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Bilhete. Peçonha de abril
Editorial Cultura 2 min. 11.04.2019

Bilhete. Peçonha de abril

Bilhete. Peçonha de abril

Ilustração: Shutterstock
Editorial Cultura 2 min. 11.04.2019

Bilhete. Peçonha de abril

Gaston CARRE
Gaston CARRE
Mick Jagger vai ser operado. A uma válvula do coração. Ora, se Jagger tem um coração, não passa de um homem, e o rock é uma impostura.

O rock morreu, com certidão de óbito datada: 1 de abril de 2019, quando os Stones anunciam que Mick Jagger vai ser submetido a uma operação ao coração.

Há 50 anos que acreditávamos no rock e nas suas estrelas, e pensávamos que brilhariam para sempre. São de um outro mundo, pensávamos, de um mundo de strass e de jaspe, onde os príncipes andam no arame sem nunca cair, põem pó no nariz sem jamais tossir, e se por acaso a ceifeira da morte lhes chega, é com panache e estilo, por overdose ou harakiri, por sobretensão ou eletrocução, e jamais o chamado tem o mau gosto de reclamar uma extensão quando se estrangula com o cabo da sua guitarra. Ora eis que Jagger está doente do coração, e que vai ser operado! A uma válvula!

Jagger, para a minha geração, era eterno. Um ídolo olímpico, talhado no mármore, que do alto do seu pedestal dava a beijar o seu pé alado a mil adoradoras enlouquecidas. Um ídolo, sim, uma criatura exonerada de tudo o que pesa sobre a humanidade ordinária, o tempo, os impostos, o banho das crianças, o tempo, sobretudo, ao qual um pacto satânico permitia a sua majestade escapar. E eis que o ídolo se faz operar! A uma válvula do coração! Eu nem sequer sabia que ele, Jagger, tinha uma coisa tão trivial, um coração com válvulas, vai-se a ver também tem rins, ou até intestinos, e eis que ele interrompe uma digressão para fazer reparar a sua canalização! É como se o céu se esvaziasse de repente, como se Zeus descesse do Olimpo para ir urinar.

A minha geração assiste em tempo real – live – ao estilhaçar da sua própria mitologia. Porque se Jagger tem uma válvula, não passa de um homem, em suma. Ao nosso desengano, junta-se um sentimento de impostura: ele não disse, o patife, que estava a tratar o seu coração fraquejante, vá-se lá saber se também vigia a sua próstata, brincam a enganar-a-morte, "no future" e toda essa cantilena, e a seguir ao concerto vão fazer análises. Lamentável!

Há alguém que observa tudo isto com ar trocista. Sim, Keith Richards, o velho pirata, o mais flamejante destroço do rock and roll. Viveu tudo, ele, morte e reanimação, devastação seguida de transfusão, perdeu o siso mas continua aí, intacto – ele não tem válvula, nem sequer tem coração, vendeu tudo ao diabo, e quando os outros caírem ele continuará de pé, com a sua guitarra de quatro cordas e o seu riso de velha rameira desdentada, eterno como um fóssil, imortal porque duradouramente stoned.

Nota. No original, o título era "Poison d’avril", jogo de palavras entre "Poisson d’avril" (dia das mentiras) e "poison" (veneno), que se perde na tradução. Optou-se por "peçonha", que significa simultaneamente "veneno" e "malícia".

(Tradução: Paula Telo Alves)