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Broken City: O presidente da Câmara
Caro amigo, eu é que sou o presidente da Câmara!

Broken City: O presidente da Câmara

Caro amigo, eu é que sou o presidente da Câmara!
Cultura 4 min. 10.09.2013

Broken City: O presidente da Câmara

"Broken City", de Allen Hughes, com Mark Wahlberg, Russel Crowe, Catherine Zeta-Jones, Jeffrey Wright, Barry Pepper, Alona Tal, Natalie Martinez e Kyle Chandler.

Após ser expulso da polícia por ter supostamente assassinado um criminoso, Billy Taggart (Mark Wahlberg) encontra-se sete anos depois envolvido num romance com uma actriz de cinema em ascensão, enquanto num manhoso escritório de Nova Iorque como detective particular.

Entretanto, o presidente da câmara, Hostetler (Russel Crowe), volta a entrar em contacto com o ex-polícia porque precisa de alguém para seguir a esposa, Cathleen (Catherine Zeta-Jones), porque está convencido de que esta o trai.

À medida que a acção avança, Taggart acaba por se esbarrar com o passado, que nunca deixou de persegui-lo, e descobre que nem tudo é o que parece quando se lida com os poderosos de uma cidade como Nova Iorque.

O argumento do estreante Brian Tucker, passeia por diversas narrativas, mas nunca se distancia do protagonista, e faz justiça ao título da película, "Broken City".

Nas andanças de Taggart, descobre-se uma Nova Iorque corrupta, de culpas que morrem solteiras, cheia de diálogos em que muito se fala para nada dizer, em verdadeiros combates verbais entre personagens. O cinismo está presente na voz da personagem de Russel Crowe, um político para quem os meios justificam os fins, disposto a tudo para que esses fins sejam a sua permanência no poder.

Paralelamente, "Broken City" vai revelando o passado sombrio e escondido de Taggart, mas sem nunca sabermos realmente o que ocorreu na cena do crime. Esse é um momento belo e inebriante, em que o público sabe que armas foram apontadas mas nunca fica claro o que na realidade se sucedeu.

"Broken City" mostra que ninguém está imune à corrupção da cidade. Das mais complexas tramas políticas ao caso da jovem assistente do investigador que faz uso do telefone do escritório para fazer chamadas para o irmão sem que o chefe saiba. Esta é uma gota no vasto oceano de podridão, que representa bem que tudo e todos estão à mercê da cidade corrupta.

Lamenta-se uma quebra no ritmo e no suspense que, na tentativa de criar uma maior amplitude para os seus personagens, acaba por prejudicar a narrativa como um todo. E depois há incoerências e pontas soltas.

Numa cena em que Taggart visita os pais da sua namorada não há razão que explique o que o protagonista faz ali. Ao ser questionado pelo pai sobre a sua presença no local, o detective dá uma resposta evasiva da qual nem mesmo ele parece estar convencido.

E o que dizer da mudança abrupta de rumo do mesmo Taggart, que odeia o responsável pela polícia e favorece o presidente, mas de repente já trabalha lado a lado com o primeiro?

A fotografia de Ben Seresin, que investe em muitas sombras e nos efeitos do lusco-fusco, revela uma cidade que vive mergulhada nas suas vigarices. Aliada à câmara que captura muitos plano de detalhe, esta opção de sombras ajuda a manter um clima de eterno suspense.

O espectador está permanentemente de sobreaviso, à espera de uma reviravolta ou de uma conversa que não deveríamos estar a ouvir, como aquelas que são captadas atrás de portas ou à esquina de uma parede.

Sabiamente evitando grandes excessos, o director Allen Hughes prefere concentrar-se mais nas luzes de uma perseguição de automóveis do que nos malabarismos que os motoristas poderiam fazer. Os tiros ouvidos são sempre ruídos secos que, juntamente com uma banda sonora subtil, completam o clima de imersão necessário neste género de cinema.

As actuações fortes ficam por conta apenas de um compenetrado Russel Crowe e por Jeffrey Wright. Já outros actores limitam-se a desfilar pela obra fora sem acrescentar nada, mas – prontos! – também não a prejudicam.

É o caso da plastificada Zeta-Jones, de Kyle Chandler ou Barry Pepper. Mark Wahlberg, embora empregue as sus conhecidas mímicas, acaba por funcionar bem num clima que precisa de um protagonista forte e não exige muita expressividade.

Apesar de previsível e com alguns defeitos de elenco, em Broken City é possível encontrar todos os grandes elementos do "film noir"; de um escritório de detective particular numa área suja da cidade, a conspirações e vinganças cometidas pelos cantos e sussurradas ao telefone. "Broken City", ao contrário das personagens que retrata, é um filme que cumpre o que promete. 

"Broken City", de Allen Hughes, com Mark Wahlberg, Russel Crowe, Catherine Zeta-Jones, Jeffrey Wright, Barry Pepper, Alona Tal, Natalie Martinez e Kyle Chandler. 

Raúl Reis

Publicado no CONTACTO em 24.04.2013