Escolha as suas informações

Candidatura à UNESCO. “Esperamos a consagração da morna”
Cultura 4 min. 28.03.2018 Do nosso arquivo online

Candidatura à UNESCO. “Esperamos a consagração da morna”

Mais do que um estilo musical, Cesária Évora ajudou a fazer da morna um símbolo nacional.

Candidatura à UNESCO. “Esperamos a consagração da morna”

Mais do que um estilo musical, Cesária Évora ajudou a fazer da morna um símbolo nacional.
Foto: Claude Piscitelli
Cultura 4 min. 28.03.2018 Do nosso arquivo online

Candidatura à UNESCO. “Esperamos a consagração da morna”

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
O ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde entregou, esta segunda-feira, na UNESCO, o dossier de candidatura do estilo musical “morna” a Património Imaterial da Humanidade. Para Abraão Vicente, o povo cabo-verdiano “merece esse reconhecimento”.

“Esperamos a consagração da morna. Tudo fizemos para que assim fosse e tudo faremos, no seguimento da entrega na UNESCO, para que seja reconhecida como tal. O povo de Cabo Verde merece esse reconhecimento, a nossa história e o contributo para a Humanidade também merecem este momento de júbilo coletivo”, disse o ministro ao Contacto.

A decisão da UNESCO deverá ser conhecida em dezembro de 2019, culminando um processo que começou a tomar corpo depois do anúncio da elevação do fado à categoria de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 2011.

“Quando entrámos no Governo, em abril de 2016, herdámos a expetativa e uma comissão de honra. Todo o trabalho de construção técnica do dossier teve de ser feito neste último ano e meio”, refere Abraão Vicente, lembrando ainda o “forte envolvimento” do Instituto do Património Cultural e a “assistência técnica de Portugal”.

Tida como a “expressão maior da alma cabo-verdiana”, a morna é também a expressão cultural que melhor expressa o percurso histórico deste povo.

“Da descoberta à escravatura, do colonialismo à independência, do período do partido único à abertura democrática. A morna acompanhou todos os movimentos migratórios, todos os movimentos intelectuais e acompanha o cabo-verdiano no nascimento e na morte. A morna é expressão que nos une aos nossos ancestrais africanos e europeus e é a expressão maior da criação da primeira civilização crioula do mundo: a nossa, a cabo-verdiana. Consagrar a morna como património da Humanidade é plasmar a alma cabo-verdiana na alma da Humanidade”, defende Abraão Vicente.

Candidatura aplaudida no Luxemburgo

No Grão-Ducado a candidatura está também a ser acompanhada pela comunidade cabo-verdiana, que aplaude a iniciativa do Governo.

“A iniciativa do Estado de Cabo Verde é de louvar. Os cabo-verdianos identificam-se muito com a morna, porque ela sempre fala da alma cabo-verdiana: fala do amor, da tristeza, da partida e recorda também quem fica. É dos elementos que mais identificam o cabo-verdiano, quer no país, quer na diáspora. Dada a sua abrangência é de preservar este legado para as gerações vindouras”, diz o embaixador do arquipélago no Luxemburgo, Carlos Semedo.

Entre os embaixadores da morna nos quatro cantos do mundo, contam-se também músicos cabo-verdianos residentes no Grão-Ducado. “Felizmente, no Luxemburgo temos vários artistas que semanalmente interpretam a nossa morna. E esta candidatura é também uma homenagem justa para eles”, reconhece Carlos Semedo.

“Cesária Évora foi a nossa porta-bandeira”

Djamilo Gomes, um dos músicos cabo-verdianos mais conhecidos no Luxemburgo, dá concertos todos os fins-de-semana, sempre com a morna presente. “Temos diferentes estilos musicais, mas a morna destacou-se muito mais e todos nós cantamos, tocamos e sentimos a morna. É a nossa identidade e, onde quer que eu toque, ela tem de estar presente”, confessa Djamilo Gomes, lembrando o papel da diva dos pés descalços na internacionalização da morna.

“Cesária Évora foi a nossa porta-bandeira. Mais do que ninguém ela adorava cantar morna que, para mim, é o mais belo estilo musical do mundo. Quando ouço, por exemplo, M’cria ser poeta, de Paulino Vieira, esta música toca-me profundamente”, acrescenta Djamilo, que já foi convidado a tocar ao lado de artistas como Bius ou Constantino Cardoso.

Em 1992, Bana, o "Rei da Morna", foi homenageado na sala da Aula Magna, em Lisboa, pelos seus 50 anos de carreira.
Em 1992, Bana, o "Rei da Morna", foi homenageado na sala da Aula Magna, em Lisboa, pelos seus 50 anos de carreira.
Foto de arquivo: Lusa

“Já há quem reclame quando se toca morna”

Ney partilha o apelido de Cesária, de quem chegou a abrir concertos. Nascido na Ribeira da Torre (ilha de Santo Antão) e residente no Luxemburgo, Ney Évora é atualmente um dos mais conhecidos violinistas cabo-verdianos. Entre os cinco CD editados e os frequentes concertos com amigos, a morna tem um lugar especial.

“Para mim é dos melhores patrimónios que Cabo Verde tem. Eu toco por prazer e por mim só tocava morna”, diz ao Contacto o músico que gravou, por exemplo, “Memória dos Veteranos das Ilhas” (2011), uma seleção das grandes músicas cabo-verdianas celebrizadas por Bana, Cesária Évora, Djuzinha, Manuel d’Novas ou Ildo Lobo.

Mas Ney, ou “rapazinho”, como lhe chamava o “rei da morna”, Bana, nos concertos na Holanda, está preocupado com o futuro da morna. “Agora, quando se toca a morna numa festa, num café ou restaurante já há pessoas que começam a reclamar. Não vai morrer, mas está a perder adeptos”, lamenta.

Já para o ministro Abraão Vicente, “a morna não precisa do lugar eterno de música da moda. O seu lugar é o presente (...) e o seu futuro é brilhante, absolutamente brilhante”, conclui.

Depois da morna, Cabo Verde já prepara a candidatura à UNESCO do campo de concentração do Tarrafal.


Notícias relacionadas

O ministro da Cultura de Cabo Verde entregou hoje, na UNESCO, em Paris, a candidatura da morna a Património Imaterial da Humanidade e disse que o género musical tem "todas as hipóteses" de ser classificado.
O guitarrista cabo-verdiano Armando Tito