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Artista português leva a liberdade da criação aos presos do Luxemburgo
Cultura 3 7 min. 21.09.2022
Música

Artista português leva a liberdade da criação aos presos do Luxemburgo

Música

Artista português leva a liberdade da criação aos presos do Luxemburgo

Foto: Pierre Matgé/Luxemburger Wort
Cultura 3 7 min. 21.09.2022
Música

Artista português leva a liberdade da criação aos presos do Luxemburgo

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
O projeto artístico "Let It Out", feito com os reclusos do CPL e que resultou em duas canções de rap, videoclipes e um documentário, foi coordenado pelo musicólogo português Paulo Lameiro. É apresentado esta tarde na Philharmonie.

A relação do português Paulo Lameiro com a Philharmonie já tem mais de uma década, mas o projeto do etnomusicólogo com os reclusos do Centro Penitenciário do Luxemburgo (CPL) é o primeiro.

"Let it Out", nome da parceria artística que dirigiu e coordenou, com um grupo de presos deste estabelecimento, numa iniciativa promovida pela Fondation EME, apresenta-se esta quarta-feira, às 19h, no Espace Découverte da Philharmonie.

Numa atividade de cocriação que foi sendo desenvolvida ao longo de um mês, entre reclusos e rappers e artistas profissionais foram criadas e gravadas duas canções de rap e videoclipes. 

Vincent Habay, conhecido como 'Taipan', trabalhou com os reclusos para criar as batidas e a montagem das canções, enquanto Xavier Van Damme, 'Forsan', ficou encarregado de ajudar os reclusos a escrever as letras, incluindo as rimas e a sua adequação ao ritmo. 

Tudo isso com a ajuda de Amit Dhuri, percussionista, e a direção do português Paulo Lameiro, cuja larga experiência com este tipo de comunidade é agora replicada no Grão-Ducado.

"Eu tenho uma relação com a Philharmonie há mais de 10 anos e tenho vindo regularmente fazer concertos para bebés. Entretanto souberam que eu, em Portugal, além dos bebés, trabalho com muitas outras populações e que tenho um projeto que se chama Ópera na Prisão, que tem vindo a crescer muito nos seus resultados e perguntaram-me se eu estaria interessado em vir fazer um programa com a prisão local", explica o etnomusicólogo em entrevista ao Contacto.

Depois da covid-19 e de conseguir conjugar agendas, Paulo Lameiro arranjou, finalmente, o tempo necessário para se dedicar a este projeto com os reclusos do CPL. "Tinha um mês livre e decidi passar, no fim das minhas férias, aqui no estabelecimento prisional, a convite da Fondation Eme, não na área da ópera, que é um dos temas que eu mais trabalho em contexto prisional, mas no rap e hip-hop."

Com o musicólogo de Leiria e toda a sua equipa artística, os reclusos da CPL tiveram a oportunidade de descobrir todos os passos que levam à criação de uma canção e à realização do respetivo videoclip. 'Drill X Boom Bap' e a 'Chill' são os resultados dessa criação, que se materializa ainda nos videoclips e num documentário realizado por David Laplant.

"Somos um quinteto e o meu papel foi coordenar esta equipa e estabelecer os pontos entre a comunidade prisional e os artistas, bem como - e essa é uma das características do meu trabalho com a comunidade prisional - trabalhar com a comunidade exterior. Portanto, trabalhámos também com os familiares e amigos que são fundamentais para o sucesso social deste projeto", explica Paulo Lameiro.    

Criar confiança no outro

O lado social é o primeiro e o grande objetivo de projetos deste tipo, em que a arte funciona como um catalisador. Por isso, é importante estabelecer uma relação prévia de confiança, sobretudo considerando as especificidades de uma população com as características da prisional.

Paulo Lameiro (ao centro) coordenou o projeto que é uma cocriação dos reclusos com artistas profissionais.
Paulo Lameiro (ao centro) coordenou o projeto que é uma cocriação dos reclusos com artistas profissionais.
Foto: DR

"O primeiro impacto que um projeto destes tem é ao nível das relações humanas. Antes de sermos artistas somos pessoas em quem eles [os reclusos] têm de confiar". Por isso, Paulo Lameiro sublinha que todos os projetos que coordena "têm uma primeira fase muito intensa que é só aprender a estarmos uns com os outros, aprender a confiar". "É talvez ao nível da confiança no outro que os nossos projetos têm mais impacto. A arte e a música, neste caso, são mediadores que facilitam o estarmos com o outro e com nós próprios", acrescenta.

