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As saudades que eu já tenho...
Cultura 3 min. 22.05.2021

As saudades que eu já tenho...

As saudades que eu já tenho...

Foto: DR
Cultura 3 min. 22.05.2021

As saudades que eu já tenho...

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
“Zé Pedro Rock’n’Roll” é um filme muito pessoal, muito íntimo. Mas esse é o tom exato para contar a história de alguém que todos consideramos como um primo nosso que, só por acaso, nunca veio cá a casa.

Os Xutos & Pontapés estão entre as bandas mais emblemáticas da história da música em Portugal. Ao contrário daquilo que é habitual no rock, o líder dos Xutos não é o vocalista, o famosíssimo Tim, mas o homem que lá atrás na guitarra foi dando corpo e alma ao projeto

Zé Pedro - de seu nome completo José Pedro Amaro dos Santos Reis - foi a alma e o visionário que levou os Xutos da banda de garagem ao sucesso a nível nacional.

A história de Zé Pedro tinha de ser contada. Quem melhor do que um cineasta que construiu a sua carreira com temáticas ligadas à música? E quem melhor do que um familiar para contar esta saga?

Diogo Varela Silva acumula as duas exigências: conviveu com o guitarrista dos Xutos desde miúdo por razões familiares e tem no sangue a música.

“Zé Pedro Rock’n’Roll” é, por isso, um filme muito pessoal, muito íntimo. Mas esse é o tom exato para contar a história de alguém que todos consideramos como um primo nosso que, só por acaso, nunca veio cá a casa.

A simpatia do rocker era transbordante, mesmo para quem nunca o cruzou na vida real. E isso vê-se no filme de Varela Silva, através de testemunhos mas, sobretudo, graças às imagens do tempo de Zé Pedro que o realizador foi encontrar aqui e ali num verdadeiro trabalho de pesquisa.

Mas talvez mais importantes do que essas imagens são os relatos de amigos e familiares que o criador de “Zé Pedro Rock’n’Roll” foi entrevistando. Alguns desses momentos são extremamente emotivos e permitem descobrir a relação que o herói deste documentário mantinha com aqueles que o rodeavam.

No dia em que “Zé Pedro Rock’n’Roll” foi projetado pela primeira vez numa sala no Luxemburgo – uma projeção única no âmbito do festival de cinema português no final de 2020 – a maioria dos presentes na sala da Cinemateca estavam visivelmente emocionados. Alguns dos participantes queriam participar no debate com o realizador, mas não foram capazes porque a voz se lhes embargava.

Zé Pedro deixou essa marca que só os muito grandes imprimem: uma admiração profunda mas também uma espécie de amizade à distância, apesar de nunca nos termos cruzado.

Diogo Varela Silva conheceu muito bem Zé Pedro durante anos, sobretudo quando era miúdo, e nota-se o fascínio que aquela original pessoa lhe provocou. Muitos anos depois, o criador deste filme não mudou de perspetiva e olha de baixo para cima para este homem que também tinha ídolos e que, dá a impressão, nunca sentiu que fosse um.

Para o realizador, o documentário mostra ainda "o porquê de o Zé Pedro ter sido o Zé Pedro, como chegou onde chegou, quais os impulsos que o levaram até onde ele foi". E a empatia que o músico conquistou junto do público, dentro e fora dos Xutos & Pontapés, tem uma explicação para Varela Silva: "Tem a ver com essa coisa de ele nunca ter perdido esse contacto com as bandas de que gostava. Ou seja, ele percebia perfeitamente os fãs", já que Zé Pedro também era um fã.

O filme permite ainda descobrir que a relação do artista com a música vinha desde novo, por influência do pai, e uma das memórias é uma ida ao festival Cascais Jazz, na adolescência, que é recordada no documentário.

No verão de 1977, numa viagem de comboio pela Europa, foi a um festival punk no sul de França, decisivo para a formação pessoal e para o que queria fazer de futuro.

De regresso a Lisboa, mergulhado na estética punk-rock, formou os Xutos & Pontapés, cujo primeiro concerto aconteceu a 13 de janeiro de 1979, nos Alunos de Apolo, em Lisboa.

No documentário são recordados os problemas de saúde, derivados dos excessos com a droga e o álcool, o transplante de fígado e a vida de palco.

“Zé Pedro Rock’n’Roll” é um documentário obrigatório para quem gosta dos Xutos, de Zé Pedro, e da música em geral. A abordagem escolhida por Diogo Varela Silva torna o filme universal e a provável estão os inúmeros prémios que o filme conquistou em festivais pelo mundo fora. E agora podemos vê-lo no cinema no Luxemburgo.

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