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Batem, desenhador de BD: “A União Europeia está mal gerida”

Batem, desenhador de BD: “A União Europeia está mal gerida”

Foto: Alain Piron
Cultura 8 min. 27.07.2018

Batem, desenhador de BD: “A União Europeia está mal gerida”

Paulo Jorge PEREIRA
Paulo Jorge PEREIRA
Desde 1987 que desenha as aventuras do popular marsupilami, criação de André Franquin com quem trabalhou até à sua morte. Esteve no Festival de Banda Desenhada de Contern, fala da sua relação com o mestre, mas também do terrorismo na Bélgica, de Trump e da crise dos refugiados.

O que representou a sua presença aqui como presidente honorário e, nessa qualidade, autor do cartaz do festival?

Para lá de ser uma honra a presença como presidente honorário é sobretudo essa possibilidade de ilustrar o cartaz. Sendo ilustrador de formação, desenhar o cartaz agrada-me muito. Isso permite-me sair do pequeno formato a que estou habituado e o objetivo do cartaz tem menos a ver com história e mais com imagem e o respetivo impacto, de acordo com esta ordem: o festival, a Banda Desenhada e, no meu caso, a minha personagem. E não é fácil, porque pedi fotos de locais típicos, mas Contern é uma localidade pequena, portanto, optei por destacar o logo, remetendo para antigas civilizações como os Incas.

Nasceu no antigo Congo, saiu com apenas quatro meses e nunca voltou. Por que razão escolheu a BD como profissão?

Costumo dizer que foi ao contrário, a BD é que me escolheu. No fundo, é um clássico: todas as crianças do mundo desenham e muitos dos melhores desenhadores da BD são aqueles que nunca pararam. Eu continuei a desenhar e só há pouco tempo compreendi porquê: porque desenhar é terapêutico para mim. O meu pai era assinante do jornal do Spirou e, enquanto aprendia a ler, tornei-me apaixonado por BD com relevo para o trabalho de André Franquin – das histórias de Gaston Lagaffe às de Spirou e do Marsupilami. Mas nunca pensei que, 52 anos mais tarde, estaria aqui a falar sobre o meu papel como desenhador do marsupilami e escolhido pelo próprio Franquin. E já passaram mais de 30 anos desde que desenhei a minha primeira história com ele, até parece um conto de fadas.

Desenhador do marsupilami desde 1987, o belga Batem recorda o mestre como "um homem de enorme simplicidade".
Desenhador do marsupilami desde 1987, o belga Batem recorda o mestre como "um homem de enorme simplicidade".
Foto: Alain Piron

Como foi a sua reação quando recebeu o convite?

Trabalhava numa editora irmã das edições Dupuis que se ocupava de explorar os direitos derivados de personagens da Dupuis e surgiu a oportunidade de o fazer para desenhos animados. Durante meses desenhei o marsupilami e fui aperfeiçoando o estilo. E nem foi Franquin quem primeiro pensou em mim como escolha – foi a sua mulher. Um dia visitaram o espaço onde eu desenhava e ela disse-lhe: “O que achas daquele rapaz e dos seus desenhos? Nada mal, não?”. Ele concordou e, passado algum tempo, fui contactado por um editor e conversámos em sua casa. Foi no começo de janeiro de 1987, por coincidência rigorosamente dez anos antes da morte de Franquin. O editor disse-me que adorava BD, era colecionador e empresário, tinha falado com Franquin, estava a lançar-se na edição e ele pensara em mim para desenhar o marsupilami. Fiquei sem fala! Perguntou se queria beber alguma coisa, disse que não, pedi para sair por um bocado e fui beber um Campari (assobia e faz o gesto de beber). Voltei e pedi: “Não se importa de repetir o que me disse?”. E o editor respondeu: “Bem, foi escolhido pelo mestre para desenhar as aventuras do marsupilami”. Nessa mesma tarde recebi um telefonema do próprio Franquin que me confirmou tudo.

Como recorda a vossa colaboração?

