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Bilhete: As alegrias do mau-gosto

Bilhete: As alegrias do mau-gosto

Foto: AFP
Editorial Cultura 2 min. 07.02.2019

Bilhete: As alegrias do mau-gosto

Gaston CARRE
Gaston CARRE
Graças ao canal Arte, posso aqui confessar o meu pecadilho, a minha conduta herética: eu sempre adorei os ABBA.

Esgotada qualquer forma de originalidade, com todas as tentativas de transgressão condenadas ao fracasso, sendo a própria provocação uma figura da norma, a cultura compraz-se no culto do obsoleto e na reciclagem do desclassificado. As velharias tornam-se assim "trendy", as estrelas mortas são de novo acesas, o mau-gosto é moderno e converte-se, sob a insígnia do "vintage", numa forma de "hiperchique".

Domina, nesta cultura de permuta, o princípio das revisões cruzadas: o fotógrafo David Hamilton é desacreditado como pedófilo e o cinema de Antonioni passa por misógino, mas é de bom tom, agora, rever os filmes de Louis de Funès ou a trilogia Sissi, que valem como obras para cinéfilos informados junto de quinquagenários que ontem abanavam a cabeça nos concertos de Motörhead e enchem hoje o bandulho na "Oktoberfest" de Hesperange.

Exemplar neste processo de reabilitação: um documentário recente sobre os Abba no canal de televisão Arte. Sim, o Arte, o árbitro da elegância no domínio cultural, que através desta produção outorga ao grupo sueco a sua distinta caução, arrancando-o à poeira e à brilhantina para lhe conferir a dignidade tardia de uma grande referência. Vou deplorá-lo?

Não, pelo contrário: foi com júbilo retorcido que ouvi, no Arte, sábias análises sobre as harmonias vocais dos quatro vikings do mau-gosto, e com uma alegria vingativa que ouvi um velho 'junkie' da crítica rock afirmar que os Abba, afinal, são "cool". Graças ao Arte, pois, graças ao princípio da permuta, posso aqui confessar o meu pecadilho, a minha conduta herética – denuncio o meu crime como quem sai do armário: eu, que tenho o logo dos Rolling Stones no capot do meu velho carro a diesel, sempre adorei os Abba, na verdade, mas escondia os CD debaixo de uma pilha de "Janes' Addiction".

Mamma Mia: Agnetha e Frida! As suas botas de "drag queen" para a Eurovisão, com os companheiros vestidos de cosmonautas de lantejoulas! Esta foleirada, este decoro – eles nem sequer se drogavam, esses lorpas, e não deixavam os hotéis em cacos! Esses medíocres não provocaram o Waterloo do rock, mas tinham o génio da melodia, os tipos, possuíam a alquimia da harmonia, e se nunca vibrou a ouvir "Fernando" ou "Chiquitita", eu não lhe posso valer.

Durante muito tempo escondi a minha vergonha, arrastando o peso do meu segredo. Porque ouvir Abba, para lá da concessão ao xarope musical e aos sentimentos viscosos, era condescender com a cultura de massas, aceitar o gosto da maioria, ou, pior, aderir ao divertimento, à chamada música de variedades, Sheila ou André Rieu, que vergonha! Hoje em dia, pelo contrário, sou um homem livre, graças ao "aggiornamento" operado pelo Arte, que restaura a minha dignidade enquanto legitima o objeto da minha perversão, e posso dizer alto e bom som: viva o kitsch, Abba-ixo a auto-censura e Thank you for the Music!