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Camané. "Para mim, o fado evolui de dentro para fora"
Cultura 10 min. 09.10.2020

Camané. "Para mim, o fado evolui de dentro para fora"

Camané. "Para mim, o fado evolui de dentro para fora"

Foto: J. Rodrigues
Cultura 10 min. 09.10.2020

Camané. "Para mim, o fado evolui de dentro para fora"

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
O fadista atua no próximo domingo, dia 11, na Philharmonie, com convidados especiais.

 Ano e meio depois de ter passado pelo Luxemburgo, Camané volta ao país para um concerto na Philharmonie, no domingo. Integrado inicialmente na programação do Festival Atlântico, o espetáculo marca o seu regresso àquele espaço da capital ao fim de um hiato de 10 anos. Por isso, este será um concerto para revisitar a sua extensa carreira e alguns dos temas mais marcantes, adianta em entrevista ao Contacto, que contará com o pianista Mário Laginha e a fadista Ana Sofia Varela entre os convidados especiais.

O seu disco com o pianista Mário Laginha, “Aqui está-se sossegado”, está nomeado como “Melhor Álbum de Raízes” em língua portuguesa para os Grammy Latinos. Que significado tem esta nomeação?

Fiquei muito contente. É um disco que fizemos com imensa calma, e muito sossego. Começámos por fazer os concertos ao vivo e depois decidimos fazer o disco e gravámo-lo nas calmas, no estúdio, em takes. Depois escolhemos as melhores versões do que gravámos. Portanto, eu e o Mário ficámos muito contentes por esta nomeação. Já ganhámos alguns prémios em Portugal, como os prémios Play, mas não estávamos à espera desta nomeação.

Como foi trabalhar os fados ao som do piano? Como é que se desenrolou esse processo?

O processo foi trazer o piano para o fado. A ideia não foi fazer um disco de fusão entre fado e jazz. Conseguimos fazer um disco de fado ao piano. Fomos buscar algum repertório meu antigo, mais tradicional, também fomos buscar alguns temas novos que o Mário compôs e, para além disso, tocámos dois temas da Amália no disco, porque eu nunca cantei temas da Amália, mas também por serem temas que ficam muito bem no piano, porque foram compostos ao piano, especialmente os do Alain Oulman: o ’Com que Voz’ e o ’Abandono’. E tocámos muitos fados tradicionais no disco. O Mário fez um trabalho fantástico de ouvir muita guitarra portuguesa, viola, músicos que normalmente tocam comigo, como o Carlos Manuel Proença ou o José Manuel Neto. Então ele conseguiu entrar nesta música de uma forma incrível. Mas nós já temos uma relação de trabalho há muitos anos. De vez em quando há um arranjo para uma orquestra que eu preciso e o Mário faz, há temas antigos que o Mário fez para mim e que também fazem parte de uma relação de trabalho que, ao longo dos anos, se vem aproximando cada vez mais,

Esse disco “Aqui está-se sossegado” tem sido apresentado ao vivo, mas não é esse o espetáculo que traz ao Luxemburgo no próximo domingo. Que espetáculo é esse?

É um concerto com o meu repertório mais representativo de 30 anos de percurso, em que o Mário Laginha participa como convidado, em que participam os músicos que me acompanham há vinte e tal anos. E é um espetáculo que, no fundo, é um apanhado dos temas mais representativos da minha carreira, onde irão estar alguns temas que estão neste disco e outros de discos meus mais antigos também.

Este concerto realiza-se cerca de um ano depois da sua última passagem pelo país, desta feita integrado na programação de um festival lusófono. Vai-se notar no seu concerto, através dos seu repertório e das suas experiências com outros músicos convidados, como o Mário Laginha, um certo abraço do fado a outros géneros musicais?

