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“Antes de lhes construírem as casas, os portugueses ensinaram aos luxemburgueses o que era cultura”
Cultura 7 min. 02.12.2019

“Antes de lhes construírem as casas, os portugueses ensinaram aos luxemburgueses o que era cultura”

“Antes de lhes construírem as casas, os portugueses ensinaram aos luxemburgueses o que era cultura”

Foto: Anouk Antony
Cultura 7 min. 02.12.2019

“Antes de lhes construírem as casas, os portugueses ensinaram aos luxemburgueses o que era cultura”

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Quando no início de outubro a Biblioteca Nacional do Luxemburgo mudou de instalações, um bibliotecário descobriu um tesouro no meio dos caixotes onde estavam guardadas as velhas relíquias literárias. Livros de astronomia, gramática e retórica escritos por jesuítas portugueses – e que serviram de base à educação de um povo inteiro. História perdida na História.
No depósito de preciosidades da Biblioteca Nacional do Luxemburgo os livros portugueses têm de ser conservados a 15 graus, para não se deteriorarem.
No depósito de preciosidades da Biblioteca Nacional do Luxemburgo os livros portugueses têm de ser conservados a 15 graus, para não se deteriorarem.
Foto: Anouk Antony

Quando se desce às catacumbas da nova Biblioteca Nacional do Luxemburgo, inaugurada no início de outubro em Kirchberg, é preciso usar um casaco. É ali que ficam os depósitos das obras que sobreviveram aos séculos e constituem hoje o grande tesouro literário do país. Enquanto que o resto do edifício está aquecido a uma temperatura entre 21 e 22 graus, aqui os termómetros marcam 15 – para evitar a deterioração do papel.

Além dos pequenos fragmentos de cartas do século VII que foram encontrados no Mosteiro de Echternach, as maiores relíquias que aqui habitam são obras modernistas dos séculos XVI e XVII. Passaram anos armazenadas na velha Biblioteca, na rua de Notre-Dame, e o tempo foi votando as obras a um longo esquecimento. A mudança de instalações obrigou a que fossem remexidas – e, mais uma vez, renasceram.

“É absolutamente extraordinário. Ainda na semana passada encontrei uma tradução latina da obra do padre António Vieira aqui perdida no meio de outros volumes, num caixote”, diz Cristophe Marinheiro, especialista em História do Pensamento e que trabalha na Reserva Preciosa da Biblioteca Nacional. Mas havia mais, muito mais. Livros de matemática e astronomia de Pedro Nunes, uma retória de Cipriano Soares, a gramática latina de Emanuel Álvares. “Isto permite-nos pensar em algo surpreendente. É que, antes de andarem a construir casas para os luxemburgueses, os portugueses ensinaram-lhes o que era o pensamento e a cultura.”

Os Sermões do Padre António Vieira foram estudados por centenas de luxemburgueses, antes do Grão-Ducado ser sequer um país.
Os Sermões do Padre António Vieira foram estudados por centenas de luxemburgueses, antes do Grão-Ducado ser sequer um país.
Foto: Anouk Antony

A ideia fica reforçada com um outro tesouro que existe na Biblioteca: a lista que o Colégio Jesuíta do Luxemburgo entregava aos seus alunos com os livros de leitura obrigatória. Não só é em si uma relíquia como aponta essa inequívoca ascendência portuguesa – grande parte da bibliografia requerida aos estudantes do centro da Europa era produzida na Universidade de Coimbra, com o selo de aprovação da Inquisição.

“Mas o que é verdadeiramente incrível encontrarmos livros de autores portugueses do final do século XVI e início do século XVII impressos numa tipografia luxemburguesa”, continua o bibliotecário. “Isto é um claro sinal da importância que as obras tinham aqui. Fabricavam-se aquilo a que podemos chamare de antecessores dos livros de bolso. Pequenos manuais para os estudantes daqui. E não tenhamos dúvidas. Se havia alguém no Luxemburgo a estudar, era seguramente isto que estudava.”

A vocação do ensino

Os jesuítas foram os grandes educadores do mundo desde que a ordem foi criada pelo espanhol Inácio de Loyola, em 1540. Chegaram a Portugal dois anos mais tarde, no reinado de D. João III, e desenvolveram-se extraordinariamente no país. Os colégios em Lisboa e Coimbra produziam conhecimento científico nunca antes visto, e renovavam uma teologia que poucos anos mais tarde seria ameaçada pela Reforma Protestante. Graças aos Descobrimentos, Portugal tornara-se capital económica do mundo. Com a Companhia de Jesus, um tremendo exportador de conhecimento.

Christophe Marinheiro descobriu uma série de obras portuguesas emcaixotadas e esquecidas. Verdadeiros tesouros que mostram a influência portuguesa no ensino do Luxemburgo.
Christophe Marinheiro descobriu uma série de obras portuguesas emcaixotadas e esquecidas. Verdadeiros tesouros que mostram a influência portuguesa no ensino do Luxemburgo.
Anouk Antony

O Luxemburgo estava no centro da grande convulsão religiosa da Idade Moderna e tornar-se-ia num dos grandes palcos para a Contrareforma católica se afirmar. As influências protestantes de leste, vindas do que é hoje Alemanha, Flandres e Holanda, nunca chegariam no entanto a ganhar este território. A terra que se diz hoje Grão-Ducado constituía em conjunto com parte da Bélgica uma província do Império Espanhol. Num mapa do início do século XVI da Biblioteca Nacional esclarece-se o nome da região. Estes eram os Países Baixos Católicos.

