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"Banksy português" no Luxemburgo: Vhils: Da rua para o Freeport, o armazém dos super-ricos
Vhils, pseudónimo do artista de rua Alexandre Farto, veio ao Luxemburgo fazer um mural no Freeport

"Banksy português" no Luxemburgo: Vhils: Da rua para o Freeport, o armazém dos super-ricos

Foto: Gerry Huberty
Vhils, pseudónimo do artista de rua Alexandre Farto, veio ao Luxemburgo fazer um mural no Freeport
Cultura 10 min. 23.05.2014

"Banksy português" no Luxemburgo: Vhils: Da rua para o Freeport, o armazém dos super-ricos

O artista de rua Alexandre Farto, que assina Vhils, está no Luxemburgo para fazer mais um dos seus gigantescos murais. Mas desta vez os monumentais rostos escavados na parede que o tornaram famoso em todo o mundo não vão estar à vista de todos.

A obra deste português que começou aos 13 anos a 'grafitar' paredes na margem sul de Lisboa vai ficar fechada a sete chaves no futuro Freeport, um gigantesco armazém de alta segurança que vai servir para guardar os tesouros dos mais ricos do planeta, livres de impostos.

O nome não tem nada a ver com o centro comercial de Alcochete que quase fez cair Sócrates. O "free" desta zona franca que está a ser construída perto do aeroporto de Findel quer dizer "livre" – livre de taxas aduaneiras, livre de IVA e de impostos.

Quando ficar pronto, em Setembro, este gigantesco cofre-forte de betão com quatro andares e uma superfície de 22 mil metros quadrados vai servir para armazenar os bens mais preciosos dos super-ricos do mundo: arte, ouro e antiguidades vão ser transportados em carros blindados a partir do aeroporto, a poucas centenas de metros. 

Este é o primeiro Freeport da União Europeia, uma estrutura a que o Economist chama o "armazém de topo dos ultra-ricos". E se na prática é um depósito de bens, a que não faltam caves para guardar vinhos ou garagens para carros de colecção, é feito à imagem do luxo que alberga. O edifício pode ser em betão, mas o enorme átrio onde os clientes vão poder transaccionar obras de arte em "showrooms" privados, protegidos de olhares indiscretos, está decorado por um mural gigantesco esculpido pelo português Vhils, apresentado esta quarta-feira à imprensa.

A obra do artista português foi esculpida em três semanas
A obra do artista português foi esculpida em três semanas
Foto: Gerry Huberty

O "tatuador de paredes"

Por enquanto o Freeport ainda tem o aspecto de um estaleiro de construção. Quando o CONTACTO lá esteve, esta segunda-feira, foi preciso passar por baixo de andaimes, galgar escadas em madeira de cofragem e assentar os pés com cuidado em traves e tijolos até conseguir chegar ao átrio interior onde Vhils trabalha há vários dias, protegido dos olhares exteriores. Um dos muitos operários portugueses que trabalham no Freeport oferece-se para nos levar ao artista quando lhe perguntamos se o conhece. "O tatuador?", pergunta. "Só trabalha de noite, nós já não vimos nada". Um atavismo dos tempos em que trabalhava na rua ilegalmente, sempre à espera de ver chegar a polícia?

Vhils ri-se. "É sempre mais fácil trabalhar à noite, para estarmos mais calmos, mais seguros, sobretudo se houver várias equipas no terreno, mas se calhar é uma coisa que vem do passado".

O "passado" não começou há muito tempo para este português de 27 anos que cresceu na margem sul de Lisboa e que começou com o 'graffiti' aos 13 anos "para não ir para outros sítios que podiam ser bem piores".

"O 'graffiti' foi quase a minha escola, foi aquilo que me alertou para trabalhar no espaço público", conta ao CONTACTO, sentado em cima de um monte de tijolos de betão.

Na rua, o espaço "é público e deve ser de todos, em vez de estar ocupado apenas por publicidade", defende. Como 'graffiter', apropria-se de um espaço para a arte, por cima dos cartazes e slogans publicitários.

