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As Mil e uma Noites: Miguel Gomes na Presidência
Cultura 3 min. 04.11.2015

As Mil e uma Noites: Miguel Gomes na Presidência

Xerazade viu-se grega a contar as histórias da crise portuguesa ao rei

As Mil e uma Noites: Miguel Gomes na Presidência

Xerazade viu-se grega a contar as histórias da crise portuguesa ao rei
Cultura 3 min. 04.11.2015

As Mil e uma Noites: Miguel Gomes na Presidência

O realizador que já é um dos grandes nomes do cinema português fora de portas obteve consagração internacional com “Tabu”, mas o êxito da trilogia “As Mil e uma Noites” ultrapassa todas as expectativas do realizador e dos seus produtores.

O realizador que já é um dos grandes nomes do cinema português fora de portas obteve consagração internacional com “Tabu”, mas o êxito da trilogia “As Mil e uma Noites” ultrapassa todas as expectativas do realizador e dos seus produtores.

Se a cinematografia de Miguel Gomes sempre teve muito de político, este trabalho é o mais eminentemente político. Tanto que o realizador afirmou que felizmente não é “Presidente da República, porque certamente faria pior do que ele; este filme é a minha contribuição”.

O personagem principal dos três volumes de “As Mil e uma Noites” é o português. O português que vive no Portugal da austeridade nos anos de 2013 e 2014. Gomes admite ser muito difícil fazer o retrato de um país em crise durante um ano, mas encontrou um método original.

Entre Setembro de 2013 e Setembro do ano seguinte, uma equipa de jornalistas foi propondo à equipa dirigida por Miguel Gomes acontecimentos previstos para os próximos dias. O “comité central” – como lhe chamou o realizador – escolhia os eventos a cobrir e arrancava a toda a velocidade para o local. Frequentemente, juntavam à equipa de filmagens alguns actores que se integrariam depois no acontecimento real, por vezes sem saberem muito bem o que iriam fazer ou dizer.

Miguel Gomes descreveu esta forma de filmar como o trabalho de um bombeiro. “Eu até pensei por um poste daqueles que os bombeiros usam para descer do primeiro andar para o rés-do-chão”, explicou em várias entrevistas o realizador português, admitindo que a forma que escolheu para produzir o filme teve muito de industrial. A última etapa deste processo foi a montagem das imagens recolhidas.

Esta forma de trabalhar criou um verdadeiro “patchwork” de seis horas e meia, dividido em três episódios. A maioria dos cinemas optam por projectar cada volume separadamente, como se de uma obra isolada se tratasse, enquanto que vários cinemas pelo mundo fora organizaram maratonas de projecção de “As Mil e uma Noites”, integrando os três filmes.

Portugal escolheu um deles para representar o país nos Oscares: o volume 2, “O Desolado”, vai defender as cores lusas em Hollywood.

“As Mil e uma Noites” já tem um invejável currículo de festivais. O primeiro foi o de Cannes, onde o filme de Gomes teve honras de Quinzena dos Realizadores, em projecções separadas. Pode dizer-se que Miguel Gomes teve três filmes na Quinzena de Cannes, o que é um recorde difícil de igualar.

Mas qual é a história que conta a trilogia de Miguel Gomes? Deixemos o próprio explicar: “Num País Europeu em crise, Portugal, um realizador propõe-se construir ficções a partir da miserável realidade onde esta inserido. Mas incapaz de descobrir um sentido para o seu trabalho, foge cobardemente, dando o seu lugar à bela Xerazade. Ela precisará de ânimo e coragem para não aborrecer o Rei com as tristes histórias desse país! Com o passar das noites, a inquietude dá lugar à desolação e a desolação ao encantamento. Por isso Xerazade organiza as histórias que conta ao Rei em três volumes. Começa assim: ’Oh venturoso Rei, fui sabedora de que num triste país entre os países…’”.

Miguel Gomes assume que este não é um filme politicamente neutro, mas lamenta poder deixar os seus espectadores defraudados: “não tenho um caminho a propor” para Portugal.

Os três volumes do filme têm em comum génios, chineses e muitos portugueses, quase todos “desempregados de condição”. O realizador disse ter desejado fazer um filme em vários tons, da comédia ao drama, até porque “em tempos cruéis não podemos perder a capacidade de contar histórias”, defende.

A utilização do imaginário das Mil e uma Noites é porque Gomes considera aquelas histórias muito “rock’n’roll” e por isso se adaptam à história difícil do país Portugal em tempo de crise. O cineasta admite não ter lido todas as histórias das Mil e uma Noites, mas tal como os vários tradutores do mundo árabe, ele também acrescentou um ponto... e muitas outras marcas de pontuação.

Raúl Reis

“As Mil e uma Noites”, no cinema Utopia (Volume 1, “O Inquieto”; Volume 2, “O Desolado”, e Volume 3, “O Encantado”), de Miguel Gomes, com Crista Alfaiate, Dinarte Branco, Carloto Cotta, Adriano Luz, Rogério Samora, Maria Rueff, Cristina Carvalhal, Luísa Cruz, Américo Silva, Diogo Dória e Teresa Madruga.


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