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As bruxas de Trás-os-Montes querem chegar a Hollywood
Cultura 1 11 min. 18.11.2022
Cinema

As bruxas de Trás-os-Montes querem chegar a Hollywood

A realizadora luso-francesa Cristèle Alves Meira e a filha Lua Michel, a protagonista do filme que representa Portugal nos Óscares.
Cinema

As bruxas de Trás-os-Montes querem chegar a Hollywood

A realizadora luso-francesa Cristèle Alves Meira e a filha Lua Michel, a protagonista do filme que representa Portugal nos Óscares.
Foto: Rodrigo Cabrita
Cultura 1 11 min. 18.11.2022
Cinema

As bruxas de Trás-os-Montes querem chegar a Hollywood

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O filme "Alma Viva" que vai representar Portugal nos Óscares de 2023 é uma "homenagem aos emigrantes portugueses", diz Cristèle Alves Meira, a realizadora luso-francesa em entrevista ao Contacto. A bruxaria, o poder dos espíritos e as disputas familiares são os ingredientes principais desta obra que dá a conhecer o interior português ao mundo.

A foto gigante da pequena bruxa "Salomé", de 11 anos, de Trás-os-Montes, anda a "passear" por Lisboa nos autocarros da Carris, num anúncio ao filme "Alma Viva", do qual é protagonista, em exibição em Portugal. Esta longa-metragem da realizadora lusodescendente Cristèle Alves Meira, mãe da pequena atriz Lua Michel, foi eleita pela Academia Portuguesa de Cinema para representar Portugal nos Óscares de 2023 na categoria de Melhor Filme Internacional.

Um anúncio que trouxe "uma enorme alegria e orgulho" à realizadora luso-francesa, residente em França. "Eu sou filha de emigrantes portugueses e este filme é uma homenagem aos meus pais, e a todos que deixaram a terra natal. Um reconhecimento pela sua coragem e sacrifício", diz ao Contacto Cristèle Alves Meira, em Lisboa, por ocasião da estreia do seu filme, a 2 novembro, nas salas portuguesas. Em França, o filme chega aos cinemas em março de 2023, e a realizadora também quer que "Alma Viva" esteja em cartaz no Luxemburgo.

"Alma Viva" é um filme sobre as fortes ligações à terra natal de quem deixa Portugal, do apego infinito aos seus, e dos filhos dos emigrantes que passam verões com os avós, no interior belo e esquecido do país, onde a feitiçaria e o sobrenatural estão bem vivos.

A realizadora Cristèle Alves Meira com a filha Lua Michel, a protagonista do filme.
A realizadora Cristèle Alves Meira com a filha Lua Michel, a protagonista do filme.
Foto: Rodrigo Cabrita

É assim o quotidiano da pequena aldeia transmontana de Junqueira, em Vimioso, onde é rodada a história da pequena Salomé, residente em França, e que passa o verão em casa da avó que é espírita, com a menina a ajudar nos rituais de bruxaria. Uma noite a avó, a quem é muito apegada, morre ao seu lado, acreditando que foi envenenada por outra bruxa da aldeia. Assombrada pelo dom que herda da falecida, Salomé procura vingança e "com o diabo no corpo" inicia rituais de feitiçaria trazendo a desgraça à aldeia que a quer expulsar. 

Eu sou filha de emigrantes portugueses e este filme é uma homenagem aos meus pais, e a todos que deixaram a terra natal. Um reconhecimento pela sua coragem e sacrifício

Cristèle Alves Meira

Ao seu lado, tem a mãe e a família que chegam de França para o funeral, que tarda em se realizar, à espera de um irmão. Uma espera com o caixão aberto, no meio da casa, por vários dias, a assistir a violentas discussões familiares e gritaria que geram situações hilariantes, num filme que se desenrola entre o drama e a comédia. "Alma Viva" é uma sátira à morte e ao poder dos mortos sobre os vivos e era fundamental este lado de comédia. A própria Lua Michel reconhece que uma das cenas em que se ri, sempre que revê o filme, é aquela em que, sentada debaixo do caixão da avó, assiste à grande zaragata entre as mulheres da família.

O que torna também especial esta produção, que tem feito sucesso no circuito internacional dos festivais de cinema, é o lado autobiográfico do filme, e onde os próprios habitantes da aldeia, familiares, vizinhos e amigos da realizadora, que a conhecem “desde sempre”, compõem o elenco. Ana Padrão, Jacqueline Corado e Ester Catalão são algumas das atrizes profissionais do filme.

Assombrada pelos espíritos

Junqueira é a aldeia da família de Cristèle Alves Meira, de onde a sua mãe saiu para Lisboa sozinha, aos 13 anos, e daí para França, e onde a realizadora também passava as férias em casa da avó, na infância. Agora continua a ir sempre no verão com o marido e os filhos, Lua Michel e o irmão, de quatro anos. A casa da avó de Salomé é mesmo a casa da avó de Cristèle Alves Meira, que estava "abandonada e foi reconstruída para o filme".