Um dia dá por si a reflectir nas imagens dos "artistas de rua" que o precederam, os autores dos murais políticos do 25 de Abril que cobrem as paredes na margem sul, agora "já meios queimados pelo sol, a cair de podres".

"Era quase como um sonho utópico que poeticamente se estava a degradar, como se nunca tivesse acontecido", diz.

Lado a lado, duas ideologias opostas: os murais de Abril e a sociedade de consumo. "Tinhas duas ideologias completamente diferentes que usavam o espaço público, da rua, para comunicar os seus ideais".

A seguir "a publicidade veio cobrir os murais, depois chegou o ’graffiti’, por cima da publicidade, e a seguir veio a Câmara pintar as coisas, e depois mais 'graffiti'...". Camadas geológicas que reflectem "as grandes alterações que aconteceram em Portugal nos últimos 30 anos", diz Alexandre Farto.

"Comecei a olhar para os muros como algo em que podes intervir, mais como algo histórico. Daí surgiu a ideia de em vez de acrescentar mais uma camada, escavar e expor as entranhas dessas camadas que estão por trás".

Vhils decide então trocar a lata de spray pelo berbequim e pelos martelos pneumáticos. Entretanto vai estudar para Londres, para a universidade de artes Saint Martin’s. É aí que atrai a atenção do britânico Banksy, o mais famoso artista de rua do mundo. Em 2008, o conhecido activista político convida o português para participar no Cans Festival em Londres, uma plataforma para as artes de rua. Os seus rostos escavados nas paredes, metáforas da desumanização das cidades, chamam a atenção da imprensa e são primeira página no jornal The Times, ao lado de Bansky.

Vhils passa a receber convites de todo o mundo, de Los Angeles a Xangai, para esculpir fachadas a golpes de picareta e de martelo, "tatuando" a ferro e fogo as suas monumentais caras, agora inconfundíveis. Um "boom" que o leva a trabalhar com galerias de arte em Londres, Paris e Xangai (que o representa na obra no Freeport), além de em Lisboa e na Austrália.

Em Julho, Alexandre Farto vai ter a primeira exposição individual em Portugal, no Museu da Electricidade, depois de ter tido obras suas no Centro Pompidou, em Paris, ou na Bienal de São Paulo.

"Street art" cobiçada por coleccionadores

Um rosto que parece sair do betão, criado com a técnica de cofragem, é uma das caras que decoram o átrio do Freeport
Um rosto que parece sair do betão, criado com a técnica de cofragem, é uma das caras que decoram o átrio do Freeport
Foto: Gerry Huberty

Da clandestinidade da rua, as obras dos "street artists" viajam para dentro de galerias e museus. São cobiçadas por coleccionadores, passam de marginais a "mainstream". Mas é irónico encontrar um artista de rua no Freeport, uma fortaleza de alta segurança que vai estar protegida por muros com três metros de altura, centenas de câmaras e segurança 24 horas por dia. E onde "só se entra por convite", garantiu o director do Freeport do Luxemburgo, David Arendt, durante uma apresentação do projecto, em Junho passado.

Para criar esta zona franca que garante a suspensão do pagamento do IVA e de taxas aduaneiras enquanto os bens ali estiverem armazenados, a lei luxemburguesa foi mudada de propósito pelo antigo ministro das Finanças, Luc Frieden, em 2011. Juridicamente, é como se os bens estivessem em trânsito, tal como nos antigos entrepostos aduaneiros em que estes novos "portos francos" se inspiram. Na prática, no entanto, podem acabar por lá ficar a vida inteira, e até ser transaccionados sem nunca pagarem IVA, desde que não saiam do Freeport.

Desde o "crash" financeiro de 2008 que se tornou mais seguro investir em arte e metais preciosos do que nos voláteis produtos financeiros. O problema é como continuar a gozar das vantagens fiscais arquitectadas por fiscalistas e advogados para acções e fundos de investimento, armazenando ao mesmo tempo os bens em segurança. Afinal, os potenciais clientes desta zona franca "não querem pôr os Picassos na Síria, nem se calhar em França" - onde os mais ricos passaram a ser pesadamente tributados, com Hollande -, explicou o director do futuro Freeport, numa conferência.