Durante três meses continuei na outra editora e, duas ou três vezes por semana, ia a casa de Franquin para conversarmos sobre os desenhos. O livro O Ninho dos Marsupilamis tornou-se o meu caderno de encargos, porque mostrava como surgira a personagem, o que comia, como era a família, etc. Franquin ajudou-me imenso, deixou-me à vontade, era uma pessoa muito aberta e quase pedia desculpa quando fazia observações. Propôs que fosse desenhando o marsupilami com diversas expressões: em ira, a rir, com dúvidas, angustiado, pronto para correr e por aí fora. Foi deste modo que se fez o processo de apropriação gráfica, dizendo-me para evitar expressões de paroxismo e escolher mais vezes a subtileza. E comecei a receber os argumentos de Greg para os ilustrar com os meus desenhos. Foi então que me dei conta de que estava a desenhar o marsupilami de Franquin para uma tiragem de 100 mil exemplares. E aí comecei a sentir medo, claro... Mas tudo correu bem, porque ele era uma pessoa extraordinária!

Batem correspondeu ao desafio lançado pelo Contacto e desenhou um marsupilami para as páginas do jornal.
Batem correspondeu ao desafio lançado pelo Contacto e desenhou um marsupilami para as páginas do jornal.
Foto: Alain Piron

Trabalhou com argumentistas como Greg, Yann, Dugomier, Colman: há muitas diferenças?

Sem dúvida. Para lá da técnica, por exemplo, Yann preferia pequenos esquemas, tal como Dugomier; Fauche datilografava. O entendimento com Stéphane Colman já vai em 14 álbuns e tem resultado muito bem porque ele também é desenhador e foi o primeiro que, antes de escrever argumentos, foi estudar todos os livros do marsupilami para manter a homogeneidade. E, como conhece bem o meu trabalho, sabe que estou mais à vontade com a vegetação do que a desenhar cenários urbanos.

Em que se inspirou para desenhar a selva da Palômbia?

Habituei-me a respeitar a Natureza como fazia Franquin. Numa visita à Guiana aventurei-me na floresta, descalço, a ouvir e a sentir a humidade, os ruídos, cada som, cada cor, etc. É isso que procuro transmitir com a Palômbia, uma floresta imaginada que situamos algures na América do Sul, perto da Amazónia. E, como a Natureza é mais imaginativa do que eu, posso desenhar qualquer inseto ou planta sem medos de que não exista.

Como tem alimentado o humor de um personagem que não fala?

Não fala, nem pensa... É perigoso e difícil, claro. De vez em quando temos algumas liberdades, espécie de essência poética, mas sem esquecer um princípio de Franquin: o marsupilami é um animal, portanto, nada de antropomorfismos e comportamentos demasiado humanos. E tenho confirmado ao longo dos anos que me entendem, como há pouco tempo em Espanha com várias crianças que viram um trevo de quatro folhas do marsupilami e um coração como resposta da marsupilami e disseram: “Percebemos o que querem dizer: ’Boa sorte, minha querida e até logo, meu amor!”. No plano gráfico também já me perguntaram como faço para não me aborrecer ao fim de milhares de desenhos, de poliderivados e dedicatórias. Faço-o como se cada um fosse um desafio do próprio Franquin e procuro reinventá-lo um pouco a cada dia, até porque não temos sempre os mesmos personagens em todos os livros. Por exemplo, naquele que vamos publicar em abril do próximo ano, é a marsupilami e o feminismo que estão no centro da ação e há um machista que se atravessa na história.

Confessando-se "de esquerda", Batem mostra-se crítico da União Europeia e considera que Trump é "bullshit".
Confessando-se "de esquerda", Batem mostra-se crítico da União Europeia e considera que Trump é "bullshit".
Foto: Alain Piron

Num mundo como o atual, cheio de perigos, as mensagens dos livros são as suas ou tenta ser um porta-voz do mais aceite em sociedade?

Sabendo que as tiragens são enormes, primeiro que tudo trata-se de uma série familiar e humorística. Mas, sem pretensões, veiculamos mensagens de bom senso: igualdade, ecologia, proteção da floresta equatorial e dos rios. Tudo isto sem ser demasiado sério, claro... E, se um argumentista colocasse uma ideia da qual eu discordasse não a desenharia. Além disso, publicamos álbuns sem precisar de abater árvores para obter papel ao mesmo tempo que as tintas usadas não são tóxicas.

