Bowling: Oliveira do hospital
Bowling: Oliveira do hospital
Estou a falar consigo, que não gosta do cinema de Oliveira porque o acha aborrecido. Acredite. Tinha sido mais bonito de ver do que esta tentativa falhada da senhora Mention-Schaar.
A história de “Bowling” passa-se em Carhaix, no coração da Bretanha, mais propriamente numa pequena maternidade. O problema desse hospital é que há poucas grávidas e poucos partos.
O enredo do filme faz cruzar quatro mulheres que trabalham no hospital e no salão de “bowling” lá da terra.
No centro do filme está a batalha pela manutenção da maternidade aberta. Um tema que tinha tudo para interessar o público francês – e europeu – nestes tempos de crise em que os planos de despedimento e de restruturação assustam todos os assalariados e em que os planos governamentais fecham hospitais e centros de saúde teoricamente redundantes.
Os criadores de “Bowling” pretendiam fazer uma obra de sátira social, talvez à moda de Ken Loach ou como Peter Cattaneo no seu belíssimo “The Full Monty”.
Infelizmente, esta versão francesa tem falta de inspiração e de subtileza para se poder comparar às obras britânicas que já fazem esse trabalho desde os anos 80.
A realizadora assina uma comédia demasiado “nhonhó” (isto diz-se em português?) e acaba por passar ao lado do assunto central, que é o combate de quatro mulheres para salvar a maternidade da cidade de Carhaix.
Como disse um crítico francês, “se eu fosse bretão ficava um bocado encavacado ao ver este filme”. Eu também fiquei e não tenho nada a ver com o assunto.
Mas faça-se um pouco de História.
Em Março de 2008, a população de Carhaix manifesta-se nas ruas da cidade para tentar evitar que os serviços da maternidade local sejam transferidos para Brest. Toda a cidade se mobiliza durante meses entre abaixo-assinados, manifestações e mesmo algumas acções menos ortodoxas que acabaram por abrir os telejornais. A “guerra” durou oito meses, terminando quando a ministra da Saúde, Roselyne Bachelot, assinou um acordo que estabelecia uma espécie de partilha de responsabilidades entre Brest e Carthaix.
De que forma este combate popular aparece no filme? Aparece mas sobretudo sob a forma de caricaturas, de partos burlescos num autocarro ou numa quintarola, e num debate sobre as vantagens do leite materno.
A realizadora concentra-se em quatro personagens que podiam ter sido excelentes até porque são interpretadas por boas actrizes: Catherine (Catherine Frot), Louise (Laurence Arné), Firmine (Firmine Richard) e Mathilde (Mathilde Seignier).
A realizadora aposta em truques de base para criar simpatia pelas personagens e os estratagemas mais básicos para fazer rir.
As manifestações, que chegaram a ser violentas, são transformadas em passeatas de domingo em que Louise brinca com os CRS como se estivesse no recreio da escola.
Marie-Castille Mention-Schaar também aposta na estratégia “ch’ti”, ou seja, os bretões contra os parisienses e piadas de pronúncia apimentadas com ditados populares locais.
Se Manoel de Oliveira tivesse pegado na história de Carhaix, o filme teria sido provavelmente mais longo, mas não teria evitado a falta de originalidade. E se a história do hospital de Carhaix fosse contada por Oliveira, certamente que o mestre a teria transferido para o Douro ou para uma cidade beirã. As personagens falariam menos, os sotaques não seriam problema e, se calhar, a parisiense até era interpretada por Catherine Deneuve e um dos CRS por John Malkovich.
Certamente o hospital de Oliveira seria diferente do da senhora Marie-Castille Mention-Schaar e nós sairíamos da sala de cinema a pensar em alguma coisa de jeito e não à procura do tempo perdido.
“Bowling”, de Marie-Castille Mention Schaar, com Catherine Frot, Mathilde Seigner, Firmine Richard, Laurence Arné, François Bureloup, Mathias Mlekuz, Geneviève Mnich e Frédéric Noaille.
Raúl Reis