Nunca me preocupei muito com isso. O fado é uma música diferente, distingue-se por isso. Para mim, nunca fez muito sentido aquela evolução do fado que transforma o fado em algo próximo das outras músicas. Acho que uma das coisas que as músicas têm de bom é serem diferentes umas das outras, o blues tem uma sonoridade, o fado tem outra, o tango e o flamenco têm outra. E isso é importante. Para mim, o fado evolui de dentro para fora. São as pessoas do fado que conseguem fazê-lo evoluir, mantendo as características que fazem parte dessa música. A coisa mais importante do fado é ser uma música diferente, por isso é que se chama fado, não se chama rock, pop ou folclore. É fado. E o fado, embora seja moderno, é antigo também, tem uma sonoridade. E vamos ter outra uma fadista convidada no espetáculo, que é a Ana Sofia Varela. Vai ser um espetáculo de fado que acho que vai ser muito bom.

Mas, sem abdicar do fado e da sua essência, o Camané tem feito pontes com outros géneros musicais, até com a eletrónica, como no recente disco do DJ e produtor português Stereossauro, “Bairro da Ponte”. Estava à espera que a eletrónica casasse tão bem com o fado?

Aqui são casos pontuais, são convites que me fazem até mesmo pela minha forma de cantar, como o que aconteceu com os Humanos, com o Pedro Abrunhosa, e muitos outros músicos portugueses, desde o Sérgio Godinho ao José Mário Branco. Foram pessoas que me convidaram para participar nos seus projetos, mas aí foi porque eu tenho esta forma de cantar que é diferente. Mas são participações pontuais, em que eu me colo a outro estilo musical. Só que isso não é o meu percurso como fadista, são apenas pequenas participações que me pedem para fazer, para eu contribuir com a minha voz. No caso do Stereossauro é música eletrónica, no caso do Pedro Abrunhosa foi uma canção mais hip-hop, nos Humanos foram canções antigas do António Variações, que ele nunca editou. O projeto dos Humanos consistiu em três concertos e um disco, não houve mais nada.

Já lhe aconteceu por causa desses convites esporádicos de artistas, que têm um público mais jovem, nem sempre tão familiarizado com o fado, esse público passar a conhecer e a interessar-se pela sua obra a partir dessas colaborações?

Sim. Especialmente com os Humanos aconteceu muito. Muita gente mais nova que passou a ouvir a minha música começou por me ouvir nos Humanos. Foi um processo que até me assustou um bocadinho, na altura, mas depois o resultado foi muito bom nos anos a seguir.

Por que é que o assustou?

Foi um bocadinho assustador porque os temas eram muito fora daquilo [que cantava] e à vezes nos meus concertos de fado pediam-me para cantar uma ou outra canção dessas, que eu só cantei quando foi com os Humanos. Ao princípio assustou um pouco, mas as pessoas depois não deixaram de ouvir a minha música, antes pelo contrário.

Este é um ano atípico para a cultura em todo o mundo, por causa da pandemia. Mesmo assim o Camané tem feito alguns espetáculos. Como têm sido os seus concertos?

O público está com muita vontade de cultura, mas existe algum receio, claro, apesar de haver cuidados nas salas. Este mês tive um concerto em Coimbra, em que a sala era uma sala para 1.200 pessoas e teve de ser dividida, só puderam estar 600, para estarem com distância, além da máscara e de todos os cuidados – as pessoas foram levadas aos lugares. Existem muitos cuidados, as salas são desinfetadas antes e depois dos concertos, há uma série de procedimentos e as pessoas têm essa segurança. Em Almada, a sala estava esgotada desde março e em vez de fazer um concerto fizemos dois: um no sábado à noite e o outro no domingo, às 16h. Em Santa Maria da Feira a mesma coisa. Tem havido este tipo de cuidado. Percebe-se que as pessoas têm medo, mas vão e estão a ir cada vez mais. Claro que são menos pessoas porque as salas esgotam mais rapidamente, uma vez que não pode estar tanta gente junta. Mas acho que aos poucos, principalmente em teatros, as coisas estão a acontecer, com muito cuidado e com todas as regras da DGS.

Atuou no cartaz da Festa do Avante deste ano em torno da qual houve uma grande polémica em Portugal, por causa da pandemia. Para alguns artistas a atuação no evento significou o seu regresso ao palco em meses e outros referiram que seria um reinício de reabertura da cultura em alguns aspetos. Para si o que é que significou?

