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"As bestas". Tripas à moda da Galiza
Opinião Cultura 1 3 min. 24.07.2022
Crítica de cinema

"As bestas". Tripas à moda da Galiza

Crítica de cinema

"As bestas". Tripas à moda da Galiza

Foto: DR
Opinião Cultura 1 3 min. 24.07.2022
Crítica de cinema

"As bestas". Tripas à moda da Galiza

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
É um dos melhores filmes exibidos este ano na Croisette.

Ouvir Thierry Frémeaux, o todo-poderoso delegado-geral do Festival de Cannes, lamentar que o projeto "As bestas" tenha chegado tão tarde aos olhos dos selecionadores só pode significar duas coisas: que Rodrigo Sorogoyen se tornou um dos 'boys' de Cannes ou que o filme seria mesmo excecional.

Acho que as duas possibilidades são verdade. "As Bestas" é um dos melhores filmes exibidos este ano na Croisette, e já há alguns anos que Rodrigo Sorogoyen se tornou uma bandeira do cinema espanhol, erguido como rei de uma nova onda de ficção policial muito realista.

O espanhol gosta de planos intrigantes, de gente corroída pelo luto e procura emoções nos mais simples detalhes, transformando assim as coisas mais trivial em fontes de medo. Peca pelo 'toque Netflix', que convencerá a maioria mas que, pessoalmente, me desagrada.

O filme coloca ainda questões sobre o direito ao solo, sobre a humanidade de cada um, sobre o ostracismo, sobre a xenofobia, sobre os conflitos insolúveis, sobre a relação entre economia e ecologia ou ainda sobre a dureza do mundo rural que sente nas tripas cada agricultor.

Sorogoyen não assina thrillers espetaculares: a tensão vem das profundidades, de um olhar, de uma situação em que uma palavra levou a uma derrapagem completamente descontrolada.

Construído em duas partes, o filme segue um casal francês que se auto-exila numa aldeia perdida nas montanhas galegas. Ansiando por uma vida mais próxima da natureza, os franceses estabelecem-se em Espanha para praticar agricultura orgânica e sustentável, enquanto se dedicam a restaurar ruínas de casas abandonadas para atrair novos colonos.

Em princípio, isto deveria agradar aos habitantes da terriola, mas todos os que já viveram numa aldeia adivinharão que não é assim que as coisas funcionam (embora o casal francês não disponha dessa preciosa informação). Desde que se instalam, os franceses são acolhidos com ameaças e olhares hostis, principalmente porque ousarem opor-se a um projeto de parque eólico e à promessa de lucro para os habitantes da aldeia.

O caso das eólicas, parece ser mais um pretexto do que a origem do conflito entre a aldeia e "os franceses". Há na terra dois movimentos difíceis de conciliar: de um lado estão os que fogem da cidade para se aproximarem do campo e os que fogem da terra, esgotados por anos de trabalho duro dirigindo-se para as grandes cidades.

O realizador encontra aqui a tensão essencial de "As bestas" e faz a análise de um pensamento xenófobo e bairrista. O filme é uma bofetada bem forte, que nos deixa sem respiração, uma especialidade deste realizador. Nunca mais esquecerei a sensação que me deixou 'El reino', de onde saí sem respirar uma única vez.

As interpretações de Marina Foïs e Denis Menochet são essenciais no resultado final. Ainda há dias elogiei nestas páginas a capacidade depardieusiana que tem Menochet em interpretar um papel com o seu corpo todo e volto a repeti-lo. Tanto a sua atuação como a de Foïs são de tirar o fôlego.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Com "As bestas", Sorogoyen estuda a complexidade das relações humanas e as relações violentas que podem surgir diante da justiça quando pontos de vista opostos se chocam. O filme coloca ainda questões sobre o direito ao solo, sobre a humanidade de cada um, sobre o ostracismo, sobre a xenofobia, sobre os conflitos insolúveis, sobre a relação entre economia e ecologia ou ainda sobre a dureza do mundo rural que sente nas tripas cada agricultor.

Mas o que faz mexer "As bestas" é a divisão entre dois clãs. De um lado, os pobres nascidos na terra e que sonham metamorfosear-se e aceder ao papel de ser urbano, e do outro, os idealistas que escolheram uma remota região pelo que ela representa aos seus olhos.

A oposição é inevitável, o confronto é amargo. "As bestas" disseca o estado de uma sociedade espanhola moribunda, refém de uma realidade económica que a empurra para o pior.

A inteligência do filme é conseguir mostrar as posições opostas sem cair em interpretações fáceis e sem tomar posição. O realizador não desculpa os "bons franceses" vítimas da xenofobia local, nem encontra explicações para os moradores capazes de tudo para defender a sua terra tal como a conhecem, mas tenta entendê-los a todos e a todos respeita de igual forma.

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