"Comecei a pensar neste filme quando a minha avó morreu e decidi que tinha de ser feito em Junqueira, na nossa aldeia. Seria a minha primeira longa-metragem. Contudo, este não é um retrato autobiográfico, pois tem muita ficção. O meu objetivo foi criar uma fábula com as vivências e tradições portuguesas que tocam emocionalmente todos os emigrantes, mas às quais acrescentei cenas mágicas, efeitos especiais do mundo do fantástico", realça Cristèle Alves Meira, com a filha Lua Michel a seu lado, nos dias da maratona de entrevistas em Lisboa.

É uma família típica da aldeia, como a minha de mulheres fortes que discutem alto, e fiz tudo para que fosse o mais autêntico possível, mas também é uma família de cinema pela sua excentricidade

Cristèle Alves Meira

As discussões familiares acaloradas entre irmãs, as emigradas e a que ficou em Portugal a cuidar da mãe, são bem portuguesas. "Aconteceram no funeral da minha avó", lembra a luso-francesa, de 39 anos. "É uma família típica da aldeia, como a minha de mulheres fortes que discutem alto, e fiz tudo para que fosse o mais autêntico possível, mas também é uma família de cinema pela sua excentricidade", vinca a realizadora. 

Ao seu lado, a filha Lua Michel faz divertida a caricatura, num português quase perfeito, revelando como a sua avó portuguesa e a sua avó francesa são o oposto. "A minha avó francesa é chique, até na forma que pede para passar o sal na mesa, já a minha avó portuguesa fala alto e muito". Cristèle também se ri e explica que quando a mãe, que vive em Paris, está com franceses, já adota uma postura mais discreta. "Nós as portuguesas somos assim".

Em Trás-os-Montes existe essa força da espiritualidade. O Miguel Torga dizia que é uma região 'em que o terror mágico se mistura com o sobrenatural'. E isso sente-se no ar quando ali estamos

Cristèle Alves Meira

Embora a avó de Cristèle não fosse espírita, ela passou a infância a ouvir histórias de bruxaria e de espíritos na aldeia da sua mãe e do seu pai, perto de Viana do Castelo. Um mundo que a fascinava e assustava, simultaneamente. "Em Trás-os-Montes existe essa força da espiritualidade. O Miguel Torga dizia que é uma região 'em que o terror mágico se mistura com o sobrenatural'. E isso sente-se no ar quando ali estamos".

A bruxaria sempre foi, por um lado, "uma forma de poder das mulheres no mundo completamente patriarcal" e, por outro lado, era um rótulo colocado pelos homens às mulheres poderosas e emancipadas, que não seguiam as regras patriarcais estabelecidas, ousando mostrar a sua independência. 

"Todas as mulheres independentes são bruxas", ouve-se no filme. "Nas aldeias, como as dos meus pais, as mulheres são muito fortes e em casa têm poder, mas este está escondido entre as quatro paredes. A elas faço também homenagem".

Cristèle Alves Meira e Lua Michel vivem em França mas no verão vão sempre para a aldeia natal, Junqueira, onde foi rodado o filme.
Cristèle Alves Meira e Lua Michel vivem em França mas no verão vão sempre para a aldeia natal, Junqueira, onde foi rodado o filme.
Foto: Rodrigo Cabrita

À pequena atriz Lua Michel nada a incomodou interpretar uma bruxa, pelo contrário. "Gosto das histórias de feitiçaria e gostei de fazer os rituais de magia, foi engraçado e não me assustei", confessa a menina. A filha não foi a primeira escolha para protagonizar a longa-metragem de Cristèle, apesar de já ter sido também protagonista de uma curta-metragem sua, "Tchau Tchau", e do filme "Palma", de uma amiga da realizadora.

"A minha ideia era que a Salomé fosse mais velha, e a Lua ajudou-me nos castings que foram muitos. Entretanto, a Lua foi crescendo e amadurecendo, e um dia percebi que afinal tinha a Salomé em casa, não precisava procurar mais. Além de que ela conhece bem a aldeia, os outros atores do elenco que são habitantes, e tinha confiança comigo", lembra a realizadora olhando para a filha, que admite gostar de ser dirigida pela mãe. 

Contudo, durante a preparação e rodagem do filme Lua Michel teve sempre ao seu lado uma coach que decidia a melhor forma da menina fazer as cenas, sobretudo as mais pesadas.

