presidente francês, Valérie Trierweiler, apareceu no festival para assistir ao filme de Claude Lanzmann sobre o gueto de Terezin, na Checoslováquia, "Le dernier des injustes".

Uma presença ainda mais activista foi a do líder do Frente de Esquerda francesa, Luc Mélenchon, que se encontrou com operários de vários domínios em Cannes e arredores.

Apesar dos casos de polícia, dos políticos e da chuva – que foi demasiada nos primeiros dias do certame –, há que admitir que Cannes 2013 é um bom ano. Há hora que o CONTACTO me pede este texto, ainda a procissão vai no adro. Faltam dois terços de festival.

Curiosamente, e apenas quatro dias e meio depois de começarem as projecções, já passaram por aqui mais filmes bons do que em outros anos durante um festival inteiro.

Descrevi a edição de 2012, a 65a, como uma pedradazita num charco que não mudou nada à superfície da água, nas margens e nem sequer no fundo do mesmo. Assim descrevi Cannes 2012 há um ano atrás, como um "pluf".

Para usarmos a mesma metáfora, o festival de 2013 promete ser qualquer coisa como um mergulho de chapa: a água mexe-se à superfície mas também nas profundidades e muita gente sai salpicada. Mas estes salpicos são bons. São borrifos de belo cinema, esparrinchadelas de excelentes interpretações, banhos de realização ou duches de criatividade.

Dos primeiros filmes do festival permitam-me começar por dois dos meus realizadores preferidos. Um chama-se Joel e o segundo Ethan, felizmente filmam juntos, senão os cinéfilos deste mundo não tinham tempo para ver tantos filmes bons.

Os irmãos Coen voltaram a Cannes depois de já terem arrecadado prémios na Croisette, por exemplo com "Barton Fink", que foi nada mais nada menos que a Palma de Ouro em 1991.

"Inside Llewyn Davis" é uma película mais estranha que os últimos trabalhos dos Coen, mas mais próxima das origens destes cineastas. A inclusão de músicos como T Bone Burnett ou Justin Timberlake são um enorme valor acrescentado.

E que dizer do verdadeiro OVNI que chegou da Holanda? Alex Van Warmerdam, o realizador de "Borgman", afirmou: "Desejei mostrar o mal através do comportamento anormal de pessoas normais, daquelas que podemos encontrar na rua. Há pessoas que ficam mais brandas com a idade. Eu fico mau. Não sei se o meu filme não se tornou muito mau!".

A prova está no curioso e desconcertante "Borgman", a obra que mais dividiu a crítica e o público até ao momento em que escrevo estas linhas.

A presença do realizador francês Arnaud Desplechin com um filme falado em inglês foi, por seu lado, quase unânime em elogios. Benicio del Toro, no papel de um índio que se bate com uma estranha condição psicológica, é o tema de "Jimmy P (Psychotherapy of a plains indian)".

A irmã de Carla Bruni-Sarkozy é a única mulher na competição oficial. Valeria Bruni-Tedeschi continua a abordar a veia autobiográfica, intimista e familiar com "Un château en Italie".

E ficamos a aguardar Roman Polanski, que aparece na Croisette com duas obras. Um documentário de 1972 e o seu mais recente filme, "Venus In Fur", com o qual o cineasta está habilitado a ganhar a segunda Palma de Ouro após a consagração máxima que obteve com "The Pianist" (2002).

Alexander Payne também regressa 11 anos depois com "Nebraska", filme a preto-e-branco sobre uma viagem de um pai e um filho.

O realizador de origem dinamarquesa Nicolas Winding Refn ressurge dois anos depois de ter ganho o prémio de realização com "Drive" – em "Only God Forgives", e dirige novamente Ryan Gosling.

James Gray apresenta "The Immigrant", dando sequência a uma presença regular no maior festival de cinema do mundo.

"Only Lovers Left Alive", o mais recente trabalho do americano Jim Jarmusch, é uma história de vampiros que foi acrescentada à competição à última hora.

E agora sou eu que volto ao Palais porque, entre roubos e escadotes, as projecções não param. 

Raúl Reis, em Cannes

Publicado no CONTACTO em 22.05.2013