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Burning: Entre fronteiras
O júri do festival de Cannes decidiu não premiar este filme. Enganou-se.

Burning: Entre fronteiras

O júri do festival de Cannes decidiu não premiar este filme. Enganou-se.
Cultura 2 min. 05.09.2018

Burning: Entre fronteiras

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
O coreano Lee Chang-Dong encantou os críticos do festival de Cannes com a sua terceira longa metragem, um filme enigmático, poético e que não é aconselhável a quem gosta de respostas prefabricadas e “happy ends” à moda de Hollywood.

“Burning” é um filme calmo, paciente, e o espetador também tem de o ser para descobrir os segredos que o realizador decide revelar com um conta-gotas. Espetadores impacientes, por favor fiquem em casa!

Para apreciar este filme é necessário imaginar que vamos dar um calmo passeio a pé. Sim, podíamos ir de moto ou de bicicleta, mas o realizador coreano quer que o seu público admire a paisagem em todos os seus ínfimos pormenores e as insondáveis personagens que a cruzam.

É extremamente difícil falar de “Burning” sem revelar a história ou estragar algumas das suas surpresas. Pior: o argumento presta-se a múltiplas interpretações e não pretendo aqui impor a minha a ninguém.

Lee Chang-Dong adaptou um livro japonês do escritor Haruki Murakami, transportando a ação para a Coreia. O cineasta admitiu em entrevistas durante o festival que este género de obra “onde nada acontece” não costuma ser matéria ideal para um filme, mas a vertente misteriosa da história atraiu-o e é por aí que Chang-Dong vai. “O mistério que esta obra esconde é extremamente cinematográfico”, declarou o realizador durante o festival de Cannes, acrescentando que as peças que faltam no puzzle são uma metáfora do mundo de hoje: “vivemos bem aqui, mas sentimos que algo está errado, sem conseguir explicar o que é”.

A ação de “Burning” desenrola-se na fronteira entre as duas Coreias, a zona mais militarizada do planeta. Mas mostra outras fronteiras, tão visíveis como aquela: entre os ricos e os pobres, ou entre o campo e a cidade.

Durante o passeio que é “Burning” vamos descobrir uma tangerina e um gato, ambos invisíveis. Na lista de humanos vamos encontrar-nos com Jongsu, que quer ser escritor, mas sobretudo vamos aprender a desvendar o enigmático Ben. Nem Jongsu nem os espetadores sabem grande coisa sobre este homem, a não ser que ele gosta de festas. Para completar o triângulo amoroso temos Hae-mi. Jongsu sofre por ela, o seu coração arde, mas se calhar não é só daí que vem o título “Burning”. Ou será?

Para os espectadores pacientes e bem-comportados que fiquem na sala de cinema até ao final, a recompensa vale a espera. Mas as dúvidas continuarão bem presentes, enquanto se ouvem os altifalantes a vozear propaganda da Coreia do Norte e as ameaças do presidente dos Estados Unidos…

“Burning”, de Lee Chang-Dong, com Yoo-Ah-in, Steven-Yeun e Jeon-Jong-seo.