Escolha as suas informações

Belle du seigneur: As entranhas de um filme
Hoje, a primeira página do CONTACTO deixou a Natalia de rastos

Belle du seigneur: As entranhas de um filme

Hoje, a primeira página do CONTACTO deixou a Natalia de rastos
Cultura 4 min. 10.09.2013

Belle du seigneur: As entranhas de um filme

"Belle du seigneur", de Glenio Bonder, com Jonathan Rhys-Meyers, Natalia Vodianova, Marianne Faithful, Ed Stoppard e Maria Bonnevie .

Não é todos os dias que posso escrever sobre um filme no qual participei. Sosseguem os mais surpreendidos, a minha participação é menos que mínima, como insignificante figurante.

Graças a amigos ligados a produtoras luxemburguesas, tenho a oportunidade de assistir à rodagem de uma ou outra das muitas películas que se servem do Grão-Ducado como pano de fundo.

"Belle du seigneur" foi filmado no Luxemburgo há cerca de dois anos, tendo utilizado, por exemplo, o belo edifício da praça Rousegaertchen como cenário. Foi nesse espaço que passei mais de 18 horas seguidas, compensadas com umas dezenas de euros e um almoço.

O prazer da figuração não vem nem do ordenado nem dos almoços gratuitos. O encanto de ver criar o filme, de descobrir os seus bastidores, de cruzar a equipa e, por vezes, algumas vedetas internacionais, são as motivações essenciais.

No que respeita a estrelas, o filme que Glenio Bonder realizou no Luxemburgo tinha como atracção principal a presença de Jonathan Rhys-Meyers e Natalia Vodianova. Ou seja, havia interesse para o menino e para a menina.

A cena rodada nesse sábado era um baile em que a personagem de Rhys-Meyers (Solal) está de mau humor. Foi curioso ver como o papel e a realidade se misturaram. O reputado actor estava de muito mau humor, tendo atirado as culpas da repetição de "takes" para cima de toda a gente. Em apenas alguns minutos destrói-se um mito.

Natalia Vodianova acedeu a pedidos de autógrafos dos figurantes e sorriu para as fotos-souvenir, mas pareceu-me menos bela do que nos filmes ou nas passarelas. Afinal, os actores são seres humanos como toda a gente. Que pena.

A acção de "Belle du seigneur" tem lugar na Europa dos anos 30. Um continente que se encontra a ferro e fogo, e no qual nasce um romance entre um diplomata judeu e uma aristocrata protestante e casada.

O filme adapta a obra do mesmo nome de Albert Cohen, numa iniciativa do ex-diplomata brasileiro Glenio Bonder. Quando era embaixador, Bonder leu a obra de Cohen e prometeu a si próprio fazer um filme. O brasileiro não escutou as vozes que lhe diziam que o livro de Cohen trazia consigo maus presságios.

Há anos que se fala de adaptações que, por muitas razões, incluindo sérios dramas pessoais, nunca viram a luz. Bonder avançou com o projecto e acabou por falecer de doença grave antes de terminar "Belle du seigneur". Será que a obra de Cohen está mesmo amaldiçoada?

Só depois das filmagens na antiga sede da ARBED descobri a maldição de "Belle du seigneur", senão era capaz de ter recusado ser figurante. Para mim, a maior desgraça resultante desse dia foi o desencanto com que deixei o "set", escapando-me antes da hora para ir beber um copo com uns colegas figurantes e comentar o longo dia de trabalho cinematográfico.

Glenio Bonder consagrou trinta anos ao filme e conseguiu inclusivamente que a viúva do escritor alinhasse, mas nem a sua abordagem da história de amor – que compara à ascensão dos totalitarismos – salva a película do naufrágio.

Talvez a ausência de Bonder no momento da montagem tenha contribuído para o fracasso. A favor do realizador brasileiro diga-se que quem leu o livro de Cohen o considera inadaptável ao grande ecrã. Os 106 capítulos desta obra que conta uma paixão que é como um rio dificilmente se condensam em duas horas de ecrã.

Da obra lírica e fascinante restam alguns momentos belos mas uma obra sem paixão. Para quem lá esteve durante as rodagens, o resultado não é surpresa mas inevitável. É pena porque Cohen merecia mais, assim como Bonder tinha o direito de ver num grande ecrã a obra com que sonhou toda a sua vida.

Quanto à minha carreira de figurante, sinto que devo começar a escolher melhor os filmes que honro com a minha presença. Por enquanto, ver os filmes em que participei não me enche propriamente de orgulho, mas os belos momentos que passei, esses ninguém mos tira. 

"Belle du seigneur", de Glenio Bonder, com Jonathan Rhys-Meyers, Natalia Vodianova, Marianne Faithful, Ed Stoppard e Maria Bonnevie .

Raúl Reis

Publicado no CONTACTO em 26.06.2013