Os clientes do estabelecimento luxemburguês, detido pelo suíço Yves Bouvier - proprietário do Freeport de Singapura e de armazéns deste tipo na Suíça -, vão poder mesmo dedicar-se à filantropia sem custos adicionais: se emprestarem as obras de arte a museus, durante um tempo limitado, estas podem viajar por todo o mundo, isentas de taxas.

Tem a noção do sítio em que está?

"Tenho a noção do sítio em que estou, mas o meu trabalho como artista continua a ser este. Estou a fazer um trabalho como artista numa fachada, dentro deste espaço", diz Vhils, no tom calmo e sereno que nunca abandona.

Mas onde fica a mensagem da arte quando o mural do Freeport concorre lado a lado com as fachadas que esculpiu para os expropriados da maior favela do Rio de Janeiro? Aceitar este trabalho não o converte numa espécie de decorador, não o compromete enquanto artista?

"Acho que não compromete, porque se não fosse isto eu não conseguia fazer muitos dos meus projectos", diz. "Eu preciso de financiar os projectos que vou fazendo e de os fazer acontecer, o que nem sempre é fácil, por causa da logística e da escala", prossegue. "Tem de haver esse equilíbrio: tornar as coisas sustentáveis e ao mesmo tempo conseguir fazer aquilo que queres", explica, recusando revelar quanto recebeu para fazer o mural do Freeport.

Vhils garante que o orçamento do trabalho encomendado pela empresa luxemburguesa lhe permitiu explorar novas técnicas, como a monumental escultura em betão que parece emergir da parede. E deu trabalho a duas empresas em Portugal, "numa altura em que não está fácil para as empresas de construção", permitindo-lhe ter consigo uma equipa de 20 pessoas, durante as três semanas que passou no Luxemburgo nos últimos dois anos.

O capitalismo absorve aquilo que o põe em causa, como defende o filósofo alemão Marcuse? Vhils admite que sim, mas não concorda que a intervenção no Freeport neutralize a sua mensagem.

"Se eu fizesse estes projectos todos os dias, aí sim, havia uma neutralização, estava a abdicar da mensagem e do conceito que eu quero passar com o meu trabalho", defende. "O que mais me interessa no final é que a mensagem que eu quero passar com os meus projectos chegue às pessoas, e se isso implica eu fazer um ou dois projectos destes que me dão algum dinheiro para poder fazer outros projectos, vou fazê-lo", prossegue.

O mural foi apresentado à imprensa na quarta-feira
O mural foi apresentado à imprensa na quarta-feira
Foto: Gerry Huberty

A revolução, essa, é que não vai ser 'graffitada'.

"Nós podemos querer mudar as coisas para que fiquem melhores, mas se queremos ser revolucionários no puro sentido da palavra, pegamos numa arma, vamos ao parlamento e fazemos a nossa revolução", diz.

A alternativa é encontrar "espaço dentro do próprio sistema" para fazer passar a mensagem.

"Quando fazes uma intervenção no Rio [de Janeiro], estás a fazer uma chamada de atenção para uma situação, e isso contribui para uma discussão que, no final, vai moldar o mesmo modelo capitalista em que todas as pessoas vivem. Acho que há um ciclo de influência que é pertinente e importante, porque senão tínhamos revoluções sangrentas de dez em dez anos, e nós não queremos isso".

No Freeport, fazemos-lhe notar, ao contrário do que já aconteceu com os 'graffitis' de Banksy e com os seus próprios murais, arrancados da parede para serem vendidos, a obra que criou não corre o risco de ser roubada.

"Não? Espero bem que sim, um dia", diz, com uma gargalhada. Para logo acrescentar: "Estou a brincar".

Paula Telo Alves


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