Quando Filipe II de Espanha se torna Filipe I de Portugal, em 1580, a influência portuguesa da Companhia de Jesus expande-se a um Império tremendo, onde também cabia o Luxemburgo. Em 1603, abre portas o colégio jesuíta no Plateau du Saint-Esprit, com 200 alunos. Quatro anos depois, são já 500. No final desse século, inscrevem-se anulamente 780 alunos.

Estudam-se os gregos, o currículo aposta forte em teologia, retórica e gramática. Áreas onde os padres portugueses davam cartas. A tal ponto que um estudante chamado Johan Philipp Bettendorff, natural de uma família abastada luxemburguesa, viaja para o Maranhão para aprender a missão evangelizadora do Padre António Vieira. Acabaria por se tornar o seu braço direito na Amazónia, onde acabaria por morrer em 1698.

Até à extinção da Companhia de Jesus em Portugal, pela mão do Marquês de Pombal em 1749, os autores portugueses seriam a base inevitável do ensino luxemburguês. Simultaneamente educadores e missionários, estes homens chegariam ao Japão e ao Tibete antes de todos os outros europeus, evangelizariam Índia e Malaca, o Sião e a Conchichina, o Congo e a Guiné, a Etiópia e a Serra Leoa. Foram-se expandindo à exata medida das monarquias absolutistas da época. E, quando a Revolução Francesa materializou o pensamento iluminista que deu cabo dos regimes instalados, a Companhia ruiu como um castelo de cartas.

Os jesuítas ibéricos dominavam a educação da Europa. A partir de Coimbra, saiam manuais de leitura obrigatório para todos os que queriam saber gramática e retórica, teologia ou matemática.
Os jesuítas ibéricos dominavam a educação da Europa. A partir de Coimbra, saiam manuais de leitura obrigatório para todos os que queriam saber gramática e retórica, teologia ou matemática.
Foto: Anouk Antony

Em 1773, 94 anos antes do Grão-Ducado se tornar plenamente independente, a Companhia de Jesus foi extinta e o colégio jesuíta da cidade fechou definitivamente portas. Milhares de luxemburgueses tinham sido no entanto ali educados ao longo de 170 anos. Lendo a gramática de Álvares, a retórica de Soares, a dialéctica de Pedro Fonseca e os sermões do Padre António Vieira. E é por isso que estes tesouros da Biblioteca Nacional que estavam escondidos em caixotes não são apenas livros. São a memória de um país que estava por acontecer.

A grande sala de leitura em Kirchberg

Se as obras dos jesuítas portugueses constituem um tesouro guardado com todos os cuidados, também é verdade que a nova Biblioteca Nacional é um espaço pensado para o acolhimento dos leitores. “As inscrições aumentaram pelo menos dez vezes desde que nos mudámos para o planalto de Kirchberg”, diz Christophe Marinheiro. “E toda a ideia que queremos promover é agora a de um lugar acessível.”

Há várias secções da Biblioteca onde basta chegar e pegar num livro, escolher uma cadeira, e começar a ler. Mesmo os textos e mapas que estão no Depósito Precioso, como a gramática de Álvares ou a retórica de Soares, podem ser requisitados pelos utentes – e consultados em salas com acesso e temperatura condicionada. “Afinal de contas, os livros só são vividos quando os lemos.”

É uma certa rutura com o passado, esta filosofia. Até outubro deste ano, a instituição estava localizada no centro da capital, precisamente no que 200 anos antes fora o Colégio Jesuíta do Luxemburgo. Instalações antigas, de alguma forma severas, pouco convidativas. O novo edifício, projetado pela arquiteta alemã Julia Bolles-Wilson, foi pensado como um anfiteatro em que os leitores se debruçam sobre quatro níveis de terraços sobre uma espécie de cidade literária. Há mesas de leitura mais expostas, outras completamente reservadas, outras que estão entre um ponto e outro, dando alguma margem ao leitor para mergulhar na sua bolha, sem distrações.

A Biblioteca Nacional do Luxemburgo congrega hoje 1,8 milhões de títulos impressos, 78 mil edições digitalizadas de jornais, além de 641 mil ebooks. Um pormenor no meio de toda esta amálgama: aqui estão todos os números dos quase 50 anos do jornal Contacto. E se a primeira edição, de 1970, denota algum fervor religioso, a que foi publicada depois da Revolução dos Cravos, em 1974, é toda uma ode revolucionária.

A nova Biblioteca é construída como um enorme anfiteatro. Tem 2100 títulos em português, à espera de leitores.
A nova Biblioteca é construída como um enorme anfiteatro. Tem 2100 títulos em português, à espera de leitores.
Foto: Anouk Antony

Também há uma mediateca com perto de 20 mil filmes e documentos audiovisuais – entre estes, uma coleção dos filmes do cineasta português Manoel de Oliveira. Numa sala insonorizada podem consultar-se partituras antigas e dedilhar-se os achados ao piano. Depois há dois corredores para a língua portuguesa, com 2100 títulos registados. Livros de gramática e história num lado, as grandes obras da literatura lusófona do outro. Para consulta e para levar para casa, a Biblioteca disponibiliza uma belíssima coleção de Fernando Pessoa e outra de José Saramago, mais os trabalhos de autores como Pepetela, Mia Couto ou Germano de Almeida.

Na tarde da última sexta feira todos estes espaços estavam repletos, com pessoas de todas as idades. Os jesuítas portugueses haveriam de ficar contentes. Depois de anos esquecidos em caixotes numa velha biblioteca do centro, vivem agora confortáveis numa casa cheia de gente.


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