Na escola [em Junqueira] tínhamos sempre música a tocar nos recreios, o que era engraçado, mas a matemática é mais difícil do que em França

Lua Michel

Lua Michel não irá esquecer a aventura que foi protagonizar "Alma Viva". Os pais e o irmão, então com dois anos, mudaram-se durante quase seis meses para Junqueira para as filmagens, que decorreram em 2021. "A Lua, na altura com oito anos, esteve três meses na escola de lá, no terceiro ano do primeiro ciclo, e foi aí que aprendeu a falar bem português. Nos outros dois meses, quando já estávamos em filmagens, a Lua tinha aulas em casa". 

"Na escola tínhamos sempre música a tocar nos recreios, o que era engraçado, mas a matemática é mais difícil do que em França", realça Lua que gosta "muito" de passar as férias na aldeia, "ir com os primos ao rio e estar com os amigos de lá". Mas também gosta de Lisboa, como confessa. "Gosto dos museus e gosto muito dos restaurantes portugueses", pela gastronomia.

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De Junqueira para o mundo

Cristéle recorda, com muita felicidade, os meses de rodagem em Junqueira. "Toda a aldeia se transformou num enorme décor do filme. Éramos entre 40 a 100 pessoas envolvidas na produção, trouxemos uma vida nova à aldeia, muita gente na rua e a encher os restaurantes e hotéis da zona. Foi muito giro e os habitantes gostaram muito". 

Alguns dos habitantes já tinham também participado como atores noutra curta-metragem de Cristèle Alves Meira, que se diz profundamente ligada à aldeia portuguesa. "Nasci e vivo em França mas as minhas raízes são portuguesas, vimos sempre no verão para Junqueira e, também em novembro, para a apanha da azeitona e para fazer o azeite, sou muito apegada a esta tradição", confessa a realizadora soltando uma gargalhada ao assumir que é "uma portuguesa rural".

Também Lua gosta destas tradições que este ano vão ter de falhar. "Desta vez, não vimos cá fazer o azeite porque tenho de continuar a viajar com o filme, no roteiro dos festivais de cinema, onde felizmente está a ser muito bem acolhido", salienta com satisfação a realizadora da longa-metragem que é uma co-produção entre a portuguesa Midas Filme, a francesa Fluxus Fims e a belga Entre Chien et Loup.

A realizadora luso-francesa sonha em levar o filme à cerimónia dos Óscares 2023.
A realizadora luso-francesa sonha em levar o filme à cerimónia dos Óscares 2023.
Foto: Rodrigo Cabrita

"Alma Viva" estreou-se mundialmente na Competição da Semana da Crítica no Festival de Cannes onde também Lua Michel acompanhou a mãe, como faz sempre que a escola o permite. No início de novembro esteve em Portugal a viajar com o filme e numa verdadeira maratona de entrevistas, em três dias, pois estava na pausa escolar.

"Gosto de ser discreta e de poder caminhar anónima na rua. Gosto de ser atriz, mas sem a parte da fama, das pessoas a abordarem-me para autógrafos e fotos e dos papparazi, que horror",

Lua Michell

Atriz mais nova em Cannes

Em Cannes, Lua foi a atriz mais jovem do certame deste ano do festival de cinema, e deu nas vistas, tendo sido muito solicitada para entrevistas e fotografias sempre ao lado da mãe. Mas, como conta, não gosta da fama. 

"Gosto de ser discreta e de poder caminhar anónima na rua. Gosto de ser atriz, mas sem a parte da fama, das pessoas a abordarem-me para autógrafos e fotos e dos paparazzi, que horror", diz fazendo uma careta ao recordar o pedaço de fama que a perturbou. "Em Cannes, estávamos a passear à noite na rua e uma senhora americana, que tinha visto o filme, reconheceu-me e quis tirar uma fotografia comigo. Fiquei tão surpreendia e até perturbada. Não gostei".

Interpretar uma bruxa não assustou Lua Michel, de 11 anos, pelo contrário, até se divertiu.
Interpretar uma bruxa não assustou Lua Michel, de 11 anos, pelo contrário, até se divertiu.
Foto: Rodrigo Cabrita

Apesar desse lado menos agradável, Lua Michel gostava muito que o filme conseguisse ser nomeado para os Óscares, e se assim for quer acompanhar a mãe e o pai, que também trabalhou na produção, à cerimónia, em Los Angeles. "Sabemos que será difícil, pois há mais de 80 países candidatos, mas quero acreditar que pode ser possível acabarmos nomeados. Tenho sempre pensamentos positivos, existem coisas lindas a acontecer com este filme, poderia ser mais um milagre", diz Cristèle Alves Meira, lembrando que Portugal nunca conseguiu chegar à final, e ser nomeado para a categoria de Melhor Filme Internacional dos Óscares. 

Dia 15 de dezembro será conhecida a primeira lista destes candidatos aos Óscares, da qual serão posteriormente eleitos os cinco nomeados. Se o filme for selecionado "podemos acreditar nas bruxas", desfia a realizadora com uma gargalhada.

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