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BlacKkKlansman: Preto no branco
Cultura 2 min. 28.09.2018

BlacKkKlansman: Preto no branco

Que achas de nos inscrevermos neste clube? Chama-se Ku Klux Klan…

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BlacKkKlansman: Preto no branco

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
“BlacKkKlansman”, de Spike Lee, com John David Washington, Adam Driver, Alec Baldwin, Laura Harrier, Jasper Pääkkönen e Topher Grace.

Estamos em 1970. Ron é o primeiro polícia de origem africana em Colorado Springs. Promovido a detetive, Ron Stallworth decide infiltrar-se no comité local do Ku Klux Klan inscrevendo-se por telefone e, naturalmente, fazendo passar-se por um branco. Sendo improvável participar nas reuniões sem ser desmascarado, Ron vai convencer o seu colega judeu, Flip Zimmerman, a participar nas reuniões do KKK sempre que seja necessário aparecer de cara descoberta. As coisas correm tão bem que até o líder do Klan começa a simpatizar com Flip...

Entretanto, o risco surge noutra frente de batalha: Ron está apaixonado por uma ativista dos direitos da minoria negra presente na lista dos radicais brancos e que está em perigo. Pode ficar a impressão de que “BlacKkKlansman” é um thriller violentíssimo. Não sendo um filme cómico, esta obra de Spike Lee tem muito humor e momentos absurdos que atenuam a tensão dramática.

Se aceitarmos a ideia de base de que um negro pode infiltrar o Ku Klux Klan com o seu amigo judeu e que algumas das situações são bastante imaginativas, podemos usufruir de um bom momento de cinema que satisfaz, sobretudo porque nem é carne nem é peixe, ou melhor, não é preto nem é branco, tal como as personagens principais e os seus disfarces.

Agora, preparem-se para uma surpresa: “BlacKkKlansman” inspira-se em factos reais. O verdadeiro Ron Stallworth espiou mesmo os membros do Klan e chegou a estar várias vezes em contacto com o líder do movimento. Mais uma vez, a vida é maior do que o cinema e os filmes não inventam nada, regra que se aplica a todos, exceto aquele James Bond na neve – estão a ver qual é? –, pois todos sabemos que ninguém consegue esquiar àquela velocidade pela montanha abaixo com apenas um esqui.

Spike Lee assina um dos seus melhores filmes no século XXI, embora se mostre por vezes demasiado sorumbático. Apesar da tensão permanente e do clima macambúzio imposto pelo realizador, o filme acaba por não ser um drama policial porque as situações são tão absurdas que somos obrigados pelo menos a sorrir.

O realizador – que claramente tem uma missão pedagógica – não deixa de dar lições, abusando nas sequências com discursos e indo até ao exagero de propor excertos do filme “The Birth of a Nation”. Como diria o famoso diácono, “não havia necessidade”, até porque alguns destes momentos abrandam o ritmo do filme e prejudicam a mensagem que Spike Lee torna óbvia do princípio ao fim, mas sobretudo num assomo final.

Além do passado, “BlacKkKlansman” visita também o presente, fazendo paralelo entre slogans dos anos 30 e dos nossos dias, tais como “America first” (diga lá se não faz pensar em nada?...).

Como em todos os trabalhos de Spike Lee, a fotografia é excelente, e os atores são bem dirigidos. Adam Driver e John David Washington formam um duo afinado que – vê-se – trabalhou muito para obter um tal nível de entendimento. “BlacKkKlansman” vem ainda com o certificado de garantia do festival de Cannes onde obteve o Grande Prémio do Júri.

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“BlacKkKlansman”, de Spike Lee, com John David Washington, Adam Driver, Alec Baldwin, Laura Harrier, Jasper Pääkkönen e Topher Grace.


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