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Burlas no mundo da arte que valem milhões
Opinião Cultura 7 min. 11.11.2021
Falsificações

Burlas no mundo da arte que valem milhões

Falsificações

Burlas no mundo da arte que valem milhões

Opinião Cultura 7 min. 11.11.2021
Falsificações

Burlas no mundo da arte que valem milhões

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
O episódio da entrega de quadros falsos à Polícia Judiciária pela mulher do banqueiro João Rendeiro é apenas o mais recente caso numa longa lista de enganos. Em matéria de arte, as histórias sobre a autenticação de quadros e a dificuldade em distinguir o verdadeiro do falso são constantes. Um Caravaggio comprado por 1500 euros num leilão, se autenticado, pode passar a valer 150 milhões. Phillipe Mendes vendeu ao Museu de Houston um Delacroix, que se encontrava perdido, depois de, em conjunto com a historiadora Virginie Cauchi-Fatiga, o ter estudado e autenticado.

 A história indignou a opinião pública e poderá resultar numa burla ao estado de milhões de euros. A mulher de João Rendeiro entregou à Polícia Judiciária obras falsas Em causa está por exemplo o quadro  “Untitled”, de Per Kirkby. O quadro entregue é uma cópia grosseira do quadro fotografado pela PJ, em novembro de 2010, em casa do banqueiro que se encontra em parte incerta.

Mas há muitos relatos de falsificações de obras de arte na história portuguesa. É o caso de uma obra atribuída a Rafael que foi encontrada no Mosteiro de Santa Maria de Refóios do Lima. Um caso carregado de exemplos rocambolescos.

Em tempos de Camilo Castelo Branco, um dos seus amigos e correspondentes, Tomás Mendes Norton (1839-1920), foi viver para uma aldeia, perto de Ponte de Lima, no distrito de Viana do Castelo, no Alto Minho. Senhor de um vasto património em terras e lavoura, comprou o Mosteiro de Santa Maria de Refóios do Lima, que fora da Ordem de Santo Agostinho. Formado em Matemática pela Universidade de Coimbra, decidiu pôr a sua formação científica, incluindo o rigor do método, ao serviço de uma visão romântica. Isto porque se convenceu de que o arquitecto daquele complexo conventual tinha sido nada mais, nada menos do que Donato di Angelo del Pasciuccio, mais conhecido como o Bramante (1444-1514), um dos mais célebres arquitectos do Vaticano. Quanto às pinturas ali descobertas – um óleo representando a Última Ceia, outro a Virgem com o Menino Jesus, além de painéis de azulejos – , atribuiu-as ao grande Rafael, cujas relações com Bramante eram conhecidas (1483-1520). 

A sua entrega ao estudo e à investigação, para demonstrar essas duas atribuições foi total e absoluta. O seu livro, o único que escreveu em toda a sua vida, consumiu tudo e todos. Por isso, os seus campos foram deixados ao abandono e a lavoura desprezada. Só lhe importava a demonstração da fantástica descoberta! Por fim, o seu livro lá foi publicado em Lisboa, pela Imprensa Nacional, em 1888, em tradução francesa de Louis Cardeman Capdeville. Intitulou-se Études sur les oeuvres d’art de Raphael Sanzio d’Urbino au Monastère de Refojos de Lima. A sua paixão por Rafael levou-o a escrever que, na colecção de Refoios, o que se fazia sentir “de natural, de verdade, de simetria, de doçura, de harmonia e de perfeição eram tudo atributos” do grande mestre da arte romana do Renascimento (p. 36).

E como teriam ido parar pinturas de um tal quilate às mãos dos cónegos de Refóios? Sabendo que o banqueiro Chigi, estimado pelos papas Júlio II e Leão X, adquirira várias pinturas de Rafael, não teriam as mesmas telas acompanhado a viagem de regresso da comitiva do embaixador Tristão da Cunha, mandada a Roma por D. Manuel I?  Tratava-se de uma probabilidade a que Tomás Mendes Norton atribuía um certo valor, dada a qualidade das pinturas de Refóios. Só lhe faltava ter a fortuna de encontrar um qualquer documento que pudesse provar uma ligação entre aquele banqueiro e os ditos cónegos. Ou teria o próprio Rafael chegado a vir a Portugal nos finais de 1512 e aqui permanecido até 1514? A resposta estaria sempre nas pinturas e na sua presumida altíssima qualidade só passível de ser alcançada pelo próprio mestre (Études sur les oeuvres d’art de Raphael, pp. 40-41).

