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Bela Silva. Uma ceramista no mundo
Cultura 8 min. 11.10.2019

Bela Silva. Uma ceramista no mundo

Bela Silva. Uma ceramista no mundo

Foto: Thierry Monasse
Cultura 8 min. 11.10.2019

Bela Silva. Uma ceramista no mundo

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Tem um percurso de quase de 30 anos. Viveu em Chicago e Nova Iorque, fez painéis para o metro em Lisboa, desenhou lenços de seda para a francesa Hermès. Neste momento, vive entre Lisboa e Bruxelas e prepara uma exposição para o Bozar, um dos principais centros artísticos da Bélgica.

Bela Silva teve um momento de glória em Portugal, no ano passado, quando se tornou conhecida como a primeira portuguesa a desenhar lenços de seda para a Hermès. Tudo começou com um acaso: “Uma pessoa da Hermès viu os desenhos que estavam expostos na montra da minha galeria em Paris, muito perto do Louvre, gostaram e convidaram-me para criar uma coleção”, explica Bela Silva, agora imersa no trabalho de retocar um pássaro gigante em barro que irá ser enviado para a galeria de Toulouse.

Os lenços já não estão à venda, são edições limitadas feitas para a Maison des Carrés, a linha histórica da Hermès que produz lenços e xailes, e que são das peças mais distintivas desta casa francesa de roupa e acessórios de luxo. “Foi um trabalho maravilhoso, gostei muito de colaborar com eles”, mas não é por se venderem a mais de 300 euros que “uma pessoa fica rica com as royalties”, sustenta Bela. Cada coleção fica poucos meses à venda e, por isso, as peças de La Maison des Oiseaux Parleurs – o nome da coleção assinada pela portuguesa – já não estão disponíveis nem nas lojas nem no site da marca. Já só figuram em sites de segunda mão, como o e-bay, por valores que rondam agora os 450 euros.

O ‘episódio’ Hermès ilustra a versatilidade de Bela Silva, nascida em Lisboa há 53 anos, que recusa o rótulo de ceramista, que lhe ficou da produção das peças de grande escala vidradas em cores fortes com influências mitológicas, animalescas e florais. Em 2016 fez uma grande exposição no Museu do Oriente, e em 2017 outra no Museu de Arte Antiga de Lisboa, O Jardim das Tentações, inspirado no quadro de Hieronymus Bosch, com peças de tamanho humano, criou azulejos para a estação de metro de Alvalade, também em Lisboa, e fez peças para a Vista Alegre: “Eu gosto de criar objetos, o meu pai trabalhava o metal e eu andava muito nas oficinas com ele e a minha mãe desenhava padrões. Fiz muito cerâmica, mas também outras coisas. Cheguei a fazer sapatos. ”.

Mas o desenho é o primeiro amor: “Sempre soube que o que queria era desenhar. Até tinha o sonho de ir para Los Angeles, trabalhar para a Walt Disney, para fazer desenhos animados. Um dos piores castigos que me podiam dar era tirarem-me os desenhos animados”.

Acabaria por cruzar o Atlântico em direção aos Estados Unidos, muito mais tarde e não para a Califórnia. Com 24 anos, e por um dos acasos de que a sua vida e carreira estão preenchidos, Bela instala-se em Chicago. Estava a frequentar a Ar.Co (escola de formação artística), num curso de cerâmica depois de ter concluir formação superior em Belas Artes, quando um artista norte-americano lhe sugere candidatar-se a uma bolsa naquela cidade do Ilinois. Já tinha alguma vivência do estrangeiro, em campos de arqueologia na Grécia, onde passava os verões.

O otimismo americano

“Concorri com uma amiga pensando que seria uma ótima experiência. Mas foi uma chatice, porque ela não foi aceite. Quando cheguei a Chicago não conhecia ninguém”. Bela Silva recorda o frio terrível da cidade, mas também a “incrível abertura ao mundo”, a arquitetura dos arranha-céus, a arte nas ruas, ver um quadro de Amadeo de Souza-Cardoso no museu do Art Institute, onde passava a caminho do ateliê. E gostou do otimismo e do pragmatismo, do “let’s do it” americano.

“Hoje, passados quase 30 anos, tenho amigos em todo o mundo, recebo no mesmo dia uma chamada de Tóquio, outra de Nova Iorque. E isso graças a ter estudado em Chicago. E na altura não foi evidente ir para lá, tive que fazer opções na minha vida. Agora, os miúdos viajam para todo o lado, na altura não”. Foram 12 anos (em Chicago e Nova Iorque) em que trabalhou muito, desenhou para o New York Times, casou com um americano e teve um filho, hoje com 22 anos. E foram tempos que deixaram saudades “Tenho que ir a Nova Iorque, onde não vou há alguns anos. Estou com saudades dos sabores, dos corn cakes, da comida de New Orleans, mas viver lá o tempo todo não. Gosto de estar na Europa porque estou perto de muitos países em pouco tempo. E quando vais para a América tens de fazer uma opção de vida. Estás lá. Não dá para andar para a frente e para trás. Cortas o cordão umbilical”.