Isso não invalida que o palco e a performance sejam importantes, tendo além das músicas e letras originais, sido criados três videoclipes e o documentário, que serão apresentados na Philharmonie e que resultam daquilo que Paulo Lameiro define como um trabalho de co-criação. "Também é importante este conceito nos projetos. As obras são trabalhadas e criadas por profissionais e não profissionais, num projeto de co-criação."

Motivar reclusos sem preconceitos

Se por um lado é necessário estabelecer uma relação prévia de confiança com estas pessoas, que se encontram encarceradas - "a maior parte vive com uma desconfiança em relação aos outros", lembra o musicólogo -, por outro, o processo de motivá-las para um projeto artístico desta natureza não é assim tão diferente do que se faria com qualquer outra comunidade.

"Motivam-se reclusos como se motiva qualquer ser humano. A ideia de que a população prisional é muito distinta da população não prisional é um preconceito que nós temos", defende Paulo Lameiro. Ou seja, tem de ser "um projeto inovador, com qualidade e que faça participar".

Daí a importância da co-criação. É importante que os envolvidos sintam que são parte do projeto e que o que este oferece, do ponto de vista artístico, tenha qualidade. "O ser humano quando vê e é exposto a isso aproxima-se, apaixona-se e envolve-se. E esse é o caminho para qualquer projeto em contexto prisional" sustenta o musicólogo.

O grupo de reclusos com o qual trabalhou no CPL é diversificado e tem vivências pessoais diversas. Heterogéneo em idades, culturas e nacionalidades, a sua composição acaba por se refletir nas próprias canções  e enriquecer o resultado final. "É um grupo que 'rappa' em seis línguas e que tem experiências prisionais distintas. Há reclusos que estão presos há muito tempo, com penas maiores decorrentes de crimes mais pesados e temos três reclusos que desde que terminou o projeto já saíram em liberdade", detalha. 

O contacto com o universo do hip-hop a um nível mais artístico também não era estranho a todos os elementos do grupo. Enquanto a maioria não tinha experiência no rap, um dos membros já era profissional desse género musical. "Era alguém que antes de ir para a prisão compunha e criava e mesmo dentro do estabelecimento manteve a sua atividade criativa", exemplifica Paulo Lameiro.

Dois países, duas experiências

Os três reclusos que participaram no projeto dentro da prisão - e que entretanto já foram libertados depois de cumprirem pena, - vão estar em palco no espetáculo desta noite. Mas o resto do grupo não terá autorização para sair.

"Este é o primeiro projeto prisional que estou a organizar [no Luxemburgo]. Em Portugal, eu demorei particamente 15 anos até conseguir levar um grupo de 30 reclusos à Fundação Calouste Gulbenkian. Aqui, é o primeiro projeto, há muitas realidades novas para todos os parceiros, é estranho para o estabelecimento e para a própria Philharmonie ter uma operação de segurança que permita saírem reclusos para o palco", explica Paulo Lameiro.

Foto: DR

O projeto de ópera, que criou em 2003, em Portugal, com o objetivo de baixar a taxa de reincidência criminal, e que levaria os detidos a atuar no palco da Gulbenkian, em Lisboa, juntou músicos profissionais de música clássica e jovens reclusos, que em ciclos de três anos, se encontraram dentro de uma prisão para trocar experiências artísticas e montar uma produção em torno de uma ópera de Mozart. 

Ao todo a criação desta produção envolveu, além dos reclusos, a direção do estabelecimento prisional, técnicos, guardas, familiares, a comunidade exterior, uma orquestra e cantores líricos profissionais. 

Tal como no CPL, que acolheu na terça-feira nas suas instalações a primeira apresentação do 'Let It Out', o projeto de ópera que Paulo Lameiro dirigiu em Portugal fez a sua estreia dentro da prisão, subindo depois ao palco do Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. 

Apesar de só estar prevista, na apresentação desta noite do "Let It Out", na Philharmonie, a atuação ao vivo dos três ex-reclusos, o musicólogo português ressalva que ainda existe a possibilidade de ter "pelo menos um recluso" no palco que está ainda a cumprir pena.

Na quinta-feira os reclusos voltam a atuar nas instalações do Centro Penitenciário. As canções, essas, sobrevivem para lá das grades nos videoclipes e no documentário, que estarão disponíveis no canal do YouTube da Fondation EME até ao final de setembro. 

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