Como analisa questões como Trump, a crise dos refugiados e o papel da União Europeia, por exemplo?

Não podemos abordar nos livros esses temas tão bicudos, mas o meu coração é de esquerda e, quanto a Trump (faz uma careta), é bullshit! Tenho amigos que criaram redes de apoio aos refugiados e procurei informar-me para os ajudar a partir de Liège, porque chegam de países em guerra e precisam de tudo: de acolhimento, de comida, de trabalho. Não sou politólogo, nem economista, penso que a União Europeia é essencial, mas não está bem gerida. E acredito que os ingleses vão arrepender-se com a saída, desde logo por aquilo que lhes vai custar.

Lembrando os atos de terrorismo na Bélgica, o desenhador considera que "ninguém ficou indiferente", mas rejeita a ideia de que exista medo. "É preciso viver e ninguém pode viver com medo", afirma.
Lembrando os atos de terrorismo na Bélgica, o desenhador considera que "ninguém ficou indiferente", mas rejeita a ideia de que exista medo. "É preciso viver e ninguém pode viver com medo", afirma.
Foto: Alain Piron

Houve vários atentados terroristas na Bélgica, inclusive em Liège, cidade onde vive. Como reagiu?

Ninguém ficou indiferente, claro, mas não tenho a sensação de que haja medo. É preciso viver e não se pode fazê-lo com medo.

Afirmou que há contratos miseráveis para jovens e 80% dos autores vivem abaixo do limiar de pobreza, mas também sublinhou que ninguém deve desenhar para ficar rico e sim por talento e paixão. Como é que se equilibram estas duas questões?

Hoje ninguém está na BD para fazer fortunas, isso é claro. A maior parte dos desenhadores são apaixonados e continuam, apesar das dificuldades. Mas, se quiserem ter uma família, é muito complicado. Às vezes são as mulheres que desenham e, num casal, aquilo que vejo é que um dos dois trabalha, além do que faz na BD. Alguns diversificam e abrangem o cinema ou criam outras personagens. Pelo que vejo, ou tem de se trabalhar muito depressa ou contentar-se com pouco. Sendo de esquerda, como disse há pouco, creio que a pior coisa que se inventou foram os acionistas, generais que só pensam em ganhar dinheiro, reduzem custos e vão tirar dos bolsos de quem trabalha a margem de lucro que lhe pertencia. E os autores são cada vez mais mal pagos.

Em setembro vai a Portugal: que ideia lhe ficou da visita anterior?

Foi magnífico! Maria José Pereira, a minha editora, levou-me a conhecer um pouco de Lisboa, provei os pastéis de Belém e gastronomia variada, visitei as colinas, mas não houve muito tempo. Espero conhecer mais em setembro!

O desenhador com o personagem no Festival de Banda Desenhada de Contern.
O desenhador com o personagem no Festival de Banda Desenhada de Contern.
Foto: Alain Piron

Perfil

Nascido a 6 de abril de 1960, em Kamina, no então Congo belga, como Luc Collin, iria inscrever-se no atelier de Banda Desenhada da Academia de Belas Artes em Châtelet, sob a direção de Vittorio Leonardo, colorista da melhor fase da revista Spirou. Em 1978 entra no Instituto Saint-Luc de Liège e receberá o seu pseudónimo (Batem) de um Luc mais velho, “uma tradição nas Ardenas”, segundo conta. Já licenciado, tenta a Dupuis, mas passa a trabalhar na SEPP, uma empresa-irmã que explora direitos derivados da primeira editora. Aqui será convidado por Jean-François Moyerson, fã da obra de Franquin e do marsupilami, para trabalhar na sua editora, a Marsu Productions, a desenhar ao lado do criador. Até 1997, data da morte de Franquin, trabalham juntos e, depois, Batem prossegue a série com vários argumentistas. Além da BD, tem ainda atividade como cartoonista.