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Blood Ties: Brothers in arms
Com um bigode destes Billy Crudup podia ter jogado na equipa do FC Porto dos anos 70

Blood Ties: Brothers in arms

Com um bigode destes Billy Crudup podia ter jogado na equipa do FC Porto dos anos 70
Cultura 3 min. 14.11.2013

Blood Ties: Brothers in arms

Passar pelo festival de cinema de Cannes permite descobrir pérolas que muitas vezes passam discretamente pelas salas do Grão-Ducado. O último filme de Guillaume Canet, "Blood Ties", é um caso curioso de trabalho que atravessou o festival, fora de competição, sem fazer ondas, mas que mereceu honras de Utopolis no Luxemburgo em vez de uma sala esconsa do cinema Utopia.

"Blood Ties" é um duplo sucedâneo: trata-se de uma adaptação de um livro e é também um remake de um filme de Jacques Maillot (2008) e em que Guillaume Canet participou como actor. Canet, agora com a etiqueta de realizador, volta à história escrita por Bruno e Michel Papet. Para a adaptar, pediu ajuda ao brilhante James Gray (realizador de "We Own the Night" ou "Two Lovers").

Chris (Clive Owen) sai da prisão quando o filme começa. Poderia tratar-se de um criminoso como outro qualquer que acaba de cumprir a pena, não fosse o seu irmão, Frank (Billy Crudup), detective da polícia nova-iorquina. Frank tem dificuldades em relacionar-se com o irmão e à medida que a acção avança são reveladas algumas das razões que levaram os irmãos a afastarem-se desde muito jovens.

Chris parece tentar reintegrar-se, mas o seu lado mais violento rapidamente se manifesta. O homem acaba por aceitar "trabalhos" fora da lei e os dois irmãos vão encontrar-se de lados opostos da lei. Paralelamente, tanto Frank como Chris vivem complicadas relações amorosas e inquietam-se pela saúde do pai (James Caan) que acaba de ser operado aos pulmões.

A acção desenrola-se nos anos 70. A magnífica reconstituição da época (locais, carros, roupas, etc.) é uma das maiores virtudes do filme de Canet. Todos os actores parecem saídos de um episódio de “Serpico” ou de um dos grandes filmes da época (a escolha de James Caan para o elenco é um óbvio piscar de olhos àquela década).

A personagem interpretada por Billy Crudup é aquela que mais convence pela extraordinária transformação em polícia dos anos 70 mas também porque o actor consegue dar imensa profundidade à personagem. O protagonista poderia ter sido Clive Owen, mas a interpretação monocórdica que o inglês faz do mau da fita não permite criar uma personagem convincente e que deixe planar dúvidas sobre o carácter de Chris. Um bandido com mais nuances teria contribuído para um filme maus surpreendente e com outra dinâmica.

As personagens principais – onde se incluem as namoradas de Chris e Frank, encarnadas por Mila Kunis e Zoe Saldana – evoluem num mundo de caricaturas. Os gangsters , e mesmo os polícias, são levados aos excesso como num filme B dos anos 70. Alguns deles fazem pensar nos criminosos de Jarmusch, por exemplo em "Ghost Dog". Mas esses excessos também contribuem para o prazer de ver "Blood Ties": o filme de Canet, co-escrito com James Gray, é uma fabulosa viagem ao passado e a uma década inesquecível para o cinema ou para quem descobriu a televisão e o grande ecrã nessa altura.

"Blood Ties" é muito mais que um filme de mafiosos nova-iorquinos e sobre dois irmãos que se desentendem. O nome resume perfeitamente a problemática central da obra: os laços de sangue são fortes e podem colocar em causa os princípios mais enraizados. A relação entre os dois irmãos vai sendo descoberta em flashbacks elegantes e oportunos. A história segue-se com gosto porque há muito para conhecer. Apesar disso, as mais de duas horas de "Blood Ties" poderiam ter sido reduzidas a uns, mais convenientes, 100 minutos. Mas Canet não quis desperdiçar os imensos talentos de que teve a sorte de dispor e, obviamente, não conseguiu deixar nenhum pedaço de filme no chão da sala de montagem.

"Blood Ties" de Guillaume Canet, com Clive Owen, Billy Crudup, James Caan, Mila Kunis, Zoe Saldana, Marion Cotillard, Lili Taylor, Noah Emmerich, John Ventimiglia, Matthias Schoenaerts e Griffin Dunne.

Raúl Reis