Os trabalhos preparatórios do livro de Tomás Mendes Norton arrastaram-se durante anos. A sua anterior troca de correspondência com Camilo, ao longo da década de 1880, revela que, além de trocarem entre si informações sobre o estado de saúde, os dois amigos se preocupavam com todas as provas que pudessem demonstrar a autenticidade dos mesmos. D. Jorge da Costa, o famoso Cardeal de Alpedrinha, amigo de Júlio II, era outra hipótese de ter sido ele o mediador entre os cónegos de Refóios e Rafael. A este propósito, Camilo reconhecia que o amigo seguia todas as pistas e, mesmo que muitos continuassem a duvidar de uma tal atribuição, isso pouco importava, pois o livro ficaria “recheado de conhecimentos e de erudição histórica” (Luís Norton, Doze cartas inéditas de Camilo Castelo Branco, Portugália, 1964, p. 42).     

A questão de serem ou não de Rafael as telas de Refóios suscitou invejas e rancores nos jornais, precisamente porque estava em jogo muito dinheiro. Camilo não duvidava e aconselhava o amigo não só a prosseguir com os seus trabalhos de investigação erudita, mas também a ter do seu lado a opinião de alguns artistas que reiterassem o seu ponto de vista. Mas quais poderiam ser os artistas dispostos a sair em defesa da atribuição de Norton? Os do Grupo do Leão, que se disfarçavam atrás de uma espécie de realismo para satisfazerem o gosto dos burgueses enriquecidos de Lisboa, não passavam de aprendizes do 2.º ano das Beaux-Arts de Paris (idem, p. 45). Ramalho Ortigão também não merecia a aprovação de Camilo pois, apesar de ter bom senso artístico, as suas opiniões eram de um diletantismo insuportável (idem, p. 57). 

Camilo aconselhava o amigo de que seria melhor cooptar a autoridade do arquitecto e arqueólogo Joaquim Possidónio da Silva, bem como do professor de pintura do Porto, Vieira Resende. Para evitar que lhe impugnassem o livro, era bom que Norton se precavesse, enquanto era tempo, pois o meio iria ser, com certeza, hostil às suas teses. Segundo o desabafo de Camilo, “aqui reina, com um absolutismo infame, a canalha ignorante e a canalhice da inveja, nos inteligentes” (idem, p. 45). Ou, numa outra formulação, o possuidor dos quadros teria de sofrer “a inveja dos imperitos, e o desdém dos entendidos que não foram ouvidos para decidir em primeira instância” (idem, p. 57). Enfim, tratava-se de uma “guerra feita pelos indígenas”, na certeza de que um livro escrito em francês chegaria a outros públicos que, com certeza, saberiam apreciá-lo de uma outra maneira, tirando dele o maior proveito (idem, p. 59).    

Camilo confidenciava, repetidamente, ao amigo que se inclinava muito mais a aceitar a sua tese acerca da autenticidade das pinturas de Rafael. Descartava, assim, as acusações que circulavam pelos jornais de que Tomás Mendes Norton se tinha deixado alucinar “com o seu tesouro, tomando como prata de lei a mera casquinha” (idem, p. 46). As fileiras cerravam-se e um amigo comum, Vieira de Castro, não deixava de ser lembrado por Camilo como elo da rede que poderia sair em defesa de Norton. Do outro lado, estavam “alguns virotões dardejados por localistas”, cujos conhecimentos de crítica e de história de arte se limitavam: ao poemeto de Garrett, O Retrato de Vénus que incluía o Ensaio sobre a História da Pintura (1821); ao catálogo da biblioteca do Cardeal Saraiva, Fr. Francisco de S. Luís; e à obra do conde alemão Atanazy Raczyński, Les Arts em Portugal (1846). Fora, aliás, neste contexto de ignorância que o Marquês de Sousa e Holstein julgou ter existido um pintor chamado Ovia – um erro crasso sobre o qual Camilo já se pronunciara numa das suas compilações (Narcóticos, 1882).

Enfim, nas cartas de Camilo, sente-se uma oscilação entre dois critérios de prova. Por um lado, encontravam-se os apelos à amizade, às sociabilidades comuns e às autoridades com créditos firmados, que pudessem certificar a autenticidade da tese de Norton. Por outro lado, estava a argumentação de Norton, que Camilo recebia em extractos e a que atribuía “uma força persuasiva que excede a das induções das comparações, as hipóteses das probabilidades e as derivações históricas” (idem, p. 46). A esta mesma luz, Camilo permitia-se interrogar o amigo e fazer de advogado do diabo, abanando as suas certezas e insinuando que a sua visão poderia, até, ser produto de uma alucinação. É que, se Rafael fora admirado dos cónegos de Refóios, por que razão não o teria sido de D. Manuel, a ponto de se fazer representar nos Jerónimos? 

 

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