Regressou a Portugal para assistir à mãe, que acabaria por morrer num pós-operatório inesperado. “Adorava a minha mãe, era uma mulher muito nova”, recorda Bela Silva. Foram momentos difíceis. Decidiu ficar em Portugal, imaginando que com “tanta fábrica e tanta tradição na cerâmica” encontrasse facilmente o seu lugar. Mas a integração também foi complicada. “Uma pessoa passa 12 anos num país e quando volta parece que deu um passo atrás. Não foi fácil trabalhar em Portugal e depois há sempre dificuldades com os pagamentos, que são uma dor de cabeça”. Bela fez um painel de azulejo para a estação de metro de Alvalade, algumas colaborações com a Vista Alegre, mas diz, “em Portugal, quando se faz uma coisa que tem destaque, não é por isso que nos surge mais trabalho. É como se atirássemos uma pedra e a pedra simplesmente fosse ao fundo sem fazer círculos. Os trabalhos não têm consequências. Não houve uma encomenda que surgisse por causa da estação de metro”, recorda. A mentalidade em Portugal “é ainda muito a das famílias, do apelido, do que é chique ou não. Faz um pouco de impressão isto”. “Os momentos de glória não servem para muito”, sintetiza.

Há sete anos, Bela Silva mudou-se para Bruxelas. Tinha conhecido um belga em Lisboa e foi atrás dele. “Mais uma vez não foi fácil adaptar-me a um novo país. E recomeçar”. O cinzento de Bruxelas, que transforma as cores em sombras pardas, mandam-na abaixo. “Todos os meses vou à terra. Vejo as minhas amigas de há 30 anos, como as minhas douradas, vou às tascas, apanho sol, é maravilhoso. Também tenho trabalhos com fábricas e tenho um pequeno ateliê onde gosto de desenhar”. Anda numa roda-viva, no regresso aprecia o sossego da sua vida na capital europeia. Estar em Bruxelas permite-lhe “conhecer gente muito gira, italianos, espanhóis, franceses” e ter um trabalho continuado.

A cor do México

Há uns anos percebeu que as suas peças estavam a ficar cinzentos e castanhos com a falta de luz no céu. “E fui ao México visitar amigos. E foi uma coisa incrível senti quase que era mexicana, até me apeteceu ficar lá uma temporada. As obras de Barragán (arquiteto) influenciaram as minhas cores”, recorda. “No Mexico senti mesmo um frisson. E pensei: eh pá eu sou mas é mexicana. Já me chamavam Frida Kahlo”. Em março, a exposição individual que fará na sua galeria em Bruxelas, a Spazio Nobile, é dedicada ao México.

Agora habituou-se a viver “entre” Lisboa e Bruxelas. Portugal é onde está a alegria e as emoções, na Bélgica é para trabalhar a 100%. “Para trabalhar e viver Lisboa está impossível. A minha galeria no Chiado fechou porque pediam 8 mil euros de renda. Há muita coisa em Lisboa que já nem reconhecemos”, lamenta. Por outro lado, diz: “Os meus clientes e as galerias estão no estrangeiro e em Bruxelas consigo deslocar-me para todo o lado e tenho aqui uma equipa da galeria que me apoia imenso, já fui a Xangai. Dificilmente isso aconteceria se estivesse em Lisboa. Embora não queira envelhecer aqui, ainda não está na altura de voltar”.

Neste momento, trabalha num ateliê numa velha fábrica em Zaventem, perto do aeroporto, que se transformou num grande centro de dezenas de oficinas de vários artistas. Um espaço amplo, luminoso, uma grande melhoria em relação ao primeiro andar, no centro de Bruxelas, que era uma velha fábrica de collants, de onde saiu há um ano.

De casa, na zona central de Saint Catherine, a Zaventem são 15 minutos de comboio. A antiga fábrica tem cozinha e esplanada, onde todos os locatários se encontram, e no hall uma enorme lareira enche de calor o espaço, no Inverno. No ateliê, a luz entra, mesmo que tristonha. “Cheguei a uma idade onde o sítio já não me importa. Faço o meu trabalho”.

Em Setembro, Bela Silva foi uma das figuras destacadas pela revista da Mês do Design e no ateliê recebeu mais de 120 pessoas para um brunch. Ainda em segredo, está a trabalhar num projeto de moda com uma casa francesa, numa edição limitada, e em colaborações com vários decoradores. A 24 de outubro, Bela Silva irá expor no Bozar – o principal centro artístico de Bruxelas – uma coleção de desenhos, disciplina que a interessa cada vez mais. “Houve uns anos em que me concentrei na escultura, mas tenho feito muito desenho e há muita procura. Para mim, desenhar é uma alegria. A cerâmica tem problemas, porque é pesada e só agora é que tenho um assistente uma ou das vezes por semana. Pôr as peças no forno é um pesadelo”.

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