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Bowling: Oliveira do hospital
Manoel de Oliveira, volta, estás perdoado!

Bowling: Oliveira do hospital

Manoel de Oliveira, volta, estás perdoado!
Cultura 3 min. 09.04.2014

Bowling: Oliveira do hospital

Se o mestre do cinema português, Manoel de Oliveira, pegasse num “fait divers” como o que inspirou o filme de Marie-Castille Mention-Schaar, o filme teria sido muito mais interessante. Acredite.

Estou a falar consigo, que não gosta do cinema de Oliveira porque o acha aborrecido. Acredite. Tinha sido mais bonito de ver do que esta tentativa falhada da senhora Mention-Schaar.

A história de “Bowling” passa-se em Carhaix, no coração da Bretanha, mais propriamente numa pequena maternidade. O problema desse hospital é que há poucas grávidas e poucos partos.

O enredo do filme faz cruzar quatro mulheres que trabalham no hospital e no salão de “bowling” lá da terra.

No centro do filme está a batalha pela manutenção da maternidade aberta. Um tema que tinha tudo para interessar o público francês – e europeu – nestes tempos de crise em que os planos de despedimento e de restruturação assustam todos os assalariados e em que os planos governamentais fecham hospitais e centros de saúde teoricamente redundantes.

Os criadores de “Bowling” pretendiam fazer uma obra de sátira social, talvez à moda de Ken Loach ou como Peter Cattaneo no seu belíssimo “The Full Monty”.

Infelizmente, esta versão francesa tem falta de inspiração e de subtileza para se poder comparar às obras britânicas que já fazem esse trabalho desde os anos 80.

A realizadora assina uma comédia demasiado “nhonhó” (isto diz-se em português?) e acaba por passar ao lado do assunto central, que é o combate de quatro mulheres para salvar a maternidade da cidade de Carhaix.

Como disse um crítico francês, “se eu fosse bretão ficava um bocado encavacado ao ver este filme”. Eu também fiquei e não tenho nada a ver com o assunto.

Mas faça-se um pouco de História.

Em Março de 2008, a população de Carhaix manifesta-se nas ruas da cidade para tentar evitar que os serviços da maternidade local sejam transferidos para Brest. Toda a cidade se mobiliza durante meses entre abaixo-assinados, manifestações e mesmo algumas acções menos ortodoxas que acabaram por abrir os telejornais. A “guerra” durou oito meses, terminando quando a ministra da Saúde, Roselyne Bachelot, assinou um acordo que estabelecia uma espécie de partilha de responsabilidades entre Brest e Carthaix.

De que forma este combate popular aparece no filme? Aparece mas sobretudo sob a forma de caricaturas, de partos burlescos num autocarro ou numa quintarola, e num debate sobre as vantagens do leite materno.

A realizadora concentra-se em quatro personagens que podiam ter sido excelentes até porque são interpretadas por boas actrizes: Catherine (Catherine Frot), Louise (Laurence Arné), Firmine (Firmine Richard) e Mathilde (Mathilde Seignier).

A realizadora aposta em truques de base para criar simpatia pelas personagens e os estratagemas mais básicos para fazer rir.

As manifestações, que chegaram a ser violentas, são transformadas em passeatas de domingo em que Louise brinca com os CRS como se estivesse no recreio da escola.

Marie-Castille Mention-Schaar também aposta na estratégia “ch’ti”, ou seja, os bretões contra os parisienses e piadas de pronúncia apimentadas com ditados populares locais.

Se Manoel de Oliveira tivesse pegado na história de Carhaix, o filme teria sido provavelmente mais longo, mas não teria evitado a falta de originalidade. E se a história do hospital de Carhaix fosse contada por Oliveira, certamente que o mestre a teria transferido para o Douro ou para uma cidade beirã. As personagens falariam menos, os sotaques não seriam problema e, se calhar, a parisiense até era interpretada por Catherine Deneuve e um dos CRS por John Malkovich.

Certamente o hospital de Oliveira seria diferente do da senhora Marie-Castille Mention-Schaar e nós sairíamos da sala de cinema a pensar em alguma coisa de jeito e não à procura do tempo perdido.

“Bowling”, de Marie-Castille Mention Schaar, com Catherine Frot, Mathilde Seigner, Firmine Richard, Laurence Arné, François Bureloup, Mathias Mlekuz, Geneviève Mnich e Frédéric Noaille.

Raúl Reis