Fizeram-me o convite, eu já tinha atuado uma ou duas vezes. Não é por questões políticas que eu atuo na Festa do Avante, para mim é um festival como os outros – não tenho relação política com partidos. Mas a Festa do Avante foi um exemplo de que é possível. Apesar de toda a polémica que foi criada, a Festa do Avante provou que se podiam fazer espetáculos com todos esses cuidados. Enquanto houve uma série de eventos perigosíssimos antes e depois da Festa do Avante, ela foi exemplo da qualidade, do cuidado, e serviu para provar que é possível haver espetáculos com cuidado. Agora, houve um festival de fado, onde normalmente estão 4.000 pessoas e só puderam estar 1.500, que é o Caixa Alfama, em Lisboa, e que também teve esses cuidados todos. É outro exemplo de como é possível. Na altura em que fiz a Festa do Avante, no dia seguinte cantei na quinta das Lágrimas, em Coimbra, para 900 pessoas e em que estas também estavam todas afastadas. É um espaço enorme, como é a Festa do Avante, e o máximo que a DGS permitia eram 900 pessoas afastadas. Mas depois houve eventos que aconteceram em que não houve cuidados nenhuns e aí ninguém disse nada.

Também vai participar num festival em dezembro, com o Mário Laginha. Ainda que seja por força das circunstâncias, os artistas portugueses estão em primeiro destaque na agenda dos concertos e festivais. Acha que isso pode trazer benefícios para o futuro da música portuguesa?

Sim, é possível. Hoje em dia, claro que por força das circunstâncias, há mais músicos portugueses a atuar, mas são ainda muito poucos. Isto foi um arranque, que está no início, é preciso muito mais, porque realmente há músicos, artistas, técnicos, pessoas ligadas ao teatro e ao espetáculo que estão a passar por grandes dificuldades e isso está a acontecer no mundo inteiro. E pode haver um retrocesso, não sabemos. Temos de viver um dia de cada vez, perceber como as coisas estão a funcionar, se não vai agravar nada. Na verdade, no setor cultural não têm havido surtos, apesar de ser um dos mais desprotegidos e mais afetados neste processo todo. Mas, claro que as coisas podem mudar. Houve concertos que eu tinha marcado até ao final do ano que foram cancelados antes desta nova fase, mas alguns foram cancelados agora porque existem dificuldades na mesma. Temos de esperar e ver. As coisas realmente estão a acontecer e estão a acontecer porque há uma vontade enorme do público e dos artistas de estarem no palco. O que faz sentido é que no futuro tudo volte a ser como era.

É a quinta vez que vem ao Luxemburgo. Quem é que assiste mais aos seus concertos? São os portugueses, os luxemburgueses, os lusodescendentes?

Em alguns países, como os do norte da Europa, o público é maioritariamente desses países, não são tanto emigrantes, nem lusodescendentes, mas no Luxemburgo é metade, metade. É muito engraçado, porque existem muitos emigrantes e lusodescendentes que vão assistir aos meus concertos, juntamente com o público luxemburguês. Há uns anos fiz um concerto em que a maior parte eram portugueses, mas quando atuo na cidade do Luxemburgo, aí é normalmente metade, metade.

Sei que gosta da arquitetura da capital. Tem boas memórias das suas passagens pelo país?

Especialmente da cidade do Luxemburgo, gosto imenso da arquitetura, da cidade em si, é um local muito bonito. Sim, tenho recordações boas do Luxemburgo.

Já está a trabalhar num disco novo ou tem planos para voltar a estúdio em breve?

Sim, estou a trabalhar, já de há uns tempos para cá, na recolha de repertório e algum dele vai fazer parte do próximo disco, que será um disco com um trio de guitarra portuguesa, viola e contrabaixo. Possivelmente, vamos gravar ainda este ano.

Vai ser um álbum de fado tradicional?

Vai ser um disco de fado, que vai ter um pouco de tudo o que tem a ver com a minha forma de estar no fado. 

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