Bataclan ouviu “liberdade" em português
Os resistência em concerto no Bataclan

Bataclan ouviu “liberdade" em português

Foto: Elisabete Brandão
Os resistência em concerto no Bataclan
Cultura 4 min.02.02.2017

Bataclan ouviu “liberdade" em português

José Henrique De Burgo Mendes
José Henrique De Burgo Mendes

Os Resistência tocaram no domingo passado, no Bataclan, a mítica sala parisiense onde morreram 89 pessoas vítimas do atentado de 13 de novembro de 2015. O Contacto esteve lá e ouviu cantar "liberdade" em português.

Os Resistência tocaram no domingo passado, no Bataclan, a mítica sala parisiense onde morreram 89 pessoas vítimas do atentado de 13 de novembro de 2015. Minutos após o fim o concerto, Olavo Bilac, um dos vocalistas do coletivo português, falou ao Contacto. Foi uma noite com forte carga emocional, afinal a homenagem à lusofonia foi numa sala que se tornou num símbolo da liberdade.

Uma palavra para definir a noite?

Liberdade. Este concerto mais que um espetáculo foi um grito de liberdade, um momento em que pudemos gritar que estamos sem medo.

Como o tema que foi aqui ouvido “Vai sem medo”?

Exato, viemos e vamos sem medo. Independentemente dos ataques e da violência é importante continuarmos o nosso quotidiano. Temos de trabalhar, sair, ir a espetáculos, não só no Bataclan, como em todo o lado e o lema é “vai sem medo” porque não nos podem assustar.

Entoou-se a liberdade?

Cantámos a liberdade. Cantámos nós e cantou a plateia. Ouviu-se liberdade em língua portuguesa.

Os Resistência sentiram a emoção do espaço?

Houve alegria e felicidade e, claro, houve um condicionalismo que afetou todo o concerto. Nós sabemos e o público sabe que morreram, aqui, quase 90 pessoas. O Bataclan tornou-se num local mítico. Quem vem, mais que divertir-se quer mostrar a sua indignação contra a violência e provar que mesmo com estas ondas de ataques terroristas, não se deixam intimidar. Sentimos que foi isso que aconteceu. Sentimos que o palco foi uma forma de mostrar a nossa luta em prol da liberdade.

E individualmente? Como se sentiram?

Penso que cada um nós teve sentimentos semelhantes. Contaram-nos alguns pormenores do momento do ataque e todos ficámos bastante sensibilizados com o relato dos acontecimentos.

Um exemplo?

Senti-me chocado ao imaginar as pessoas a fugir. Consigo visualizar as pessoas a entrarem pelo ’backstage’ e fiquei sensibilizado ao saber de uma grávida que saltou pela janela para fugir do espaço. Este tipo de relatos deixa-nos impressionados e, claro, que aumenta a carga simbólica e emotiva de atuar aqui.

Miguel Ângelo e Tim, dois dos integrantes do grupo Resistência
Miguel Ângelo e Tim, dois dos integrantes do grupo Resistência
Foto: Elisabete Brandão

O momento do coletivo no Bataclan foi também de esperança e de que tudo vai continuar?

Foi a comemoração dos 25 anos da Cap Magellen, foi uma atitude de acreditar no futuro, de lutar pela liberdade e respeitar a diferença. Para nós foi um momento único e muito importante. O local é simbólico e é uma honra enorme subirmos a este palco. Tivemos sempre a ideia de homenagear a liberdade e dar palavras de incentivo e de coragem.

Em que cada tema interpretado foi pensado?

Entrámos e acabamos com “Nasce Selvagem” em que se entoou na sala “quando alguém nasce, nasce selvagem” e não é de ninguém. É o mesmo que dizer que somos livres de escolher o nosso caminho e as nossas crenças mas respeitando o outro e respeitando a liberdade de cada um. Somos a Resistência e quisemos ser nós próprios. Trouxemos músicas que são ícones do panorama português e que toda a plateia conhece, e quisemos trazer temas que estivessem ligados à casa e ao que ela significa atualmente.

Os Resistência continuam a ser um grupo de amigos?

O espírito do início não se perdeu. Continuamos a querer viver os momentos em palco. Queremos continuar a cantar e a tocar a língua portuguesa, a homenagear músicas que se tornaram conhecidas de todos.

Mas quem vos conhece notou hoje algumas mudanças sonoras e novos arranjos...

O último álbum trouxe já temas originais do coletivo. Sentimos que temos de trabalhar mais vezes, em conjunto e não apenas nos ensaios que antecedem os concertos.

Para quando um álbum de originais.

Não temos data, tudo a seu tempo. Temos essa necessidade, temos essa ideia e temos esse projeto. Mas, não queremos sentir a obrigação, queremos ter tempo sem a pressão da obrigação.

Notam-se diferenças, vocês estão a mudar? A cena musical está a mudar? Há mais projetos nacionais que vocês podem trabalhar?

Portugal está a fervilhar de bons projetos musicais. Há material e há pessoas talentosas. Hoje temos muitos projetos que se inserem no conceito inicial da banda. Claro que falamos em importar temas para o nosso universo. Temos ideias comuns e também nós estamos em processo criativo mas mais uma vez não queremos sentir obrigação. Os Resistência querem tudo natural e a seu tempo. Mas sim, também nós queremos a mudança.

E o vosso enorme à vontade no Bataclan?

Estávamos em festa, sempre com respeito mas acima de tudo foi um momento de celebração e de alegria. Se cada um de nós estava mais à vontade é porque a sala representa muito para nós e para quem cá esteve. Além do nosso entusiasmo pelo Bataclan ser mítico, e isto não significa falta de respeito. Significa sim dignificar o que aqui aconteceu e vir celebrar a vida, a liberdade e a esperança. Não pode haver medo.

A bandeira portuguesa em palco é uma imagem de marca?

É uma homenagem aos portugueses e ao que queremos representar. Somos Portugal.

Vanessa Castanheira, em Paris

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