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As crianças que dão vida à “Música das Crianças Mortas”
Cultura 1 3 min. 12.02.2019

As crianças que dão vida à “Música das Crianças Mortas”

Cultura 1 3 min. 12.02.2019

As crianças que dão vida à “Música das Crianças Mortas”

Sibila LIND
Sibila LIND
Catorze crianças do Conservatório do Luxemburgo sobem esta terça-feira ao palco do Grand Théâtre para cantar a “Música das crianças mortas”, de Gustav Mahler. "Apparition" é uma performance que cruza canto com dança e audiovisual, e em que a vida que é retirada às crianças permanece no corpo dos bailarinos.


Cinco dançarinos contorcem o seu corpo até se colocarem em linha reta, vergados no chão. Um suspiro simultâneo faz apagar a pouca luz que resta. Atrás, um grupo de crianças entra. Os seus passos são apressados, como todos os passos de crianças são. Repetem uma, duas, três vezes, até entrarem no palco devagarinho, escondendo a pressa que têm em chegar ao seu lugar. O ensaio está a chegar ao fim e as crianças já não têm as gabardinas amarelas com que entraram em cena mas sim roupa escura. “A vida foi-lhes tirada”, diz Sylvie Serra-Jacobs. “Mas continua nos bailarinos. É essa a mensagem da peça. Apesar de as crianças morrerem, ainda há beleza na vida e a alma das crianças continua”. 

Sylvie Serra-Jacobs é professora de música e teoria musical no Conservatório do Luxemburgo. Cresceu a ouvir Chopin no piano. "O meu pai tocava e a minha mãe cantava", recorda. O apelido "Serra" - muito comum em Portugal - veio do marido e da sua ascendência espanhola. "Não falo português nem espanhol, mas sei dizer 'chupeta', 'cadeira' e 'mesa'", sorri. Sylvie recorda ainda a vez em que os seus alunos do conservatório cantaram em português para Marcelo Rebelo de Sousa, há dois anos, quando o Presidente da República veio ao Luxemburgo.

Apparition © Didier Philispart

Agora, é com orgulho que Sylvie vê 14 dos seus alunos na sala-estúdio do Grand Théâtre, alguns dos quais acompanha desde que tinham sete anos. "Começámos os ensaios em setembro e eu contei-lhes tudo sobre o compositor e a sua época para que eles pudessem perceber qual o seu papel agora em palco", conta. “Havia uma indicação da produção que as crianças tinham de ter entre dez e 15 anos. A música é muito difícil, por isso os alunos que quiseram participar tiveram de se dedicar a fundo”.

Após a perda de dois dos seus filhos, o escritor alemão Friedrich Rückert escreveu uma série de poemas aos quais chamou "Kindertotenlieder" ("Música das Crianças Mortas", em português). Em 1901, Gustav Mahler, compositor austríaco, decidiu adaptá-los a música clássica, apesar da relutância da mulher, que receava que Mahler, ao escrever uma melodia sobre crianças mortas, pudesse atrair um mau presságio. Depois de compor as cinco músicas, uma das filhas de Mahler morreu, com apenas quatro anos.

"Apparition" é a primeira parte de uma performance multidisciplinar que junta 14 crianças de um coro e seis bailarinos profissionais para dar vida à música de Mahler, que serviu como inspiração para os coreógrafos Emio Greco e Pieter C. Scholten. Os dois trabalham em colaboração com o músico francês Franck Krawczyk. A segunda parte, "Disparition", vai estrear esta sexta-feira, também no Grand Théâtre, mas na sala principal.

Apparition © Didier Philispart

Apesar do tema mórbido da peça, nos bastidores reina a boa disposição. No final do ensaio, as crianças apressam-se para ir ter com os pais, enquanto Sylvie se deixa ficar à conversa com o músico francês. Discutem sobre quais os melhores produtos regionais para ele levar do Luxemburgo. Vinhos, queijos. “E mel?”, pergunta o músico. “Temos mel muito bom”, diz Sylvie. “Mas é mesmo do Luxemburgo? São abelhas luxemburguesas?”, pergunta à professora de música. “Sim sim, são abelhas de cá. Mas algumas são fronteiriças”, ri.


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