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"Caminhos Magnétykos". Um futuro que ninguém deseja
Opinião Cultura 1 3 min. 25.09.2022
Crítica de cinema

"Caminhos Magnétykos". Um futuro que ninguém deseja

Crítica de cinema

"Caminhos Magnétykos". Um futuro que ninguém deseja

Foto: DR
Opinião Cultura 1 3 min. 25.09.2022
Crítica de cinema

"Caminhos Magnétykos". Um futuro que ninguém deseja

Raúl REIS
Raúl REIS
Filme conta a história de Raymond, um fotógrafo e autor de banda desenhada que vive em Portugal desde o dia 26 de abril de 1974.

No tempo em que a ação se desenrola, Portugal está sob um regime autoritário, com drones que controlam todos os passos e ações dos cidadãos, e onde seitas religioso/mediúnicas e atentados terroristas pululam no dia-a-dia.

Tudo começa num casamento. Raymond não se confirma que a sua filha Catarina case com o rico, e politicamente comprometido, Damião Vaz. Raymond deixou avançar o enlace porque o noivo era rico, mas rapidamente se arrepende e tenta esquecer a sua cobardia no álcool.

Raymond vagueia pelas ruas de Lisboa para viver estranhas e perigosas aventuras num ambiente futurista no qual a ditadura nacionalisto-fascista é uma realidade.

Rodado antes da pandemia, o filme parece premonitório quando mostra os recolheres obrigatórios e os drones que mandam as pessoas para casa. Mas "Caminhos Magnétykos" é ainda mais profético no que respeita às questões políticas e sociais que Pêra revela de forma caricatural, mas com inteligência e humor ímpares.

Talvez seja preciso ter vivido os anos 70 em Portugal para acompanhar a ironia permanente, mas nem sequer é obrigatório seguir a política lusitana atentamente para recordar quem disse esta ou aquela frase que o ditador repete na televisão oficial (e única que os portugueses têm o direito de ver).

O protagonista Dominique Pinon (que até os menos cinéfilos reconhecerão de "Amélie Poulain") demonstra uma incrível capacidade de mostrar emoções sem falar e de cambalear como poucos bêbedos são capazes de o fazer. O ator francês até consegue falar português com pinta e fazer-nos rir ou preocupar-nos, a seu bel-prazer, nos momentos em que não sabemos bem como reagir.

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Porque "Caminhos Magnétykos" é um carrossel de dúvidas: enquanto uma parte da plateia ri, a outra inquieta-se e uma terceira pergunta-se o que está ali a fazer. Foi assim na estreia luxemburguesa do filme de Edgar Pêra, em Diekirch, com pessoas a rirem enquanto outras se preocupavam com a sorte de Raymond.

Mas Pinon não é o único grande ator desta obra. A lista de vedetas portuguesas é vasta: Alba Baptista, Paulo Pires, Albano Jerónimo ou António Durães, já para não falar do brasileiro Ney Matogrosso que, além de cantar, encarna um líder revolucionário-charlatão-médium que ficará na memória do público.

Alba Baptista, ainda antes de ser celebrizada pela Netflix, é uma deliciosa noiva que só precisa de rir e gritar, enquanto o igualmente célebre Albano Jerónimo assina um momento legendário na pele do capitão Spínola, com um ar entre o tarantinesco e o nazi dos filmes dos anos 60.

Mas o meu coup de foudre aconteceu com António Durães que – reconheço e me penitencio – não reconheci! O ator interpreta um primeiro-ministro viscoso, lambido, maléfico e improvável. A anormalidade desta personagem reflete muitos aspetos de "Caminhos Magnétykos", um filme que mistura poesia, filosofia e curiosas metáforas visuais.

O estilo de Edgar Pêra pode aborrecer ou cansar ao espetador mais desavisado, mas surpreenderá quem aceite a originalidade e se deixe levar na viagem dos sentidos e da mente que o realizador português propõe.

Pêra abusa das luzes, dos azuis, vermelhos e verdes fortes e das sobreposições que são a marca visual do filme, e que a partir de um certo momento se tornam fisicamente cansativas. A câmara sempre centrada nas personagens é importante para acentuar a narrativa, mas para quem se senta sempre na primeira fila (como eu) a visão dos pelos do nariz dos atores pode tornar-se cansativa...

"Caminhos Magnétykos" marca o regresso do Cineclube Português do Luxemburgo, uma iniciativa que promete, nos próximos meses, "Sombra" de Bruno Gascon, "Alis Ubbo" de Paulo Abreu ou "O Último Banho" de David Bonneville, entre muitas outras obras recentes do cinema português.

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